Discos para descobrir em casa – ‘Se porém fosse portanto’, Francis Hime, 1978


Capa do álbum ‘Se porém fosse portanto’, de Francis Hime
Cafi
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Se porém fosse portanto, Francis Hime, 1978
♪ Em 1978, quando Francis Hime lançou o terceiro álbum solo, Se porém fosse portanto, o compositor, pianista, arranjador, maestro e cantor carioca já contabilizava 15 anos de trajetória na música.
É que Francis curiosamente lançara o primeiro álbum solo somente em 1973, dez anos após a composição da canção Sem mais adeus, criada em 1963 e lançada em disco em 1964 no primeiro e único LP do efêmero conjunto Os Seis em Ponto, integrado pelo artista na fase juvenil da carreira.
Parceria do melodista debutante com o então já consagrado poeta e letrista Vinicius de Moraes (1913 – 1980), Sem mais adeus foi o marco inicial da construção de um dos cancioneiros mais majestosos da música brasileira – obra que ganhou impulso a partir dos anos 1970, década em que Francis Victor Walter Hime, carioca nascido em 31 de agosto de 1939, obteve enfim a devida projeção.
Talvez pelo fato de o lirismo geralmente interiorizado do cancioneiro do compositor ter simbolizado a antítese da grandiloquência explosiva das chamadas “músicas de festival”, o repertório de Francis nunca foi alvo do clamor popular nos festivais da canção – plataformas para a exposição nacional de ícones da música formatada ao longo daqueles efervescentes anos 1960 e logo rotulada como MPB.
Também contribuiu para a demora da estreia fonográfica a ida de Francis em 1969 – com Olivia Hime, parceira de vida e música – para os Estados Unidos, onde o artista estudou composição e orquestração por quatro anos.
Na sequência da volta do casal ao Brasil, o compositor pôs em prática o aprendizado nos EUA ao expandir a obra autoral e ao gravar na Odeon o primeiro álbum solo, Francis Hime (1973), disco em que reapresentou a seminal Sem mais adeus e registrou a então recente Atrás da porta (1972), canção composta com o novo parceiro Chico Buarque e lançada em gravação referencial de Elis Regina (1945 – 1982).
Quatro anos depois, já contratado pela gravadora Som Livre, o cantor lançou o álbum Passaredo (1977), disco que revelou títulos significativos da parceria de Francis com Chico, sobretudo a canção de separação Trocando em miúdos e a ecológica música-título Passaredo.
Álbum lançado pela mesma Som Livre em 1978, Se porém fosse portanto veio na sequência do sucesso do LP Passaredo com 12 músicas inéditas entre as 14 faixas formatadas com produção musical, arranjos e regências do próprio Francis, condutor de time de músicos formado por Chacal na percussão, Nelson Angelo ao violão e Novelli no baixo, entre outros virtuoses.
As regravações do repertório foram duas parcerias com Vinicius, ambas lançadas em 1966. Saudade de amar – gravada por Francis em dueto com Olivia Hime – fora apresentada em disco na voz de Elizeth Cardoso (1920 – 1990). Já Maria tinha sido registrada em disco de festival em gravação que reuniu o grupo MPB4 com Wilson Simonal (1938 – 2000).
Com capa que expôs o artista em foto antológica de Cafi (1950 – 2019), o álbum Se porém fosse portanto abriu com Pivete, samba de Francis com Chico, autor da letra que perfila menino do Rio que, longe do dourado cartão-postal da praia, segue a rota carioca de quem sobrevive na rua entre sinais fechados de avenidas e subidas nos morros da cidade já partida naquele ano de 1977.
Ainda dentro da geografia carioca, mas fora desse universo social, Santa Tereza exalou a nostalgia confessional de vivências mapeadas no bairro carioca que deu nome à composição de Francis com Olivia Hime. “A cidade é muito grande / Uma casa não é nada / Uma casa é só o resto de um sorriso de criança / De uma noite de agonia / De um dia de esperança”, poetizou Francis ao dar voz aos versos do poeta, escritor e compositor paulistano Carlos Queiroz Telles (1936 – 1993) em Demolição.
Proeminente no arranjo, o sopro do trompete de Márcio Montarroyos (1948 – 2007) pautou a gravação da segunda das três parcerias de Francis com Telles. O trompete de Montarroyos também se fez ouvir no arranjo orquestral de Joana, tema sem letra, composto por Francis em homenagem à filha Joana Hime.
O compositor abriu mão dos versos em Joana, mas Se porém fosse portanto foi disco (também) valorizado por letras de poetas. Ao lado de Vinicius de Moraes e de Carlos Queiroz Telles, o mineiro Cacaso (1944 – 1987) marcou presença no álbum em duas faixas.
Além de ter alinhado conjecturas ao longo dos versos da música-título Se porém fosse portanto, Cacaso foi o letrista do belíssimo samba-canção, Terceiro amor, que encerrou o disco em grande estilo com versos memorialistas que fizeram o inventário de afetos, sentimentos e acontecimentos passados no fluxo inexorável da vida.
Na correnteza do álbum Se porém fosse portanto, a arquitetura da densa composição Ode marítima – parceria de Francis com Ruy Guerra – evidenciou a formação erudita do pianista, construída desde a infância em estudos que, na adolescência do músico, foram prosseguidos na Suíça.
Parceria de Francis com Renata Pallottini, escritora paulistana que reforçou o time de letristas poetas do álbum Se porém fosse portanto, A noite injetou vivacidade rítmica bissexta em universo musical quase sempre introvertido. O canto vívido de A noite foi reforçado por coro feminino também arregimentado para a gravação de Ieramá, outra parceria de Francis com Ruy Guerra.
Três Marias – composição de Francis com Olivia Hime – conduziu o álbum ao trilho lírico em que vem correndo grande parte da obra desse compositor que nunca perdeu a inspiração, como comprovaram recentes álbuns de músicas inéditas como Navega ilumina (2014) e Hoje (2019).
Olivia Hime foi nome recorrente na ficha técnica do álbum Se porém fosse portanto como compositora e também como intérprete convidada. Além de ter cantado o samba-canção Saudade de amar com o frescor da voz ainda juvenil, Olivia dividiu com Francis a interpretação de Desembolada, parceria do compositor com Chico Buarque que direcionou o álbum para a rota nordestina com o frenesi rítmico típico da região.
Por fim, mas nem por isso menos importante, o disco apresentou na penúltima faixa a melancólica canção O sim pelo não, primeira e única parceria de Francis Hime com Edu Lobo, colega contemporâneo, conterrâneo e, tal como Francis, compositor reconhecido pela edificação sólida de obras pautadas pelo requinte melódico e harmônico.
Álbum nunca lançado em CD, formato no qual a discografia de Francis Hime tem lacunas injustificáveis, Se porém fosse portanto evidenciou todas as qualidades que seriam mantidas e até aprimoradas pelo artista ao longo da trajetória desse maestro arquiteto de melodias iluminadas com poesia.