Discos para descobrir em casa – ‘Toque dela’, Marcelo Camelo, 2011


Capa do álbum ‘Toque dela’, de Marcelo Camelo
Arte de Biel Carpenter
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Toque dela, Marcelo Camelo, 2011
♪ Obra de Biel Carpenter, artista plástico paulista residente em Berlim, a imagem da capa do segundo álbum solo de Marcelo Camelo, Toque dela, dialoga com a arte carnavalesca da capa do segundo álbum da banda carioca Los Hermanos, Bloco do eu sozinho.
Dez anos separam os dois discos. Ruptura do quarteto com a pegada hardcore do primeiro álbum, Los Hermanos (1999), Bloco do eu sozinho foi lançado em 2001. Toque dela chegou ao mercado fonográfico em abril de 2011 em edição do selo de Camelo, Zé Pereira, com distribuição da gravadora Universal Music.
Ao longo dessa década, a banda Los Hermanos – e Marcelo Camelo em particular – abriu alas na música brasileira com som que implantou e impôs estética própria, nascida da fusão de MPB e samba com os códigos do rock.
Esse som já era referência no universo pop nacional quando Marcelo de Souza Camelo – cantor, compositor e guitarrista nascido em 4 de fevereiro de 1978 na cidade do Rio de Janeiro (RJ) – apresentou o álbum solo Toque dela.
Embebido em melancolia romântica, o canto de Camelo vem servindo de padrão nos últimos 20 anos para geração cool de intérpretes e compositores que foram atrás do bloco do eu sozinho sem nunca alcançar a dimensão poética e melódica das canções de Camelo (e de Rodrigo Amarante, o outro relevante cantor e compositor carioca revelado no grupo Los Hermanos).
Lançado três anos após o primeiro álbum solo de Camelo, Sou (2008), disco climático pautado pela introspecção, Toque dela flagrou o artista imerso em atmosfera romântica.
A personagem feminina evocada pelo título Toque dela era a cantora, compositora e instrumentista paulista Malu Magalhães, com quem Camelo vinha se harmonizando na vida e na música desde 2008 em namoro que evoluiu para casamento e gerou filha, Luísa, nascida em dezembro de 2015 em Lisboa, cidade de Portugal onde Camelo e Mallu moram desde 2013.
No disco em si, a presença de Mallu se limitou ao coro inserido na gravação de Vermelho, uma das dez músicas do repertório inteiramente autoral do álbum Toque dela. Nove vieram assinadas solitariamente por Camelo. A exceção foi Três dias, inspirada parceria do artista com o quadrinista e compositor (bissexto) André Dahmer.
O álbum Toque dela reforçou a assinatura de Camelo como compositor em tom mais feliz, mas sem romper radicalmente com a estética do disco antecessor Sou. Tanto que o álbum de 2011 teve, em sete faixas, o toque experimental do grupo paulistano de indie-rock Hurtmold – Fernando Cappi (guitarra), Guilherme Granado (vibrafone), Marcos Gerez (baixo) Mário Cappi (guitarra), Maurício Takara (bateria) e Rogério Martins (percussão) – já presente no primeiro disco solo de Camelo.
Musa inspiradora do cancioneiro de Toque dela, Mallu Magalhães pareceu estar presente em cada verso cantado pelo compositor no disco. “Tudo que eu fizer / Vai ser pra ver aos olhos dela / Vai sobrar carinho / Se faltar estrada ou Carnaval”, garantiu o poeta apaixonado em Ô ô, faixa previamente lançada em 3 de março de 2011 como primeiro single do álbum.
Como o Carnaval, toda solidão parecia ter fim para Marcelo Camelo nesse álbum. “Triste é viver só de solidão”, sentenciou o cantor no verso inicial da marchinha A noite, música que abriu o disco. No fecho do álbum, na canção Meu amor é teu, Camelo fez outra declaração de amor para Mallu em forma de música.
Entre uma e outra faixa, Camelo apresentou músicas inéditas – algumas boas, caso de Acostumar, outras aquém do histórico do autor, como Pretinha – e regravou Despedida (2005), grande música que dera para o segundo álbum de Maria Rita.
A cantora, cabe lembrar, tinha sido pioneira ao avalizar Marcelo Camelo como compositor, fora do grupo Los Hermanos, quando apresentou o samba Cara valente (2003) e a dramática canção Santa chuva (2003) no primeiro álbum, além de ter gravado Veja bem meu bem (2001), música feita por Camelo para o segundo álbum da banda em que ganhou projeção.
Acentuando o tom romântico do disco Toque dela, as canções Pra te acalmar e Tudo que você quiser completaram o repertório do álbum gravado no estúdio El Rocha, na cidade de São Paulo (SP), com a participação de Marcelo Jeneci, que tocou piano e/ou acordeom em algumas músicas.
Editado na Espanha e em Portugal pela gravadora Universal Music, o álbum Toque dela rendeu prestígio a Camelo, tendo figurado em listas de melhores discos de 2011.
Mantendo postura refratária à mídia com farta dose de anti-marketing, mesmo tendo cursado jornalismo na Pontifícia Universidade Católica, em cujos pilotis foi criada a banda Los Hermanos, Marcelo Camelo seguiu curso imprevisível após o álbum Toque dela.
O compositor mergulhou no pop com a Banda do Mar – formada com Mallu Magalhães, com direito a disco lançado em 2014 – e experimentou trabalho na área erudita com a criação de sinfonia apresentada em 2018. Paralelamente, o artista desenvolveu a carreira de produtor musical entre as sempre concorridas turnês que trouxeram o grupo Los Hermanos de volta à cena após o recesso anunciado em 2007.
Já pronto, o ainda inédito terceiro álbum solo do cantor tem músicas como Samba pra ela e vem ao mundo cerca de dez anos após Toque dela, disco em que Marcelo Camelo parou de seguir o bloco do eu sozinho, ao contrário do que fez supor a bela arte da capa deste álbum movido pela paixão e pelo amor a dois.