Discos para descobrir em casa – ‘Babando Lamartine’, Frenéticas, 1980


Capa do álbum ‘Babando Lamartine’, das Frenéticas
Caricatura de Lan
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Babando Lamartine, Frenéticas, 1980
♪ Em 1980, o globo espelhado das discotecas começou a perder luminosidade após período de cinco anos, entre 1974 e 1979, em que a disco music dominou as paradas mundiais e ditou modas em tsunami que abarcou até cantores dissociados do gênero – inclusive no Brasil.
Com o declínio dos dancin’ days, o brilho esfuziante das Frenéticas também começou a se apagar paulatinamente. O desmoronamento do império disco contribuiu para que o quarto álbum do sexteto feminino, Babando Lamartine, tenha sido recebido com injusta frieza por público e críticos ao ser lançado em 1980.
Como já antecipou o engenhoso título Babando Lamartine, o disco produzido por Liminha com Sérgio Cabral – sob a direção musical do pianista César Camargo Mariano – marcou o encontro do deboche das Frenéticas com a irreverência de Lamartine Babo (10 de janeiro de 1940 – 16 de junho de 1963), eclético compositor carioca fundamental para a consolidação da marchinhas de Carnaval como popular gênero musical dos anos 1930.
Babando Lamartine foi o último álbum com a formação original do sexteto feminino idealizado por Nelson Motta em 1976 para servir mesas, músicas e alegria para os frequentadores da então recém-inaugurada discoteca Frenetic Dancing Days Discotheque, pioneiro point carioca da disco music.
Quatro décadas antes da expressão “empoderada” virar clichê para designar mulheres donas de si no universo pop brasileiro, Dulcilene Moraes (a Dhu), Edyr de Castro (1946 – 2019), Leila Neves (a Leiloca), Maria Lídia Martuscelli, a Lidoka (1950 – 2016), Regina Chaves e Sandra Pêra botaram, não as mesas, mas banca e seguiram o trem da alegria no trilho radiante da disco music com doses fartas de lantejoulas e sensualidade em atitude que desafiou o império historicamente machista da música brasileira.
Contratado pela gravadora WEA, conglomerado fonográfico então recém-instalado no Brasil, o grupo fez a festa com os álbuns Frenéticas (1977) e Caia na gandaia (1978), discos que geraram os mega-hits Perigosa (Roberto de Carvalho, Nelson Motta e Rita Lee, 1977) – rock que puxou o antológico primeiro álbum do sexteto – e Dancin’ days (Ruban Barra e Nelson Motta, 1978), o hino disco que jogou o Brasil na pista, confirmando as Frenéticas como a nova mania nacional a reboque do sucesso fenomenal da novela também intitulada Dancin’ days e exibida pela TV Globo entre julho de 1978 e janeiro de 1979.
Neste ano, o menor impacto provocado pelo terceiro álbum das Frenéticas, Soltas na vida (1979), sinalizou que o Carnaval disco das Frenéticas também teria um fim. O álbum Babando Lamartine, ode a um compositor associado sobretudo à folia e à alegria, foi o lance idealizado pela gravadora WEA para manter as Frenéticas em cena e no jogo.
Ouvido e analisado em perspectiva, 40 anos após o lançamento, Babando Lamartine resistiu bem ao tempo, mas faz surgir em 2020 a sensação de que não era o disco para ter sido gravado pelas Frenéticas em 1980, ano crucial para o futuro do grupo.
Por mais que as ousadias estilísticas do diretor musical e arranjador César Camargo Mariano tenham tirado qualquer ranço nostálgico na abordagem da obra de Lamartine, evitando que as Frenéticas caíssem na armadilha do cover, o disco resultou sem apelo popular para a época porque, em 1980, a música pop do Brasil já vislumbrava novo começo de era.
Não havia no songbook de Lamartine qualquer possível hit blockbuster que afastasse o fantasma do fim do auge das Frenéticas. Tanto que o álbum surtiu nenhum efeito nas paradas, fazendo com que as Frenéticas fossem dispensadas pela WEA.
Em 1982, Regina Chaves e Sandra Pêra encararam o fato de que o sexteto estaria para sempre associado ao desbunde laminado da disco music e saíram do grupo, que ainda lançou um quinto álbum como quarteto, Diabo a 4 (1983), antes de se dissolver, rendido às evidências.
Eventuais retornos, como o de 1992, jamais tiveram força para dissociar as Frenéticas dos dancin’ days e, por isso mesmo, o álbum Babando Lamartine acabou soando como ponto fora da curva na discografia curta, mas relevante, das Frenéticas.
Relançado em CD em 2017, dentro da caixa Frenéticas – 40 anos de dancin’ days, e posteriormente disponibilizado em edição digital, o álbum Babando Lamartine alinhou dez músicas de Lamartine Babo, lançadas originalmente entre 1931 e 1942.
Com exposição de caricatura inédita em que Lan (amigo de Lamartine) retratou as Frenéticas em chamego com o compositor, a capa do álbum Babando Lamartine evidenciou o capricho que cercou a produção do LP, cujo encarte reproduziu o formato dos almanaques de cultura inútil do tempo áureo de Lamartine.
A sensualidade posta pelo grupo no registro da marchinha Jou Jou e balangandãs (1939) – temperada pelo suingue pop do piano de César Camargo Mariano – foi acentuada com a malícia da ênfase no entra-e-sai da letra da marchinha La canga (1942), parceria de Lamartine com os compositores Ari Machado e Heber de Bôscoli (1917 – 1956).
Nome recorrente nas bandas arregimentadas por Mariano para discos e shows, sobretudo da cantora Elis Regina (1945 – 1982), o guitarrista Natan Marques deixou o toque do músico em gravações de composições como o fox Canção pra inglês ver (1931), a marchinha Ai, hein! (1933) – em abordagem turbinada com solo do guitarrista – e a marcha Rasguei a minha fantasia (1935), faixa que mais bem exemplificou a sonoridade então atual com que as Frenéticas babaram prazerosamente em cima da obra de Lamartine, completamente absorvidas pela graça da rancheira Babo.. zeira (1932).
Nesse clima de cabaré moderno, as Frenéticas iluminaram o fox-trote Maria da Luz (1932) – faixa charmosamente introduzida pela voz de Lamartine Babo em take extraído de gravação radiofônica de 1931 – e evidenciaram a beleza melódica da atualmente intolerável marchinha O teu cabelo não nega (1932), composta por Lamartine com “inspiração” em Mulata (1929), marcha dos irmãos pernambucanos João Valença (1890 – 1983) e Raul Valença (1894 – 1977), posteriormente incorporados aos créditos dessa composição que merece mesmo o “cancelamento” dos tempos atuais por conta dos versos indefensavelmente racistas.
Inegável mesmo foi a comicidade do registro de Infelizmente (1933), faixa debochada e entranhada em clima interiorano que, no fim, se banhou em latinidade no arranjo cheio da bossa de César Camargo Mariano.
Encerrado com gravação esfuziante da marcha Linda morena (1933), o álbum Babando Lamartine honrou tanto a irreverência do compositor quanto a das Frenéticas, empoderadas vozes femininas dos inesquecíveis dancin’ days.