Discos para descobrir em casa – ‘A vida é mesmo assim’, Angela Ro Ro, 1984


Capa do álbum ‘A vida é mesmo assim’, de Angela Ro Ro
Frederico Mendes
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – A vida é mesmo assim, Angela Ro Ro, 1984
♪ Em 1984, quando Angela Ro Ro lançou o álbum A vida é mesmo assim, a artista carioca já tinha ardido publicamente na fogueira das paixões, das manchetes escandalosas de jornais sanguinolentos e dos tribunais populares tão implacáveis como as redes sociais deste ano de 2020.
É fato que a cantora, compositora e pianista andara elevando o tom, como reconheceria no título do esmaecido álbum posterior de 1985, Eu desatino, sexto e último título da fase áurea e regular da discografia de Angela Maria Diniz Gonçalves.
Tanto desvario impactou a qualidade da produção autoral da compositora e, consequentemente, a carreira fonográfica dessa cantora que debutara no mundo do disco em 1979 com Angela Ro Ro, um dos melhores primeiros álbuns de todos os tempos da música brasileira.
Por ter apresentado aliciante conjunto de canções autorais que irmanaram o lamento desesperado do blues, a atitude do rock, o suingue do boogie e a melancolia dramática do samba-canção na voz rouca da cantora, o álbum Angela Ro Ro tornou a artista eternamente refém desse início glorioso. Ro Ro nunca bisou a coesão da estreia fonográfica nos dez posteriores álbuns de estúdio que lançou entre 1980 e 2017.
Dentro desse contexto, o álbum A vida é mesmo assim – o quinto da cantora – pairou acima da média de Ro Ro após 1979. Ouvido 36 anos após a edição original, fica claro que o álbum – produzido por Antonio Adolfo com a própria Angela Ro Ro – se conservou interessante, sem soar datado, pecado de muitos discos gravados nos anos 1980. Talvez porque, como arranjador, Adolfo jamais se lambuzou dos recursos do tecnopop daquela década.
Além de ter dado forma ao disco, Antonio Adolfo foi parceiro de Ro Ro na composição de Hino, música mística que fechou o álbum A vida é mesmo assim sem solo vocal da cantora, mas com a letra de tom humanista amplificado pelo coro de 14 vozes (inclusive a da própria Angela) arregimentadas para a faixa de clima épico.
Como compositora, Ro Ro reacendera o brilho inicial com Fogueira, canção que Maria Bethânia lançara no ano anterior no álbum Ciclo (1983). Com o toque sensível do violão ovation e da guitarra de Ricardo Silveira, a gravação de Ro Ro preservou a melancolia entranhada na bela canção em arranjo pautado pelo intimismo.
Da safra autoral reunida pela compositora no álbum A vida é mesmo assim, Fogueira foi destaque ao lado da também tristonha Gata, moleque, ninfa – uma das mais inspiradas canções de Ro Ro, curiosamente nunca regravada pela autora e por nenhum intérprete. Ficou esquecida nesse disco de 1984.
Conduzido pelo sopro de naipe de metais, o fox-título A vida é mesmo assim abriu o álbum e mostrou a artista com o mesmo lampejo de inspiração que saltou aos ouvidos em Isso é para a dor, música de Ro Ro gravada pela autora em flerte com o flamenco e também abordada pela cantora Rosa Marya Colin naquele mesmo ano, em gravação do obscuro álbum Cristal (1984). Já a afogueada Librear – música que Ro Ro teria feito para Gal Costa – foi exemplo de que a obra da compositora já perdera a coesão inicial, em que pese a verve da letra.
Talvez por essa razão o álbum A vida é mesmo assim tenha trazido no repertório cinco músicas de lavras alheias, veículos para Ro Ro se exercitar como a (grande) intérprete que sempre foi. Uma cantora que sempre mostrou pleno entendimento do que gravou, seja música própria ou de outros.
Entre as cinco incursões por territórios alheios do álbum A vida é mesmo assim, a soberania ficou com a canção Nenhum lugar, uma das melodias mais lindas da compositora Sueli Costa. Canção poeticamente letrada por Tite de Lemos (1942 – 1989), Nenhum lugar ficou inexplicavelmente esquecida no quinto álbum de Ro Ro, jamais tendo sido regravada. Ainda bem que o registro de Ro Ro resultou preciso. Inclusive pelo arranjo de Antonio Adolfo, cujo piano pareceu emular o toque personalíssimo do piano de Ro Ro. Sem falar que Paulo Moura (1932 – 2010) soprou no solo de saxofone toda a dor conjugal da personagem da canção de Sueli e Tite.
A dor de amor de Nenhum lugar reverberou em Opus 2 (Antonio Carlos e Jocafi, 1977), outra música que se ajustou perfeitamente ao canto quente de Ro Ro. Já o samba-canção Você não sabe amar (Dorival Caymmi, Carlos Guinle e Hugo Lima, 1950) perdeu densidade em gravação que exemplificou a habilidade de Antonio Adolfo para dar ar atual à canção antiga sem fazer do arranjo um pastel sonoro.
Em contrapartida, o humor soou rarefeito no álbum A vida é mesmo assim. Duas músicas inéditas de Leo Jaime – Sucesso sexual, parceria com o miquinho Leandro Verdeal, e Hot dog, versão de Hound dog (Jerry Leiber e Mike Stoller, 1953) que virou típico boogie de Ro Ro – surtiram pouco efeito no bom conjunto do disco. Talvez porque a labareda de Angela Ro Ro sempre tenha chegado mais alto, alcançando os corações, quando a artista ardeu na fogueira das paixões. Fogueira que a cantora conseguiu reacender no álbum A vida é mesmo assim.