Discos para descobrir em casa – ‘…E no entanto é preciso cantar’, Carlos Lyra, 1971


Capa do álbum ‘…E no entanto é preciso cantar’, de Carlos Lyra
José Maria de Mello
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – …E no entanto é preciso cantar, Carlos Lyra, 1971
♪ Entre o fim dos anos 1960 e o início dos anos 1970, décadas antes de o Japão se tornar o país que mais valoriza a bossa nova, o México abrigou ícones do gênero que partiram do Brasil em exílios voluntários.
Quando a bossa já não era soava tão nova aos ouvidos do público do Brasil, então mais atraído pelas inflamadas competições travadas nos festivais e pela rebeldia industrializada da Jovem Guarda, a saída foi o aeroporto. Grandes e fundamentais nomes da bossa nova – como Carlos Eduardo Lyra Barbosa, carioca nascido em 11 de maio de 1933 – tomaram um avião para os Estados Unidos.
Dos EUA, alguns partiram para o México, onde se aclimataram. Foi o caso de Lyra, cantor, (excepcional) compositor e músico que morou lá de 1968 a 1971, tendo inclusive feito dois discos no México, sendo um álbum com repertório inédito produzido pelo violonista Rubén Fuentes, Carlos Lyra… Saravá!, gravado em 1969, lançado em 1970 naquele país e somente editado no Brasil em 2001.
Nono dos 22 álbuns que compõem a discografia oficial de Carlos Lyra, …E no entanto é preciso cantar foi lançado em 1971 pela gravadora Philips e marcou a volta do artista ao Brasil.
Produzido por Roberto Menescal, com arranjos do compositor e violonista Théo de Barros (parceiro de Geraldo Vandré em Disparada, para quem não liga o nome à música…) e com repertório inteiramente autoral, o álbum …E no entanto é preciso cantar alternou músicas inéditas – assinadas por Lyra sozinho ou com novos parceiros como Chico Buarque, Jésus Rocha e Ruy Guerra – com regravações de títulos marcantes do cancioneiro desse compositor que se impôs como o maior melodista da bossa nova depois do soberano Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994).
Aliás, o próprio Jobim enaltecia publicamente as qualidades do colega. “Grande melodista, desenhista, harmonista, rei do ritmo, da síncope, do desenho, do desenho, da ginga, do balanço, da dança, da lyra. Lyrista e lyricista, romântico de derramada ternura, nunca piegas, lacrimoso ou açucarado. Formidável compositor”, derramou-se Jobim, jogando com as palavras no texto De Carlos a Carlos, escrito para o prefácio do Songbook Carlos Lyra (1993), livro de partituras produzido por Almir Chediak (1950 – 2003).
Algumas dessas qualidades do compositor foram reveladas em disco em 1956 quando Sylvia Telles (1935 – 1966) deu voz macia à canção Menino, apresentada no ano anterior por Geraldo Vandré – sob o pseudônimo de Carlos Dias – com o título no gênero original (Menina) em festival de TV.
Na sequência da gravação de Sylvia Telles, o conjunto Os Cariocas gravou o samba Criticando em disco lançado em 1957, somente três anos após Lyra ter se iniciado no ofício da composição com a criação da música Quando chegares.
No embalo da revolução estética consumada em 1958 por João Gilberto (1931 – 2019), Carlos Lyra gravou o primeiro álbum em 1959, sintomaticamente intitulado Bossa nova, cujo repertório incluiu Maria ninguém, composição revivida por Lyra no disco de 1971 em que o cantor se reapresentou para o público do Brasil.
Maria ninguém, cabe ressaltar, foi gravada por João Gilberto no mesmo LP de 1959 no qual o cantor baiano também registrou Lobo bobo, standard da parceria de Lyra com Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994), composto em 1957. Por isso mesmo, Bossa nova foi título muito natural para o álbum de estreia de Carlos Lyra, cantor, compositor e violonista afinado com a estética do movimento.
Só que Lyra sempre teve forte ideologia social – sinalizada no disco de 1971 no título …E no entanto é preciso cantar, indicativo dos tempos ditatoriais vividos pelo povo brasileiro na época – e politizou o cancioneiro a partir dos anos 1960.
Esse tom socialista impresso ao cancioneiro de Lyra tem sido interpretado erroneamente como “ruptura” do compositor com a estética da bossa nova. No entanto, isso – a guinada rumo ao engajamento musical – também foi muito natural.
Afinal, em 1960, ano que as músicas do álbum Bossa nova ainda estavam conquistando o Brasil, o compositor já criava a trilha sonora da peça A mais valia vai acabar, seu Edgar (1960), texto do dramaturgo e diretor paulistano Oduvaldo Vianna Filho (1936 – 1974), o também engajado Vianinha.
Foi por isso que, ao reaparecer no mercado fonográfico brasileiro em 1971, Lyra regravou tanto canções apaixonadas – joias do alto quilate melódico de Minha namorada (introduzida a capella na regravação do disco antes de o violão do artista se fazer ouvir em registro minimalista) e Primavera, parcerias do compositor com o poeta Vinicius de Moraes (1913 – 1980), ambas apresentadas em 1964 – como músicas mais politizadas, caso da resistente Marcha da quarta-feira de cinzas (1963), de cuja letra foi extraído o título …E no entanto é preciso cantar para esse álbum de 1971 que se equilibrou entre o passado e o presente musical de Carlos Lyra.
Composição inédita que abriu o disco, Identidade expôs questionamentos do artista diante da passagem do tempo e do fluxo inexorável da vida. “Vejo a imagem se apagando / Ouço a voz se transformando / E pergunto a quem não vejo: / Por que meu rosto no espelho / Já não reflete ninguém”, se indagou o artista.
Com arranjo que evocou a leveza da bossa nova sem emular clichês do gênero, a canção em inglês I see my passing by reuniu o artista com a atriz e cantora Kate Lyra, parceira na composição e convidada da gravação.
Norte-americana, Kate já era mulher de Lyra na época, tendo se casado com o compositor no México, anos após terem se conhecido no Brasil, quando Kate foi fazer teste para integrar o elenco de Pobre menina rica, musical de teatro que, a rigor, nunca foi encenado como peça, mas que legou para posteridade a bela trilha sonora de Lyra e Vinicius.
A propósito, como Lyra regravou no disco de 1971 a mais sublime canção dessa trilha, Primavera, o confronto da melodia dessa composição com as de músicas inéditas como Lenda do Rio Vermelho resultou até cruel.
Já o balanço do então inédito samba Até parece resultou imponente, o que tornou injusto o esquecimento desse samba nesse álbum de 1971 em que Lyra também deu voz a O pregoeiro – parceria então inédita com o compositor Jésus Rocha – antes de reavivar Canção que morre no ar (Carlos Lyra e Ronaldo Bôscoli, 1960) com arranjo de tom lírico.
Primeira e única parceria de Carlos Lyra com Chico Buarque, o samba Essa passou foi gravado com arranjo de cordas e com a adesão vocal de Chico, que nunca registrou a composição na própria discografia. Detalhe: Beth Carvalho (1946 – 2019) também gravou o samba de Lyra e Chico em raro single editado naquele ano de 1971.
Da safra inédita do álbum …E no então é preciso cantar, a composição Mariana – parceria de Lyra com Ruy Guerra – se impôs, ao lado do samba Até parece, como a joia perdida neste disco de transição.
Sem se intimidar com o glorioso passado como compositor, Carlos Lyra renovou o repertório autoral em álbuns posteriores como Eu & elas… (1972) e Herói do medo (1975).
A partir dos anos 1980, o artista aderiu aos periódicos revivals do cancioneiro da bossa nova em discos e shows, fazendo eventuais álbuns de músicas inéditas como Carioca de algema (1994) e o estupendo Além da bossa (2019).
Aos 87 anos, completados em maio de 2020, Carlos Lyra segue firme, com a consciência de que, no entanto, é preciso cantar…