Discos para descobrir em casa – ‘Domingo menino Dominguinhos’, Dominguinhos, 1976


Capa do álbum ‘Domingo menino Dominguinhos’, de Dominguinhos
Reprodução
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Domingo menino Dominguinhos, Dominguinhos, 1976
♪ Embora o cantor, compositor e sanfoneiro pernambucano José Domingos de Morais (12 de fevereiro de 1941 – 23 de julho de 2013) seja comumente apontado como o principal herdeiro musical de Luiz Gonzaga (1912 – 1989), o que de fato Dominguinhos foi, pode ser redutor e injusto caracterizar o artista somente como discípulo do conterrâneo Lua.
Como compositor autor de cerca de mais de 300 músicas e sobretudo como mestre do acordeom, Seu Domingos extrapolou o legado de Gonzaga sem deixar de reverenciar o mestre –sem submissão – ao longo de carreira fonográfica iniciada em 1964 com o álbum Fim de festa.
Como sanfoneiro, Dominguinhos derrubou as fronteiras musicais da nação nordestina para ir além dos gêneros genericamente rotulados como forró. Em Baião violado (1976), tema instrumental de autoria do compositor que encerrou um dos álbuns mais importantes do artista, Domingo menino Dominguinhos, o sanfoneiro mostrou como se podia tocar o baião com a tal influência do jazz em gravação feita com o guitarrista Toninho Horta e o pianista Wagner Tiso.
Em outra faixa deste disco de 1976, Gracioso, regravação do tema instrumental de autoria do compositor e flautista fluminense Altamiro Carrilho (1924 – 2012) lançado em 1951 por Canhoto e seu Regional, Dominguinhos uniu o baião ao choro, gênero ao qual dedicaria – 18 anos depois – o álbum Choro chorado (1994).
No repertório de Domingo menino Dominguinhos, álbum lançado em 1976 pela gravadora Philips, Dominguinhos alinhou 12 composições. Dez trouxeram a assinatura do artista, sendo nove em parceria com Anastácia, então companheira de Dominguinhos na vida e na música. A exceção foi o já mencionado Baião violado, somente da lavra do sanfoneiro.
Com Anastácia, Dominguinhos conseguira projeção nacional em 1973 com a gravação de xote da dupla, Eu só quero um xodó, por Gilberto Gil. Dois anos depois, o cantor baiano incluiu no álbum Refazenda (1975) outra canção de Dominguinhos e Anastácia, Tenho sede (1975), regravada pelo autor neste álbum Domingo menino Domiguinhos.
Tanto que soou natural a presença de Gil neste disco do sanfoneiro, tocando violão no samba Minha ilusão (1976), única música do repertório assinada somente por Anastácia, com versos cheios de resignação e melancolia sobre a chegada da velhice (“Até os meus amores que eram muitos acabaram / E os elogios das mulheres se esgotaram”).
Gil – que pusera letra em Lamento sertanejo (1973), tema originalmente instrumental de Dominguinhos, e reapresentara a canção com versos no já citado álbum Refazenda (1975) – integrou o virtuoso time de músicos do álbum Domingo menino Dominguinhos.
Este time incluiu ninguém menos do que Jackson do Pandeiro (1919 – 1982) na percussão, Toninho Horta na guitarra e Wagner Tiso no piano, além de Altamiro Carrilho na flauta. Esses virtuoses fizeram com o que cancioneiro de Dominguinhos e Anastácia extrapolasse o território nordestino com som em sintonia com a modernidade da década de 1970.
Composição da dupla em homenagem a Jorge Ben Jor, O babulina (1976) – batizada com o apelido do cantor e compositor carioca no meio musical – mostrou Dominguinhos na improvável seara do samba-rock.
Tal incursão por esse gênero projetado nos anos 1970 jamais foi surpresa para quem sabia que, antes de fazer nome no mundo da música ao vir para o Rio de Janeiro, Dominguinhos tocara de tudo nas boates, nos cabarés, nas festas e nos bailes da vida noturna carioca.
Tema mais associado à identidade do músico, O canto de acauã (Dominguinhos e Anastácia, 1976) ecoou no disco como símbolo da vida seca do artista nos tempos em que o pai agricultor tirava da roça o sustento da família pobre, com a qual Dominguinhos – nascido em Garanhuns, no agreste do sertão pernambucano – viera para o Rio de Janeiro (RJ) em 1954, indo procurar Luiz Gonzaga, que presenteou o menino Domingos com sanfona e o convidou para tocar em discos e shows.
Em 1954, a sanfona já era o instrumento de Dominguinhos, embora ele tenha começado tocando pandeiro no trio infanto-juvenil Os Três Pinguins, formado na Garanhuns (PE) natal pelo então menino com dois irmãos.
Em 1976, Dominguinhos – que integrara a banda de Gal Costa na temporada do show Índia (1973) – dominava o instrumento e fez ótimo uso da sanfona no álbum que lançou naquele ano, como já foi possível comprovar na faixa de abertura, Quero um xamego (Dominguinhos e Anastácia, 1976), xote cuja cadência chorosa evocou o sucesso então recente Eu só quero um xodó.
Tema de tom nostálgico, Destino traquino (Dominguinhos e Anastácia, 1976) também reverberou sofrência. Já De mala e cuia (Dominguinhos e Anastácia, 1976) confirmou que o artista trouxera muito xote no matulão enquanto Forró do sertão (Dominguinhos e Anastácia, 1976) e Cheguei para ficar (Dominguinhos e Anastácia, 1976) evidenciaram a vivacidade da música nordestina.
Precedido pelo álbum O forró de Dominguinhos (1975) na discografia do artista, o LP Domingo menino Dominguinhos foi sucedido por álbuns que também se tornaram raros, casos de Oi, lá vou eu (1977), Ó Xente! Dominguinhos (1978) e Apôs tá certo (1979).
Editado em CD somente no Japão, o disco de 1976 exemplificou na canção Veja – mais uma parceria do artista com Anastácia – a habilidade da dupla para tocar em questões afetivas com delicadeza singular no arretado universo forrozeiro. Nessa seara amorosa, Dominguinhos e Anastácia alcançariam êxito com Contrato de separação (1979), canção lançada por Nana Caymmi.
Na década de 1980, já em parceria com Nando Cordel, Seu Domingos forneceria grandes sucessos para Elba Ramalho (De volta para o aconchego, 1985), Maria Bethânia (Gostoso demais, 1986) e para ele próprio, intérprete original de Isso aqui tá bom demais (1985) em gravação feita com Chico Buarque, com quem compusera Tantas palavras (1983) em parceria que seria estendida, 15 anos depois, com Xote de navegação (1998).
Dominguinhos navegou por tantos ritmos – tendo composto boleros, choros e até fado no último disco autoral, Luar agreste no céu cariri (2013), assinado com o compositor cearense Xico Bizerra – e tocou com tanta liberdade que, sim, é injusto e redutor creditar José Domingos de Morais somente como o sucessor de Luiz Gonzaga.
Nem o mestre previu que o discípulo chegaria tão longe até 2013, ano em que Dominguinhos saiu de cena aos 72 anos na cidade de São Paulo (SP), mas, de certa forma, a rota já estava toda traçada em álbuns da década de 1970 como Domingo menino Dominguinhos.