Discos para descobrir em casa – ‘Rosa do povo’, Martinho da Vila, 1976


Capa do álbum ‘Rosa do povo’, de Martinho da Vila
Arte de Elifas Andreato
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Rosa do povo, Martinho da Vila, 1976
♪ Ao comentar em entrevista o retumbante comercial do álbum que lançara em 1975, Maravilha de cenário, disco que vendera estimadas 600 mil cópias, Martinho da Vila cunhou frase lapidar em que mostrou rara compreensão do sobe-e-desce do volátil mercado fonográfico.
“De onde estou, somente posso cair”, previu o cantor, compositor e ritmista fluminense revelado em 1967 com a defesa do autoral partido alto Menina moça em festival da canção.
De fato, o artista caiu na oscilante cotação do mercado quando, em 1976, lançou Rosa do povo, nono álbum solo de discografia que ganhara impulso em 1969 com a edição de primeiro álbum, Martinho da Vila, disco que popularizou o partido alto entre o público de classe média ao emplacar sucessivos hits nas paradas.
Tal proeza aconteceu pouco depois de o compositor ter contribuído decisivamente para a modernização do samba-enredo, tornado mais coloquial e menos caudaloso nas incursões do artista pelo gênero que compunha para a Unidos da Vila Isabel, agremiação na qual Martinho José Ferreira – cidadão nascido em Duas Barras (RJ) em 1938 – ingressara em 1965 e com a qual se amalgamara a ponto de ter incorporado o nome da escola ao sobrenome artístico.
Produzido por Rildo Hora e editado em LP com luxuosa capa dupla valorizada pela arte de Elifas Andreato, o álbum Rosa do povo foi concebido com inspiração no poema homônimo, lançado em 1945 por Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987).
A poesia pautou a criação de boa parte do repertório do álbum Rosa do povo, embora Martinho não tenha musicado os versos de Drummond, limitando-se a evocar o universo do poeta – com direito às citações dos nomes de Drummond e do poema Rosa do povo – na letra do partido alto João e José, parceria com João Nogueira (1941 – 2000), convidado de honra da gravação. Composto com alusões a símbolos bíblicos, João e José resultou em partido alto interiorizado, quase cool, em que João (Nogueira) e (Martinho) José teceram comentários sobre o “mundo louco” da época.
Artista que sempre mostrou aguçada consciência social, Martinho da Vila sabia bem o que se passava nos porões do Brasil em 1976. Tanto que o samba Não tenha medo, amigo soou no álbum Rosa do povo como recado certeiro através dos versos – alguns recitados pelo cantor na gravação – que incentivavam movimento “distraidamente distraído” de ocupação nos campos, cidades e sertões. “São demais os perigos desta vida”, alertou Martinho, citando nominalmente na faixa outro poeta, Vinicius de Moraes (1913 – 1980).
Mesmo que tenha corajosamente ecoado o lararará politizado de Martinho, o álbum Rosa do povo também abriu espaço para a alegria, seja exaltando o próprio samba – celebrado já na sofisticada faixa de abertura do disco, Claustrofobia – e a mulher amada, alvo de adoração nos contornos sensuais de Coisa louca, samba sedutor que descendeu da linhagem de Você não passa de uma mulher (1975), sucesso do popular álbum anterior de 1975.
Nessa linha romântica, mas em tom mais desiludido, o cantor deu voz a Quem me dera, nobre samba então inédito de Candeia (1935 – 1978) que Martinho enquadrou no próprio universo particular, a ponto de a composição parecer criação de lavra própria.
Com repertório de menor apelo popular no conjunto da obra de Martinho da Vila, como sinalizou o samba Chorar não cabe agora (parceria do compositor com a então ainda novata Leci Brandão), o álbum Rosa do povo legou sucesso mediano para o artista, Choro chorão (1975), composição feita por Martinho para a cantora Ademilde Fonseca (1921 – 2012).
Ademilde lançou o choro com pompa em álbum de 1975, mas foi a regravação de Martinho que chegou ao público, propagada na trilha sonora da novela Duas vidas (TV Globo, 1976 / 1977). Curiosamente, Martinho regravou Choro chorão 40 anos após Rosa do povo no álbum De bem com a vida (2016), sem obter a mesma repercussão.
No quesito samba-enredo, o álbum Rosa do povo mereceu nota dez com as abordagens de Invenção de Orfeu ((Rodolpho de Souza, Paulo Brazão e Irany) – samba-enredo com o qual a escola Vila Isabel desfilara no Carnaval daquele ano de 1976 com enredo calcado em poema de Jorge de Lima (1893 – 1953) – e História da liberdade no Brasil (Aurinho da Ilha), obra-prima que o Salgueiro levou para a avenida em 1967. Sem falar no autoral e então inédito Ai, que saudade que eu tenho, samba-enredo que reiterou a fluência aliciante de Martinho da Vila na cadência do gênero.
Partideiro hábil na avenida, no salão e no terreiro, Martinho da Vila voltou a falar de poesia – mote do disco Rosa do povo – na letra de Piquenique, samba quente batido na palma da mão que valorizou álbum com o habitual padrão de qualidade do artista.
Sim, Martinho da Vila caiu no mercado com Rosa do povo, álbum que vendeu (bem) menos do que o antecessor Maravilha de cenário, mas se manteve no alto patamar artístico em que, a rigor, se encontra desde os anos 1960, sem nunca ter atravessado o samba.
Devagar, devagarinho, Martinho José Ferreira foi se impondo como um dos maiores nomes da música popular brasileira em todos os tempos com obra coerente que inclui discos que merecem ser descobertos, caso deste poético Rosa do povo.