Discos para descobrir em casa – ‘Zumbido’, Paulinho da Viola, 1979


Capa do álbum ‘Zumbido’, de Paulinho da Viola
Elifas Andreato
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Zumbido, Paulinho da Viola, 1979
♪ Paulo César Baptista de Faria entrou na roda em 1964, ano em que o sambista debutante apresentou músicas na informalidade aconchegante do restaurante ZiCartola, improvisado palco de vida tão efêmera quanto marcante na cena carioca.
Nomeado artisticamente Paulinho da Viola por Sérgio Cabral e por Zé Kétti (1921 – 1999), o cantor, compositor e músico carioca sobreviveu ao fim do ZiCartola como integrante do elenco do musical Rosas de ouro (1965) e do conjunto A voz do Morro, com o qual gravou dois LPs. Seguiu-se álbum, Na madrugada (1966), dividido com o parceiro Elton Medeiros (1930 – 2019).
Contudo, foi a partir do ingresso na gravadora EMI-Odeon, em 1968, que Paulinho debutou na carreira solo e criou as bases sólidas de obra construída com o requinte de ourives e calcada no samba e no choro. Na Odeon, Paulinho lançou onze álbuns a partir de 1968 em luminosa passagem encerrada com dignidade com a edição de Zumbido (1979).
Com capa assinada por Elifas Andreato, cuja arte remeteu ao ofício da marcenaria também exercido com devoção pelo sambista, o álbum Zumbido reeditou o alto padrão de qualidade de Paulinho da Viola.
Artista que nunca procurou impressionar, sem jamais aderir a modismos musicais e entrar em ondas, Paulinho apresentou disco de 40 minutos gravado com 12 faixas coerentes com o universo musical desse sambista que sempre embutiu eventuais dissonâncias e modernidades harmônicas entre as frestas das tradições.
Coube ao próprio Paulinho orquestrar a produção executiva de Zumbido, arregimentando músicos como o então já veterano flautista Copinha (1910 – 1984) para dar forma a repertório inteiramente voltado para o samba e majoritariamente autoral, quase todo composto durante a gravação do disco, em casa ou no próprio ambiente do estúdio.
De início, a gravadora promoveu o álbum nas rádios com o samba Pode guardar as panelas (Paulinho da Viola), crônica da crise econômica que minava o poder de compra da parcela mais pobre do povo brasileiro. Na sequência, outro samba – Recomeçar, uma das obras-primas da parceria de Paulinho com Elton Medeiros – se impôs e, com o tempo, se tornou a música mais conhecida da safra autoral de Zumbido.
A seleção autoral do disco apresentou sambas filosóficos e reflexivos, bem ao estilo interiorizado do compositor, casos de Deixa pra lá – nunca mais regravado desde então – e de Aquela felicidade, este bafejado pelo sopro da flauta de Copinha, instrumento sobressalente no arranjo.
Amor é assim – composição reavivada no disco ao vivo editado por Paulinho em 2007 na série acústica da MTV – foi outra pérola que reluziu primeiramente em Zumbido e depois ganhou admiradores.
Com maestria, Paulinho da Viola sempre soube olhar para dentro de si nestes 56 dignos anos de trajetória profissional com a mesma elegância com que pisou no terreiro, em movimento exemplificado no álbum Zumbido com Não posso negar, samba embasado com justificado orgulho negro (“Você sabe que sou quilombola / E não posso negar”, afirmou, tão assertivo quanto pagodeiro).
Além de extraordinário compositor, Paulinho sempre foi intérprete lapidar, do tipo que sabe pescar pérolas para lustrá-las com a voz precisa e a devida densidade, se apropriando da obra alheia como se ela fosse dele, Paulinho.
Em Zumbido, o artista brilhou especialmente como intérprete ao dar voz a Chico Brito, então esquecido samba do compositor fluminense Wilson Baptista (1913 – 1968) em parceria com Afonso Teixeira (1920 – ????), lançado em disco em 1950 pela cantora Dircinha Batista (1922 – 1999). Ao perfilar malandro valente do morro que defendia tese de ter sido marginalizado por efeito da sociedade má e injusta, Paulinho da Viola amplificou a voz dos excluídos – no caso de Chico Brito, sem tomar partido, mas fazendo refletir.
Outra composição alheia do álbum, esta inédita, foi Coração oprimido (Walter Alfaiate e Zorba Devagar), samba que bateu com a melancolia entranhada na obra do ourives do sambista chorão. Outra lírica composição de criação alheia, Passei por ela (Álvaro Cardoso e Waldemiro de Oliveira), tinha ares de velha guarda e bem poderia ser da lavra do artista, parceiro de Mauro Duarte (1930 – 1989) na composição de Foi demais, samba triste que, assim como o já mencionado Coração oprimido, seguiu na linha “meu coração é um pote aqui de mágoa”.
Disco que apresentou Amor é de lei (Paulinho da Viola e Sérgio Natureza), samba desde então nunca mais regravado, o álbum Zumbido deu o politizado recado final com a música-título. Com letra que jamais soou panfletária, o samba Zumbido ecoou nos ouvidos dos compradores do disco como manifesto em defesa da luta dos direitos de igualdade do povo negro.
Para bom entendedor, aquele samba já bastava. Mas nem todo mundo ouviu. Com modernada repercussão comercial, o álbum Zumbido marcou o fim da era áurea de Paulinho na gravadora Odeon, mas gerou show antológico na trajetória do artista. Um show teatral no qual o sambista chorão personificou em cena o próprio personagem Zumbido na defesa da arte negra.
Contratado pela WEA, o cantor faria três álbuns na nova companhia, entre 1981 e 1983, até se retirar progressiva e voluntariamente do mercado fonográfico, voltando ao disco somente em 1989.
Desde então, Paulinho da Viola gravou somente um álbum de estúdio com músicas inéditas, Bebadosamba (1996), lançado há já longos 24 anos. Mas permaneceu com público cativo nos shows por conta da imaculada obra fonográfica, esculpida com critério em álbuns de beleza perene como este nobre Zumbido.