Discos para descobrir em casa – ‘Isso é que é forró!’, Jackson do Pandeiro, 1981


Capa do álbum ‘Isso é que é forró!’, de Jackson do Pandeiro
Reprodução
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Isso é que é forró!, Jackson do Pandeiro, 1981
♪ Quando o compositor Sebastião Batista criou o samba Cabeça feita, pensou no jeito manemolente do canto de Martinho da Vila. Era para o sambista fluminense que Sebastião pretendia oferecer a composição – plano interrompido quando Jackson do Pandeiro lhe pediu música para o repertório do álbum que gravava em 1981.
Cabeça feita acabou abrindo esse álbum – intitulado Isso é que é forró! – em gravação apimentada com o ritmo de Jackson do Pandeiro e transposta para o universo musical nordestino, com direito ao nome do artista nos créditos da composição.
Produzido por Armando Pittigliani, o álbum Isso é que é forró! foi editado em 1981 pelo selo Polyfar, da gravadora Polygram, e se tornou o canto de cisne de José Gomes Filho (31 de agosto de 1919 – 10 de julho de 1982), um Zé da Paraíba que, nascido na cidade de Alagoa Grande (PB), deixou de ser mais um na multidão quando se tornou um dos reis da nação musical nordestina. O rei do ritmo!
Esse epíteto veio com o tempo, mas bem podia ter sido carimbado no cantor, compositor e músico paraibano já no momento em que Jackson entrara em cena em escala nacional, em 1953, galgando as paradas, no ritmo veloz de um rojão, com as gravações do coco Sebastiana (Rosil Cavalcanti, 1953) e de Forró em Limoeiro (Edgar Ferreira, 1953).
Estrela local da Paraíba de 1936 até 1947, e de Recife (PE) a partir de 1948, tendo sido contratado pela gravadora Copacabana na capital de Pernambuco, Jackson do Pandeiro reinou em todo o Brasil nos anos 1950 – com sucesso que se estendeu até meados dos anos 1960 – quando se mostrou craque nas divisões com que turbinava o canto de cocos, xaxados, sambas, rojões, emboladas e baiões sem deixar de ser tomado pelo micróbio do frevo, o que aconteceu já em 1954.
À esperteza do canto, Jackson aliou a destreza no toque do pandeiro, instrumento que incorporou ao nome artístico e no qual se fixou após experimentos com a zabumba e a bateria na infância e adolescência musical.
Artista que influenciou compositores como Gilberto Gil e Lenine, Jackson do Pandeiro amargou período de ostracismo na segunda metade dos anos 1960, mas discípulos tropicalistas, como Gil e Gal Costa, ajudaram a reconduzir o rei para o trono quando regravaram músicas do repertório do cantor.
Esse retorno aos holofotes fez com que o artista gravasse discos com regularidade ao longo da década de 1970. E essa discografia poderia ter tido continuidade na década de 1980 se, em julho de 1982, a um mês de completar 63 anos, Jackson do Pandeiro não tivesse saído de cena em hospital de Brasília (DF), vítima de complicações decorrentes de diabetes.
Último álbum de discografia que propagou um Nordeste lúdico, sem a densidade de parte do cancioneiro do outro rei da música nordestina, Luiz Gonzaga (1912 – 1989), Isso é que é forró! sintetizou a arte maior desse Jackson brasileiro, sem inventar moda, em 11 músicas gravadas pelo cantor e ritmista com músicos como o sanfoneiro Severo Silva (1950 – 2015), o percussionista João Gomes (no triângulo), o zabumbeiro Geraldo Gomes (irmão de Jackson que adotava o nome artístico de Cícero) e o ritmista Melquíades Lacerda (ganzá, maracas e reco-reco), entre outros instrumentistas familiarizados com o ritmo do rei.
Neste derradeiro álbum, Jackson do Pandeiro apresentou, dentro de universo forrozeiro, músicas então inéditas como Tem pouca diferença (Durval Vieira) – composição que seria regravada três anos depois por Gal Costa com Luiz Gonzaga no álbum Profana (1984) – e Herança de meu pai (Benício Guimarães), exemplo da ideologia machista imperante nos forrós da época e refletida em temas como Quem tem um não tem nenhum (Durval Vieira e Jorge Paulo), ode à bigamia masculina.
Nessa seara machista, Mãe solteira (Antonio Rodrigues e Severino Ramos) soou – ou, pelo menos, deveria ter soado… – preconceituosa, intolerável e impoliticamente correta já naquele ano de 1981. Caiu bem melhor no disco a malícia lúdica de Samambaia trepadeira (Gervásio Horta).
“Isso é que é forró!”, ressaltou Jackson ao reproduzir o título do álbum em verso improvisado na letra de Eu vou pra lá (Benício Guimarães), propaganda da festa nordestina. Nessa festa, sempre teve samba à moda nordestina. Parceria de Jackson com Valdemar Lima, Competente demais mostrou que o rei também sabia se virar bem no ritmo quando a ordem era samba.
Já Mundo cão (Jackson do Pandeiro e Rogéria Ribeiro) fez crítica social ao retratar a rotina dura do trabalhador – protesto que reverberou em 2005 em regravação do grupo carioca de samba Casuarina – sem diluir a animação do disco, gravado com coro feminino não creditado na ficha técnica original do LP de 1981.
São Tomé (Jackson do Pandeiro e Assunção Corrêa) e Bola de pé em pé (Jackson do Pandeiro e Sebastião Batista) – lance certeiro no coração das torcidas de times como Corinthians e Flamengo – mantiveram o pique do forró neste disco em que Jackson do Pandeiro jogou para a galera do nordeste, sem preocupação de acenar para o público da MPB.
O álbum Isso é que é forró! coroou com coerência a trajetória deste rei que, no apogeu da glória dividida com Almira Castilho (1924 – 2011), parceira na música e na vida, domava o ritmo, quebrando tudo, adiantando e atrasando o tempo, mas sempre chegando junto no fim.
E o fim chegou para Jackson do Pandeiro em 1982, ano em que Elba Ramalho gravou a derradeira composição do artista, No som da sanfona, parceria com Kaká do Asfalto.
No samba ou no forró, José Gomes Filho – um imortal Zé da Paraíba – era cabeça feita !