Discos para descobrir em casa – ‘Ave noturna’, Fagner, 1975


Capa do álbum ‘Ave noturna’, de Fagner
Bina Fonyat
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Ave noturna, Fagner, 1975
♪ Quando Alice Caymmi voltou ao universo da MPB no álbum Electra (2019), pautado por regravações de pérolas pescadas no baú, uma música sobressaiu especialmente no repertório pela beleza da composição e da interpretação pungente da cantora carioca.
Foi Fracassos, balada melancólica de Raimundo Fagner que jazia esquecida em Ave noturna (1975), segundo álbum deste cantor, compositor e músico cearense projetado em escala nacional em 1972 com a projeção da canção Mucuripe ao longo daquele ano.
A mais bem acabada dentre as seis músicas feitas pelo artista com o conterrâneo Belchior (1947 – 2017), Mucuripe apareceu primeiramente na voz de Elis Regina (1945 – 1982). A cantora apresentou a composição no roteiro do show Elis, no inicio de 1972, e a gravou na sequência imediata para o álbum também intitulado Elis e lançado em junho de 1972, mês em que Mucuripe também ecoou na voz de Fagner na gravação feita para o Disco de bolso do jornal O Pasquim, plataforma que também revelara João Bosco naquele mesmo ano de 1972.
Mucuripe abriu as portas da indústria do disco para Fagner. Nascido efetivamente em Fortaleza (CE), ainda que tenha adotado Orós (CE) como cidade natal, o cantor cearense Raimundo Fagner Cândido Lopes migrara para o Rio de Janeiro (RJ) em junho de 1971 e, entre participações em festivais, conseguiu gravar singles de alguma visibilidade.
Contudo, foi a exposição nacional de Mucuripe que garantiu o contrato para a gravação do primeiro álbum, “O último pau de arara” – Manera frufru, manera, lançado em 1973 com repercussão que cresceria com o decorrer do tempo.
Artista de elevada autoestima, Fagner chegou falando alto na MPB. Em entrevista de julho de 1975 sobre Ave noturna, álbum gravado pelo cantor em novembro de 1974 com produção musical de Carlos Alberto Sion e lançado em 1975 pela gravadora Continental, Fagner disse que abrira as possibilidades existentes para a música brasileira com o álbum de estreia e que as fechara intencionalmente no segundo segundo álbum.
De fato, Ave noturna flanou em segurança, alçando voo que seguiu rota mais linear, pautada pela tristeza entranhada em belas canções como Beco dos baleiros (Petrúcio Maia e Antonio Brandão) – balada que deu certa projeção ao álbum ao ser propagada na trilha sonora da novela Ovelha negra (TV Tupi, 1975) como a primeira das muitas gravações de Fagner que chegariam aos ouvintes como teletemas – e O astro vagabundo, boa amostra da parceria então recém-aberta do artistas com o poeta cearense Fausto Nilo.
A música O astro vagabundo daria nome ao show estreado por Fagner na cidade do Rio de Janeiro (RJ) naquele ano de 1975. A rigor mais celebrado do que o álbum Ave noturna, o show O astro vagabundo ampliou a visibilidade de Fagner na mídia e funcionou como passaporte para a entrada do artista na CBS, gravadora onde, de 1976 a 1985, o cantor viveria período de auge artístico, inclusive abrindo a porta da companhia fonográfica para outros migrantes artistas nordestinos (a ponto de, no meio musical, a sigla CBS ser pejorativamente traduzida como Cearenses Bem-Sucedidos).
Embora tenha sido recebido com certo entusiasmo, o álbum Ave noturna ficou meio perdido entre a estreia ruidosa de Fagner e a fase de maior sucesso do cantor na CBS. Ainda assim, Ave noturna sempre teve lugar relevante na discografia do cantor por ter apontado a estética seguida e burilada por Fagner em álbuns posteriores dos anos 1970.
Ave noturna foi disco marcado pela opulência orquestral, marca dos arranjos de canções como a mencionada Fracassos – faixa arranjada pelo maestro Chiquinho de Moraes – e A palo seco (Belchior, 1973). A propósito, a regravação de A palo seco se encaixou bem no tom árido e interiorizado de disco de densa atmosfera poética.
Havia tristeza no caminho de Estrada de Santana – música dos compositores de Petrúcio Maia e Antonio Brandão, os mesmos autores de Beco dos baleiros – e nas paisagens avistadas sob a ótica dos trilhos líricos de Última mentira, segundo título da parceria de Fagner com o poeta baiano José Carlos Capinan (aberta no álbum de 1973 com a canção Como se fosse).
“O fim da festa é uma certeza”, sentenciou Fagner em verso de Retrato marrom (Rodger Rogério e Fausto Nilo), flash de lembranças perdidas e de bocas presas em bares escuros, como narra a letra imagética do poeta. “Eu sou vereda de espinhos / Seca flor do Juazeiro”, autodefiniu-se Fagner através de versos do cineasta e compositor bissexto Carlos Diegues, com quem Fagner abriu parceira efêmera na canção-título Ave noturna, reflexão da conexão do cantor com Diegues na feitura da trilha sonora do filme Quando o Carnaval chegar (1972).
Com o timbre rascante, Fagner deu voz em Ave noturna a melancolias de corações do agreste, mas já vislumbrando paisagens e sonoridades urbanas. Tanto que o disco tem o toque da banda Vímana – que incluía os futuro popstars Lulu Santos, Lobão e Ritchie na formação de 1975 – no arranjo roqueiro com que Riacho do navio (Luiz Gonzaga e Zé Dantas, 1955) correu no álbum Ave noturna.
A faixa mais regionalista do repertório, Antônio Conselheiro (Bumba meu boi), tradicional tema nordestino adaptado por Fagner, também apresentou o toque do grupo Vímana no arremate do álbum Ave noturna.
Disco coeso, fechado dentro de atmosfera sombria, Ave noturna confirmou que Raimundo Fagner já estava pronto para altos voos dentro das possibilidades do artista.