Discos para descobrir em casa – ‘Verde que te quero rosa’, Cartola, 1977


Capa do LP ‘Verde que te quero rosa’, de Cartola
Ivan Kligen
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Verde que te quero rosa, Cartola, 1977
♪ É incrível que um compositor da dimensão de Cartola somente tenha tido oportunidade de gravar e lançar um álbum solo em 1974, quando já contabilizava 66 anos de vida e quase 50 de carreira iniciada na segunda metade da década de 1920.
Criado em abastados bairros cariocas como Catete e Laranjeiras, mas diplomado bamba no Morro de Mangueira, Angenor de Oliveira (11 de outubro de 1908 – 30 de novembro de 1980) ao menos compensou o tempo perdido e, antes de sair de cena, aos 72 anos, lançou outros três álbuns em que registrou o suprassumo de cancioneiro lapidado intuitivamente com requinte melódico, harmônico e poético.
Produzido por Sérgio Cabral, o álbum Verde que te quero rosa foi o terceiro dos quatro LPs lançados por Cartola entre 1974 e 1978. Se os dois primeiros essenciais álbuns do artista – ambos intitulados Cartola e lançados em 1974 e em 1976 – foram editados pela gravadora independente Discos Marcus Pereira, Verde que te quero rosa marcou a estreia de Cartola na gravadora RCA-Victor ao ser lançado em 1977.
Mesmo sem enfileirar standards do cancioneiro do compositor como os LPs que o antecederam, o álbum Verde que te quero rosa roçou o alto nível artístico dos dois discos anteriores e legou para a posteridade ao menos um clássico do compositor, Autonomia, samba então bem recente – composto por Cartola em julho daquele ano de 1977 – que ganharia cerca de 25 regravações desde o registro original feito por Cartola com o toque do piano de Radamés Gnattali (1906 – 1988), criador do arranjo orquestral da faixa, a única formatada por Radamés entre as 12 do disco.
Tingido com as cores vivas dos arranjos tradicionais de Horondino José da Silva (1918 – 2006), o extraordinário violonista conhecido no meio musical como Dino Sete Cordas, o álbum Verde que te quero rosa abriu com o samba-título, composto em 1976 em exaltação à Estação Primeira de Mangueira, agremiação carnavalesca de inusitada combinação de cores sugeridas pelo próprio Cartola na fundação da escola em 1928.
Nesse álbum de 1977, a Mangueira também foi louvada pelo bamba fundador nas cores da foto da capa do disco – imagem antológica do fotógrafo Ivan Klingen – e na também icônica abordagem de Pranto de poeta (1957), samba da nobre parceria de outro bamba mangueirense, Nelson Cavaquinho (1911 – 1986), com Guilherme de Brito (1922 – 2006).
Nelson participou simbolicamente da gravação, dando a voz roufenha a um verso do samba, em conexão histórica com o colega da mesma estirpe, em encontro de bambas que acabou ofuscando a gravação anterior de Pranto de poeta feita por Cartola em 1968 com Clementina de Jesus (1911 – 1987) e Elizeth Cardoso (1920 – 1990).
Com o canto rústico que embutia profundas emoções reais, corroborando a tese de Vinicius de Moraes (1913 – 1980) de que “o samba é a tristeza que balança”, Cartola se confirmou grande intérprete no álbum Verde que te quero rosa, inclusive de obras alheias, ao cair no suingue do buliçoso samba Escurinha (Geraldo Pereira e Arnaldo Passos, 1952).
Das pérolas autorais, o samba-canção A canção que chegou – composto por Cartola com Nuno Veloso em 1971, mas lançado somente nesse disco de 1977 – foi joia rara que reluziu no álbum Verde que te quero rosa.
A canção que chegou é relíquia que merece ser redescoberta, embora o samba-canção já tenha merecido registros de Cida Moreira e de Moyseis Marques, ambos lançados em 2008, ano do centenário de Cartola, artista que permanecera esquecido nas décadas de 1940 e 1950 – após ter composições gravadas nos anos 1930 por cantores do porte de Francisco Alves (1898 – 1952) – até ser resgatado nos anos 1960.
Contudo, cabe ressaltar que, em 1958, anos antes da (re)descoberta de Cartola, Jamelão (1913 – 2008) – cantor consagrado como o mais potente intérprete de sambas-enredos da Mangueira – deu voz solitária ao compositor ao gravar o samba Grande Deus, revivido por Cartola no álbum Verde que te quero rosa.
Entre os sete sambas até então inéditos em disco, o álbum de 1977 apresentou Desfigurado – samba lembrado por Ney Matogrosso em disco em tributo a Cartola lançado em 2002 – e Que é feito de você?, samba composto por Cartola em 1958, como informou o jornalista Lúcio Rangel (1914 – 1979) em texto escrito para o encarte do LP original de 1977 e reproduzido na edição em CD do álbum, lançada em 2001 na série RCA 100 anos de música.
No tom nostálgico de Tempos idos (1968), parceria de Cartola com Carlos Cachaça (1902 – 1999), outro bamba que plantou sementes que deram em Mangueira, o artista rememorou a saga vitoriosa do samba para driblar preconceitos sociais na travessia do morro para o asfalto ao regravar essa composição que já registrara no álbum coletivo Fala Mangueira! (1968), dividido por Cartola com Carlos Cachaça, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho e Odete Amaral (1917 – 1984).
Até então inédito na voz de Cartola, o samba Fita meus olhos – parceria do compositor com Osvaldo Vasques, o Baiaco – tinha sido lançado em 1933 em gravação do cantor Arnaldo Amaral (1912 – 1970). Já Nós dois, samba-canção que fechou o álbum Verde que te quero rosa, tinha sido composto por Cartola em 1964 – pouco antes do casamento com Euzébia Silva do Nascimento (1913 – 2003), a Dona Zica – mas ficou no baú até ser apresentado neste disco de 1977.
Esquecido no álbum, o então inédito samba Desta vez eu vou completou o repertório de Verde que te quero rosa, disco gravado com músicos do naipe do flautista Altamiro Carrilho (1924 – 2012), do ritmista Mestre Marçal (1930 – 1994), do violonista Meira (1909 – 1982) e do baterista Wilson das Neves (1936 – 2017).
Mesmo sem repertório tão lapidar quanto os álbuns Cartola (1974) e Cartola (1976), Verde que te quero rosa afirmou Cartola como mestre da delicadeza, criador de sambas depurados que sempre soaram atemporais. Por nunca ter sido moderno, Cartola nasceu, viveu e morreu eterno.