Diversidade além do pop? Artistas aproximam temáticas LGBTs no fado, rap e sertanejo


Falta de representatividade é principal motivo para começo de carreira dos grupos Quebrada Queer e Fado Bicha, e do cantor de ‘pocnejo’ Gabeu. Ouça podcast. “No Mercado da Ribeira, há um romance de amor entre o André que é peixeiro e o Chico que é pescado / Sabem todos que lá vão que o André gosta do Chico / Só a mãe dele é que não consente no namorico” são versos de “O Namorico do André”, do Fado Bicha.
O grupo português formado por Lila Fadista e João Caçador começou a se apresentar com versões de fados tradicionais. A música acima é derivada de “O Namorico da Rita”, da clássica fadista Amália Rodrigues.
Mas não é só em Portugal que artistas estão aproximando ritmos tradicionais de temáticas LGBTs. No Brasil, o Quebrada Queer é um coletivo de rap que leva essas questões ao hip hop. Já o cantor Gabeu é representante do “pocnejo”, vertente que traz diversidade ao sertanejo.
Os três artistas falam de suas carreiras ao G1 Ouviu (ouça acima o podcast).
Fado Bicha, Quebrada Queer e Gabeu levam temáticas LGBT para estilos mais conservadores
Divulgação/Facebook dos artistas
Logo que decidiu aprender a cantar fado, Lila viu que não poderia ser quem de fato era. “Entendi que para eu cantar nos moldes tradicionais, eu ia ter que deixar uma parte de mim fora e eu não estava disposto a isso”, explica ao G1.
Depois de pouco tempo cantado em um bar em Portugal, Lila conheceu João Caçador, que toca guitarra no duo. Ele também não conseguia cantar o fado tradicional por uma questão de identificação.
“Fico incomodado porque, enquanto pessoa homossexual, não podia cantar uma história de amor entre dois homens ou não podia simplesmente cantar uma história de amor e dirigir-me a outro homem, teria que me adaptar e cantar para uma mulher”, afirma Caçador.
“Não era minha história, eu não estava a contar a minha história.”
Fado Bicha
Hermes de Paula/Divulgação
Hoje o grupo já escreve suas músicas, mas no começo faziam versões e já enfrentava preconceito.
“Nem são os autores, porque grande parte já faleceram, mas são os herdeiros. Eles não querem ver o patrimônio familiar deles associados, como eu dizia, às nossas identidades sujas que vão manchar esse patrimônio”, explica Caçador.
Os dois também falam do pouco espaço na mídia em Portugal. Televisão, por exemplo, só foram uma vez desde que criaram o projeto, mesmo depois de fazer mais de 150 shows no país e fora dele, inclusive no Brasil em novembro do ano passado.
Diversidade no rap
Quebrada Queer é formado por Tchelo Gomez, Murilo Zyess, Guigo, a beatmaker Apuke no Beat, Harlley e Lucas Boombeat
Valdinei/Divulgação
Quando Karol Conka e Rico Dalasam surgiram no rap falando sobre o empoderamento feminino, temáticas LGBTs, Murilo Zyess, do Quebrada Queer começou a se sentir representado.
Antes disso, ele ouvia bastante rap, mas se identificava só parcialmente. “Eu entendia muito dos outros discursos de pessoa periférica, marginalizada, mas questão LGBT, de fato, era zero. Não tinha referência”, explica ao G1.
Isso só foi mudar quando viu Rico Dalasam no palco. “Ele foi a figura mais representativa para mim enquanto um homem gay. Foi quando virou a chave na minha cabeça, eu vi que podia fazer também”, afirmou.
O grupo começou sem muito planejamento depois que ele, Lucas Boombeat, Guigo, Harlley e Tchelo Gomez se encontraram para gravar a faixa “Quebrada Queer” para um canal de YouTube.
Depois alguns shows surgiram, a beatmaker Apuke no Beat entrou no grupo e eles continuaram o projeto. Mas Zyess reclama da falta de convites para shows de rap.
“A gente nunca é chamado para festivais de rap, para eventos. É muito nichado, é muito fechado, é muito difícil furar essa bolha”, disse.
“Já aconteceram vários e a gente continua sendo vetado. É uma coisa que não tem o que explicar que não seja por conta do preconceito, da homofobia, LGBTQfobia”
Lembra do Pocnejo?
Gabeu e o pai Solimões
Divulgação/Instagram do cantor
Gabeu também sente a dificuldade de ter uma agenda cheia. O representante do “pocnejo” chegou a fazer um show por semana perto do lançamento de “Amor Rural”, hoje está com a agenda parada, mas é mais otimista:
“Agora está mais calmo, mas estou com algumas coisas marcadas para o mês do orgulho que é junho já.”
Gabriel Felizardo surgiu junto com o termo no ano passado com a música “Amor Rural”. Antes de chegar na música, que começou com o namorado, ele sabia que queria cantar, mas estava um pouco “perdido” e até tinha escrito músicas mais próximas ao pop.
“O pop é mais aberto às nossas questões, então é muito mais provável que a gente se jogue nesse estilo”. E os exemplos são muitos: Pabllo Vittar, Gloria Groove, Sam Smith, Mika.
Ele achava que unir o universo LGBT e a música sertaneja seria uma coisa impossível, mas se enganou e transformou isso em objetivo.
“Tento unir duas coisas que para mim durante muito tempo eram muito distintas e muito impossíveis de serem postas juntas, como uma coisa só: O universo LGBT e todas as questões que permeiam ali o nosso redor, e a música sertaneja que eu praticamente cresci ouvindo por conta do meu pai.”