Discos para descobrir em casa – ‘Elis’, Elis Regina, 1980


Capa do álbum ‘Elis’, de Elis Regina
Arte de Bina Fonyat e Luiz Affonso
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Elis, Elis Regina, 1980
♪ Lançado em dezembro de 1980, o LP Elis acabou se tornando o último álbum de estúdio de Elis Regina Carvalho Costa (17 de março de 1945 – 19 de janeiro de 1982), excepcional cantora que sairia de cena dali a pouco mais de um ano, aos 37 anos incompletos.
Trata-se do primeiro e único álbum feito por Elis na gravadora EMI-Odeon, com a qual a artista assinara contrato enquanto ainda tinha vínculos com a WEA, companhia fonográfica que editara, naquele ano de 1980, o álbum duplo com o registro (de estúdio) do show Saudade do Brasil (1980).
Gravado sob direção musical do pianista César Camargo Mariano, Elis resultou no álbum mais pop da discografia da cantora e apontou o caminho que possivelmente seria seguido pela artista ao longo da década de 1980.
Encerrados os anos 1970, década na qual Elis deu voz a compositores engajados musicalmente na luta contra a ditadura, a cantora arriscou fazer um disco mas leve, livre e solto.
O álbum Elis flagrou a artista mais distanciada do universo da MPB e mais próxima da música negra norte-americana. Mas esse som black americano foi passado pelo filtro pop de César Camargo Mariano, cujo toque do piano Yamaha dominou os arranjos.
A mistura black brasileira já ficou nítida na música que abriu o disco, Sai dessa (Nathan Marques e Ana Terra), faixa introduzida por groove funky antes de cair no samba.
Em sintonia com os arranjos, Elis Regina soou pop até mesmo quando cantou composições de ícones da MPB. A regravação de Rebento – música de Gilberto Gil lançada pelo compositor no ano anterior no álbum Realce (1979) – corroborou o tom uniforme do som do álbum Elis.
E por falar em Gil, o disco foi para as lojas com nove faixas, em vez das dez previstas, porque o artista baiano alertou Elis que iria promover nas rádios e na TV a gravação de Se eu quiser falar com Deus (1980), música que Gil decidira gravar após Roberto Carlos ter recusado a canção oferecida ao Rei em primeira mão.
Elis já gravara Se eu quiser falar com Deus, mas, diante do aviso de Gil, optou por retirar a música do álbum (a gravação da cantora seria lançada posteriormente em compacto e incorporada ao repertório do álbum Elis na edição em CD lançada em 2002).
O repertório do álbum Elis soou pouco variado. Em nove faixas, a cantora gravou duas músicas então inéditas de Guilherme Arantes. As eleitas foram o funk Aprendendo a jogar – o hit radiofônico do disco, exemplo da habilidade de Elis de surfar no ritmo com leveza – e a canção Só Deus é quem sabe, nunca gravada pelo autor e esquecida até Mart’nália incluí-la no álbum Menino do Rio (2005), editado 25 anos após o registro original de Elis, ambientado em atmosfera de soul / R&B.
Três músicas do disco eram das lavras harmoniosas de compositores associados ao Clube da Esquina. O medo de amar é o medo de ser livre (Beto Guedes e Fernando Brant, 1978), O trem azul (Lô Borges e Ronaldo Bastos, 1972) – a melhor das três gravações do repertório da turma mineira, a ponto de a música ter dado nome ao último show de Elis – e Vento de maio (Telo Borges e Márcio Borges, 1979) eram músicas já previamente lançadas, o que sinalizou certa preguiça da cantora de correr atrás de repertório inédito, como fizera ao longo dos anos 1970 (ou como produtores de discos anteriores, casos de Nelson Motta e Roberto Menescal, tinham feito por ela e para ela).
Composição de Luiz Guedes e Thomas Roth, também gravada e lançada pelo autores naquele ano de 1980, Nova estação reforçou a intenção de Elis de apresentar um disco mais solar, exteriorizado.
Encerrado com o samba Calcanhar de Aquiles (Jean Garfunkel e Paulo Garfunkel, 1980), também gravado por Jean Garfunkel naquele ano, o álbum Elis teve peso menor na discografia da cantora, mas primou pela leveza pop, como se Elis Regina, sempre antenada, já estivesse captando no ar os ventos que soprariam na música brasileira ao longo dos anos 1980.
Outros outubros realmente vieram, mas Elis Regina teria somente mais um outubro pela frente até sair inesperadamente de cena em janeiro de 1982, se tornando numa das saudades mais doídas do Brasil.
Elis, o álbum lançado há 40 anos, ficou na discografia da artista como um disco atípico que mostrou (uma possibilidade de) caminho que talvez tivesse sido trilhado pela cantora com a voz imortal que ainda ecoa pelo Brasil.