Discos para descobrir em casa – ‘Asa de luz’, Oswaldo Montenegro, 1981


Capa do álbum ‘Asa de luz’, de Oswaldo Montenegro
Milton Montenegro
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Asa de luz, Oswaldo Montenegro, 1981
♪ “Cada luz com sua sombra”, sintetizou Oswaldo Montenegro em verso da bonita música-título do quarto álbum do artista, Asa de luz, produzido por Liminha e lançado em 1981.
O verso traduziu o paradoxo existencial vivido pelo cantor, compositor e músico carioca – artista de itinerante trajetória, nascido em 15 de março de 1956 com o nome de Oswaldo Viveiros Montenegro – no momento em que concebeu, gravou e lançou o álbum Asa de luz.
Em 1980, após década de peregrinação por festivais de portes distintos em rota que incluiu pausa para a gravação do obscuro primeiro álbum do artista, Trilhas, lançado em 1977 com tiragem de 300 cópias vendidas de forma artesanal, Montenegro alcançara sucesso massivo ao defender Agonia – canção do amigo e parceiro Mongol – no festival MPB-80.
Oito anos após ter apresentado a canção Automóvel sem repercussão na sétima e última edição do Festival Internacional da Canção (FIC) (1972), o cantor venceu o festival exibido pela TV Globo em 1980 e – no embalo da consagração nacional – lançou o LP Oswaldo Montenegro, segundo dos três álbuns do contrato assinado com a gravadora WEA em 1978 e encerrado após o fracasso do LP Asa de luz.
Nessa companhia, o artista estreara em 1979 com o álbum Poeta maldito… Moleque vadio, produzido por Gastão Lamounier (1942 – 2001). Embora contenha a gravação original de uma das melhores e mais conhecidas músicas do cancioneiro autoral de Montenegro, Léo e Bia, também editada em single, o álbum vendeu pouco.
Só que, ainda em 1979, o cantor começou a sentir o gosto do sucesso ao defender Bandolins, valsa de autoria de Montenegro, em festival promovido pela então agonizante TV Tupi. Bandolins ficou em terceiro lugar na competição, mas reverberou em escala nacional, a ponto de ter entrado no posterior álbum Oswaldo Montenegro, o consagrador LP lançado em 1980 com a canção Agonia e com produção musical de Liminha.
A trilha ascendente percorrida por Oswaldo Montenegro até a gravação do álbum Asa de luz em 1981 fez supor alto voo artístico e comercial para esse LP que apresentou dez músicas, sendo que nove vieram assinadas por Montenegro – sozinho ou com os parceiros Mongol e José Alexandre – e uma composição, Os Trilhos, até pareceu ser de Montenegro, mas era da lavra de Túlio Mourão, pianista mineiro que também registrou o tema em disco daquele ano de 1981 (Mourão foi um dos músicos arregimentados para a gravação do disco Asa de luz).
Só que algo já não ia bem. Tanto que o repertório de Asa de luz foi composto pelo artista em momento de voluntário isolamento social em aldeia litorânea do município fluminense de Saquarema (RJ). Um momento de fuga do olho do furacão.
A questão foi que, para Oswaldo Montenegro, a fama veio em 1980 acompanhada de altos índices de repulsão, suficientes para neutralizar a dose também elevada de paixão pelo trabalho do artista.
Atordoado e confuso entre a luz da glória e a sombra da insatisfação, o cantor fugiu para Saquarema e, após a gravação do álbum Asa de luz, deixou a cidade do Rio de Janeiro (RJ) na sequência do lançamento do LP e partiu, ainda naquele ano de 1981, para Brasília (DF).
A capital federal não foi destino aleatório para essa nova fuga do artista. Montenegro tinha se mudado com a família para Brasília (DF) dez anos antes, em 1971, após temporadas no Rio de Janeiro (RJ) e São João Del Rey (MG), cidade mineira cujo espírito seresteiro deixou marcas eternas no cancioneiro do trovador e inspirou a criação da primeira música do compositor, Lenheiro, feita na adolescência e batizada com o nome de rio que cortava o município.
Epicentro da obra autoral do artista, a capital federal foi fonte de inspiração para Coisas de Brasília (Oswaldo Montenegro e Mongol), uma das dez músicas que compuseram o repertório do álbum Asa de luz. Jane Duboc fez o contracanto da gravação de Coisas de Brasília.
Se o LP deu rasante no mercado, o voo artístico de Asa de luz foi alto para os padrões de Montenegro, reforçando a assinatura desse cantor e compositor que debutara no mercado fonográfico em 1975, na gravadora Som Livre, com single autoral com as músicas Sem mandamentos e Maria, a Louca.
Com arranjos e regências do próprio Oswaldo Montenegro, o álbum Asa de luz abriu com a canção Lume de estrelas (Oswaldo Montenegro e Mongol), gravada com o toque cristalino da guitarra de Victor Biglione.
Na sequência, as síncopes de Pode ser (Oswaldo Montenegro) sinalizaram que essa expansiva composição parecia ter sido moldada para a cena, como tantas criadas antes e depois por esse compositor que, desde 1974, também segue a trilha do teatro musical, tendo criado êxitos de bilheteria como o balé Dança dos signos (1982).
Fora das plataformas digitais, mas editado em CD há cinco anos na caixa O menestrel (2015), o álbum Asa de luz fez reverberar –, nas gravações de músicas como Luz e sal (Oswaldo Montenegro e Mongol) e Sabor (Oswaldo Montenegro, José Alexandre e Mongol) – ecos da canção medieval de tom barroco, influência recorrente no cancioneiro humanista do artista.
Esse traço renascentista ficou bem delineado na gravação de Sujeito estranho, feita por Montenegro em dueto com o cantor José Alexandre. Sujeito estranho foi a única música já pré-existente do disco, pois tinha sido lançada no ano anterior por Ney Matogrosso, sem repercussão, como faixa-título do álbum de 1980 que encerrou o contrato do cantor com a gravadora WEA.
Sem procurar mudar o estilo para diminuir o índice de rejeição (mais alto na mídia do que entre o público, diga-se), Oswaldo Montenegro fez sozinho Palavras cruzadas, canção ambientada no universo particular do artista, habitante de planeta próprio, talvez por ter orbitado durante anos em torno das esferas de Brasília (DF), cidade onde montou em 1982 espetáculo, Veja você, Brasília, que incluiu no elenco as então novatas Cássia Eller (1962 – 2001) e Zélia Duncan.
O álbum Asa de luz foi encerrado com vinheta, Olho do mundo (Oswaldo Montenegro e Mongol), gravada com coro de acento gospel, semelhante ao que seria orquestrado pelo menestrel três anos mais tarde ao defender a música O condor no Festival dos festivais (1985).
Um dos hits desse festival da TV Globo, O condor alçou voo mercadológico mais alto do que o do álbum Asa de luz, cujo fracasso comercial levaria a gravadora WEA a encerrar o contrato com Oswaldo Montenegro, motivada pelo desinteresse do artista na promoção do disco.
E o fato é que, entre luzes e sombras comuns a todo artista, Oswaldo Montenegro driblou as rejeições e se alimentou das paixões para pavimentar com independência uma das trilhas mais bem-sucedidas da música brasileira.