Discos para descobrir em casa – ‘Show’, Ná Ozzetti, 2001


Capa do álbum ‘Show’, de Ná Ozzetti
Marcos Hermes
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Show, Ná Ozzetti, 2001
♪ Maria Cristina Ozzetti já vinha trilhando bem-sucedido caminho independente na música brasileira há mais de 20 anos quando foi esboçou novo rumo para a carreira fonográfica com o quinto álbum solo, Show, lançado em 2001 pela gravadora Som Livre.
Ponto fora da curva na discografia dessa cantora e compositora paulistana conhecida como Ná Ozzetti, o álbum Show foi consequência direta da participação da artista no Festival da Música Brasileira, promovido e exibido pela TV Globo no ano anterior.
Nesse festival de 2000, Ná ganhara o prêmio de melhor intérprete pela defesa da música intitulada Show, composta por Fábio Tagliaferri com Luiz Tatit e alocada como a 14ª e última faixa do disco produzido pela própria Ná Ozzetti – com o irmão, Dante Ozzetti, e com Renato Leite – sob a direção artística de Hélio Costa Manso.
Produtor e guitarrista projetado nos anos 1970 como cantor de músicas em inglês, batizado como Steve Maclean, Costa Manso foi o idealizador do conceito do disco, pensado como moderno tributo ao samba-canção.
Com repertório dominado por famosos exemplares do gênero, quase todos lançados originalmente entre os anos 1940 e 1950, décadas áureas do samba-canção, o álbum Show foi tentativa de reapresentar ao grande público a voz de Ná – fina estilista já aclamada em nichos paulistanos desde a década de 1980 como a principal vocalista do Rumo, grupo formado em 1974 na cidade de São Paulo (SP).
Ná entrara no Rumo em 1979 e, seis anos depois, em 1985, começara a fazer shows individuais em trajetória paralela que gerou carreira solo iniciada em 1988 com a edição do álbum Ná Ozzetti.
Também compositora, Ná sempre alternou na discografia solo – em álbuns como Ná (1994) e Estopim (1999) – abordagens inventivas de composições alheias com registros de canções autorais. Mas também gravou discos de intérprete como o já citado álbum de estreia Ná Ozzetti (1988), o adorável tributo a Rita Lee – Love Lee Rita, de 1996 – e Balangandãs (2009), incursão pelo repertório da seminal estrela tropical Carmen Miranda (1909 – 1955), primeira cantora do Brasil a se tornar popstar trinta anos antes da invenção do termo.
Gravado em fevereiro de 2001, em estúdio da cidade de São Paulo (SP), o álbum Show se inseriu nessa linha de disco de intérprete – como sinalizou a presença destacada do microfone na estilosa foto feita por Marcos Hermes para a capa do disco.
Para chegar aos 13 sambas-canção do repertório fechado com a metalinguística música-título Show, ode à vozes límpidas como a da cantora, Ná ouviu cerca de 200 músicas em gravações originais selecionadas por Renato Leite e Ricardo Taciolli e também em fonogramas pesquisados pela própria cantora entre amigos colecionadores de discos.
Garimpado sem as ousadias e as surpresas de álbuns do Rumo e de outros títulos da discografia solo de Ná, o repertório do álbum Show ganhou registros de elegância sublinhada tanto pelo fraseado refinado da intérprete quanto pelos arranjos criados por Dante Ozzetti a partir das cordas de aço do violão tocado no disco pelo músico Kiko Moura.
Esse violão de aço foi harmonizado com o toque do violão de sete cordas, manuseadas por Swami Jr., músico que já tinha bom domínio da sintaxe vocal da cantora.
Confortável na cama harmônica armada por Dante Ozzetti, Ná deu voz a sambas-canção melodramáticos como Meu mundo caiu (Maysa, 1958) e Mensagem (Cícero Nunes e Aldo Cabral, 1946), mas filtrando esse melodrama – típico do gênero e moldado para intérpretes de registros mais inflamados como Maysa (1936 – 1977) e Isaura Garcia (1923 – 1993), por exemplo – pela estética da obra da artista.
Com o requinte dos arranjos de Dante Ozzetti, criados com generosas passagens instrumentais, Ná fez cair Chuvas de verão (Fernando Lobo, 1949), interiorizou a súplica de Não me culpe (Dolores Duran, 1958) – em gravação de melancolia sublinhada pelo toque do violoncelo de Dimos Goudarolis, músico recorrente na ficha técnica do disco – e seguiu com reverência o belo trilho melódico de Caminhemos (Herivelto Martins, 1947), em registro que acentuou a marcação da percussão de Caíto Marcondes, outro músico presente em várias faixas do álbum.
Por mais que a seleção do repertório do álbum Show tenha acenado em tese para um público mais massivo e nada habituado às experimentações do grupo Rumo, o canto de Ná Ozzetti soou extremamente sofisticado, como exemplificou a gravação de As praias desertas (Antonio Carlos Jobim, 1958). A emoção estava toda lá, mas concentrada e jamais explicitada em tons sentimentais.
A elegância de João Valentão (Dorival Caymmi, 1953) resultou em outro exemplo do refinamento do macio registro vocal dessa cantora que sempre esteve as grandes do Brasil.
Do repertório de Carmen Miranda, Ná refez Na batucada da vida (Ary Barroso e Luiz Peixoto, 1934) – com o sopro manemolente do clarinete de Jota Gê Alves, músico convidado da gravação – e Adeus batucada (Synval Silva, 1935). Essas duas faixas de certa forma representaram o embrião do disco e show Balangandãs (2009), idealizado por Ná oito anos depois para celebrar o centenário de nascimento da bombshell brasileira de origem portuguesa.
Dos anos 1930, o álbum Show também rebobinou Último desejo (Noel Rosa, 1937). Samba-canção que inaugurou o gênero, Linda flor (Ai, yoyô) (Henrique Vogeler, Luiz Peixoto e Marques Porto, 1929) ganhou luxuoso registro de voz e violão. No caso, o de Ulisses Rocha, violonista que acompanhara no festival de 2000 e que, por isso mesmo, foi convidado a produzir duas faixas do álbum Show, a citada Linda flor e Segredo (Herivelto Martins e Marino Pinto, 1947), gravação de menor imponência no disco.
Feita com o toque do acordeom Toninho Ferragutti, ouvido também na já citada abordagem de Mensagem, a gravação de Canção de amor (Elano de Paula e Chocolate, 1950) reiterou a limpidez da emissão de Ná Ozzetti, cantora extremamente afinada.
Enfim, Ná Ozzetti sempre foi show! Fora das plataformas de áudio, mas disponibilizado no YouTube, esse álbum de 2001 foi amostra lapidar do canto exemplar de Maria Cristina Ozzetti, intérprete que sempre teve na voz um show.