Discos para descobrir em casa – ‘Madrugada’, Mart’nália, 2008


Capa do álbum ‘Madrugada’, de Mart’nália
Eny Miranda
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Madrugada, Mart’nália, 2008
♪ A trajetória de Mart’nália é exemplo de que, no universo pop, muito vezes o talento precisa ser aliado a uma estratégia de marketing para que um artista alcance a devida projeção.
Nascida em 1965, a filha de Martinho da Vila tentou se lançar como cantora em 1987 com a edição de um primeiro álbum, Mart’nália, equivocado por diluir a descontração que se mostraria determinante para a expansão do canto leve dessa sambista de alma soul.
Escaldada com o erro da estreia fonográfica, Mart’nália expôs a verdadeira face no segundo álbum, Minha cara, editado em 1995 com azeitado mix de samba, soul e funk que temperou repertório que apresentou a identidade da artista carioca, inclusive como compositora.
Só que faltou na receita de 1995 a aura hype criada sete anos mais tarde em torno da edição do álbum posterior de Mart’nália, Pé do meu samba, lançado em 2002 com aval e samba inédito de Caetano Veloso.
Com Pé do meu samba, Mart’nália conseguiu, enfim, ser vista e ouvida como cantora – àquela altura já com 37 anos, mas com o ar jovial que a artista ainda conserva neste ano de 2020, já a caminho dos 55 anos, a serem festejados em setembro.
Álbum gravado com curadoria de Maria Bethânia, Menino do Rio (2005) ampliou a popularidade de Mart’nália três anos depois. Nesse disco, por influência de Bethânia, Mart’nália manteve um pé no samba do Rio de Janeiro e pôs o outro pé no samba da Bahia. Sintomaticamente, a faixa que garantiu o êxito do disco foi samba bem carioca da mineira Ana Carolina, Cabide.
O sucesso do disco Menino do Rio foi o passaporte para a gravação de Madrugada (2008), álbum mais fiel à cara de Mart’nália. Gravado com produção musical dividida entre Arthur Maia (1962 – 2018) – baixista de groove black Rio que foi espécie de gêmeo musical da cantora e compositora – e Celso Fonseca (produtor e arranjador do disco definidor Pé do meu samba), o álbum Madrugada resultou carioquíssimo, leve, boêmio, desencanado, assumido, feliz, descontraído.
Enfim, Madrugada foi disco com a cara e a alma de Mart’nália, expostas em sambas como Tava por aí – composto pela artista com Mombaça, parceiro desde os anos 1990 – e Deu ruim (Arthur Maia, Ronaldo Bastos e Mart’nália). Nessa linha espontânea, o samba Ela é a minha cara (Celso Fonseca e Ronaldo Bastos) – delícia suprema da parcela inédita do repertório – exemplificou com maestria a habilidade de Mart’nália de cair no samba com vibe pop.
O apego de Arthur Maia à black music saltou aos ouvidos logo na balada de alma soul que abria o disco, Alívio (1992), parceria de Maia com Djavan. Intérprete original de Alívio, Djavan produziria no futuro o disco mais injustiçado de Mart’nália, Não tente compreender (2012), álbum em que a cantora se desviou da cadência do samba. A cadência que pautou Mart’nália em Madrugada na gravação de Não encontro quem me queira (Thiago Mocotó), um dos muitos sambas desse álbum editado em 2008 pela gravadora Biscoito Fino.
A ginga pop de Mart’nália sempre foi tão singular que a cantora conseguiu regravar os sambas Batendo a porta (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, 1974) e Sai dessa (Nathan Marques e Ana Terra, 1980) com tamanha personalidade que driblou comparações como os registros originais de João Nogueira (1941 – 2000) e Elis Regina (1945 – 1982), dois bambas nas divisões.
Explicitado na discografia de Mart’nália, o elo da artista com a África foi reforçado no álbum Madrugada com as gravações do sincrético samba Fé (Jorge Aragão e Evandro Lima) e, sobretudo, de Angola (Arthur Maia, Mart’nália, Maré e Paulo Flores).
Também havia África na sensualidade baiana e no baticum que embalaram a sedutora regravação de Alegre menina (Dori Caymmi com versos de Jorge Amado, 1975), samba lançado na voz de Djavan em gravação feita para a trilha sonora da novela Gabriela (TV Globo, 1975).
Cantora que nunca primou pela rigorosa técnica vocal, Mart’nália afinou a belíssima canção Sem mais adeus (Paulinho Moska, 1999) em modo particular e sublinhou a identidade da nobre dinastia na lembrança do acalanto Tom maior (Martinho da Vila, 1969), tema do primeiro álbum do pai.
No arremate do álbum Madrugada, a cantora acionou o “inglês de Vila Isabel” – assim caracterizado jocosamente pela própria Mart’nália – e o misturou com português na apropriação espirituosa de Don’t worry, be happy (1988), composição do norte-americano Bobby McFerrin, apresentada na voz prodigiosa do autor em gravação lançada há então 20 anos.
No canto da artista e na cadência do samba, Don’t worry, be happy foi a mais perfeita tradução da felicidade entranhada em cada sulco do álbum Madrugada, a verdadeira cara de Mart’nália Mendonça Ferreira.