Discos para descobrir em casa – ‘Solta o pavão’, Jorge Ben Jor, 1975


Capa do álbum ‘Solta o pavão’, de Jorge Ben Jor
Arte de Aldo Luiz e Jorge Vianna
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Solta o pavão, Jorge Ben Jor, 1975
♪ Entre a revolução da bossa nova em 1958 e a erupção da MPB a partir da 1965, o alquimista Jorge Ben Jor chegou na música brasileira com samba em esquema realmente novo. Ao ser apresentada em 1963, a batida diferente do violão de Jorge Ben pareceu sinterizar as cadências do samba, do rock e do soul com suingue até então inédito.
Cantor, compositor e músico carioca nascido em março de 1942, Jorge Duilio Lima Menezes emergiu com a força de furacão em 1963 com músicas que, a reboque do grupo do pianista fluminense Sergio Mendes, extrapolaram as fronteiras do Brasil e ganharam os Estados Unidos a partir de 1966.
Paradoxalmente, a carreira do artista foi perdendo fôlego no Brasil em meados dos anos 1960, por mais que o alquimista tivesse trânsito livre entre os diferentes nichos da então dividida música brasileira daquela efervescente década. Até que Jorge retornou com força inesperada em 1969 com álbum vulcânico que mais pareceu best of do cantor tal a concentração de sucessos no repertório autoral.
De 1969 em diante, a carreira de Jorge ganhou impulso e fôlego renovado, mantido ao longo dos anos 1970 com a gravação e a edição anual de discos históricos que ajudaram a propagar o samba-rock naquela década. É nesse contexto que se inseriu Solta o pavão, décimo segundo álbum solo de estúdio do alquimista, lançado no mesmo ano de 1975 em que Jorge gravou disco duplo com Gilberto Gil.
Alocado na discografia do cantor entre dois álbuns antológicos de Jorge, A tábua de esmeralda (1974) e África Brasil (1976), Solta o pavão foi editado pela gravadora Philips com produção de Paulinho Tapajós (1945 – 2013) e com azeitada mistura de samba, rock, soul, funk e samba-rock. Mistura feita sem fronteiras rítmicas, até porque Jorge Ben sempre exerceu a liberdade de cair no suingue sem demarcar previamente territórios musicais.
Com 12 músicas então inéditas alinhadas no repertório inteiramente autoral, o álbum Solta o pavão legou para a posteridade um clássico do cancioneiro de Ben, Jorge de Capadócia, composição também gravada por Caetano Veloso naquele ano de 1975 – no álbum Qualquer coisa – e reapresentada para a geração pop dance dos anos 1990 na voz de Fernanda Abreu em relevante apropriação de Jorge de Capadócia feita pela artista no álbum Sla 2 – Be sample (1992) para saudar tanto o santo da devoção de ambos quanto o próprio Jorge, já então posto definitivamente no altar das divindades da música brasileira.
No álbum Solta o pavão, Jorge Ben voltou ao místico universo filosófico e medieval do disco anterior, A tábua de esmeralda. Essa continuidade ficou explícita já na exposição de signos e símbolos da Idade Média na capa criada por Aldo Luiz com arte final de Jorge Vianna.
Embora tenha soado como desdobramento do álbum de 1974, Solta o pavão adquiriu especial importância na discografia de Ben por ter sido o disco em que ele apresentou a banda Admiral Jorge V, quinteto formado pelo artista (no violão) com os músicos Dadi (no baixo), Gustavo Schroetter (bateria), João Roberto Vandaluz (nos pianos acústico e elétrico) e Joãozinho Pereira (na percussão).
O grupo Admiral Jorge V acompanharia Ben em discos e shows de 1975 a 1977, sendo substituída a partir de 1978 pela elétrica Banda do Zé Pretinho. Em Solta o pavão, álbum de sons acústicos com direito a cordas em várias faixas, Jorge Ben ainda tocou violão, mas optou pela primeira vez pela amplificação do violão ovation, dando início ao processo de eletrificação da obra em transição concluída na segunda metade dos anos 1970.
Solta o pavão foi álbum que alçou voo próprio, mesmo fincado no tripé básico de assuntos recorrentes no cancioneiro de Jorge. Mulheres, futebol e misticismo sempre foram os vértices desse triângulo ao qual o compositor recorreu mais uma vez em Solta o pavão ao escrever repertório de força calcada no ritmo, ao qual foram submetidas letras e melodias fluidas.
Na área futebolística, o craque do suingue tentou chutar para o gol com Zagueiro, samba que abriu o álbum Solta o pavão com homenagem ao jogador de futebol Rondinelli, então zagueiro do Flamengo, time carioca do qual Jorge é ilustre torcedor. Cabe mencionar que as cantoras do Quarteto em Cy entraram em campo na gravação de Zagueiro, fazendo vocais em participação bisada pelo grupo na faixa Para ouvir no rádio (Luciana), arranjada com cordas orquestradas pelo pianista Osmar Milito.
Dorothy, outra musa exaltada por Jorge no álbum Solta o pavão, ganhou o vocal macio da cantora Evinha. Na linha mística, Jorge saudou São Tomás de Aquino (1225 – 1274) – frade italiano ligado à corrente filosófica da teologia medieval – em Assim falou Santo Tomaz de Aquino. Na sequência do disco, Jorge fez súplicas humanistas a Jesus Cristo em Velhos, flores, criancinhas e cachorros.
E por falar em cachorros, a música Cuidado com o bulldog sobressaiu no repertório pelo arranjo que alternou a cadência do samba com batida frenética que evocou a eletricidade do rock. No universo particular de Jorge, buldogue podia muito bem ser metáfora para os justiceiros também presentes no cancioneiro do compositor.
E, entre tanto misticismo medieval, foi difícil resistir à conversão ao tom efusivo da faixa O rei chegou, viva o rei. Entre o suingue sensual de Dumingaz (a musa maior do artista) e a exaltação de Jesualda (última das quatro mulheres celebradas no disco), o álbum Solta o pavão acendeu o tom iluminista do samba Luz polarizada.
Completando o repertório, o samba Se segura, malandro soou – em ouvidos mais atentos – como mera recauchutagem de outro samba do mesmo Jorge Ben, Até aí morreu Neves, lançado há então cinco anos na voz de Elis Regina (1945 – 1982) em gravação do álbum …Em pleno verão (1970).
O título do samba foi mudado, talvez para disfarçar a reciclagem. Já a letra era praticamente a mesma do samba de 1970, embora não exatamente idêntica.
Foi idiossincrasia de artista personalíssimo na história da música brasileira pelo suingue singular que muitos tentaram clonar sem deixar de soar como cópias apagadas da matriz de Jorge Ben Jor, cujo voo rítmico no álbum Solta o pavão mantém a altitude 45 anos após a edição do disco.