Discos para descobrir em casa – ‘A terceira lâmina’, Zé Ramalho, 1981


Capa do álbum ‘A terceira lâmina’, de Zé Ramalho
Frederico Mendes
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – A terceira lâmina, Zé Ramalho, 1981
♪ Em 1981, ao lançar o terceiro álbum solo, A terceira lâmina, com repertório inteiramente autoral, Zé Ramalho serviu mais uma vez o banquete de signos místicos que já caracterizava na época a obra do cantador.
Construída com base na reapresentação de ritmos da nação musical nordestina em ambiência folk, com a energia do rock e um toque de psicodelia, a obra de José Ramalho Neto – paraibano de Brejo da Cruz (PB), cidade interiorana onde nasceu em 3 de outubro de 1949 – teve evidenciada o tom apocalíptico neste terceiro álbum solo, gravado com produção musical orquestrada pelo próprio Zé com Mauro Motta.
Joia de maior quilate do repertório autoral, a canção-título A terceira lâmina – arranjada com cordas regidas pelo maestro Miguel Cidras – anunciou o apocalipse em tom profético potencializado pela voz cavernosa deste cantor, compositor e músico que foi um dos últimos artistas nordestinos ao alcançar o sucesso na corrente migratória que deslocou vozes da região para o eixo Rio-São Paulo ao longo dos anos 1970.
Após pavimentar o circuito de shows de João Pessoa (PB), cidade onde era conhecido como Zé Ramalho da Paraíba, o artista arriscara vinda para o Rio de Janeiro (RJ), onde em 1975 integrou a banda de Alceu Valença, colega pernambucano que já vinha fazendo discos e shows com regularidade, embora ainda sem expressiva adesão popular.
Foi em Pernambuco, mais especificamente no Recife (PE), que Zé Ramalho gravara de outubro a dezembro de 1974 o título inaugural da discografia, o posteriormente cultuado Paêbirú – Caminho da montanha do sol, álbum duplo conceitual feito pelo artista com o pernambucano Lula Côrtes (1949 – 2011).
Como Paêbirú foi literalmente por água abaixo ao ser lançado em 1975, tendo quase toda a tiragem inutilizada em enchente que alagou as instalações da gravadora Rozenblit, Zé praticamente voltou ao começo. Até que, entre idas e vindas ao Rio de Janeiro (RJ), o cantor conseguiu a oportunidade de gravar em 1977 o primeiro álbum solo, Zé Ramalho, lançado no ano seguinte pelo selo Epic, da CBS, gravadora que concentrava artistas nordestinos (como Amelinha, Elba Ramalho e Fagner) no elenco. Os álbuns Zé Ramalho (1978) e A peleja do diabo com o dono do céu (1979) foram as pedras fundamentais da discografia do artista.
A partir do álbum A terceira lâmina, Ramalho começou a dar progressivos sinais de desgaste como compositor. Embora músicas como Atrás do balcão já tenham sinalizado esse desgaste no disco de 1981, por resultarem (bem) aquém da inicial safra autoral do artista, o álbum A terceira lâmina ainda soou incisivo, no todo.
Canção agalopada, faixa que abriu em tom épico o LP editado com luxuosa capa dupla, também sobressaiu na parcela inédita do repertório, reverberando o clima apocalíptico de sucessos anteriores do cantador em gravação adornada com a voz da cantora lírica mineira Maria Lúcia Godoy. Na sequência, Filhos de Ícaro manteve o tom profético, mas caiu no samba em inusitada virada rítmica do arranjo.
“Deixe o fogo na metade / Deixe a cidade derreter”, ordenou Ramalho, amenizando o clima na faixa Um pequeno xote, em gravação adornada pelo toque arretado da sanfona de José Severo da Silva (1950 – 2015), o popular Severo do Acordeom, músico de nome recorrente nas fichas técnicas de discos de Elba Ramalho e Zé Ramalho.
No álbum A terceira lâmina, Severo integrou time de músicos que incluiu a luxuosa presença de Geraldo Azevedo – futuro colega de Zé, de Elba Ramalho e de Alceu Valença no projeto O grande encontro – no toque do violão ovation.
Cantora paraibana que fizera coro no primeiro álbum solo do conterrâneo, Elba foi convidada especial no terceiro álbum solo de Zé, tendo posto a voz então agreste no frenético galope Cavalos do cão, cuja letra revolveu memórias de guerras do sertão nordestino. Com sementes de sons árabes e ibéricos, esse terra musicalmente fértil também inspirou o tema instrumental Violar, conduzido pela viola tocada pelo próprio artista.
E falando novamente em Elba Ramalho, Zé regravou no álbum A terceira lâmina a bela balada, Ave de prata, que fornecera para o repertório do primeiro LP da intérprete, intitulado justamente Ave de prata e lançado em 1979. Pautada pelo canto falado, a gravação do autor resultou sem a força do registro original da Leoa da Paraíba.
Também da safra autoral apresentada em 1979 em vozes alheias, Ramalho repescou – com toda a propriedade – o frenético Galope rasante, lançado por Amelinha no segundo álbum da cantora cearense, Frevo mulher, batizado com o nome de um dos maiores sucessos do cancioneiro autoral de Zé. Talvez por isso mesmo, o cantor fechou o álbum A terceira lâmina com outro frevo, Dia dos adultos.
Música lançada em disco pela banda Flor de Cactus em 1980, ano em que Fagner estourou com outra canção de Ramalho (Eternas ondas, em 2003 incluída em registro demo do autor em edição em CD do álbum de 1981), Kamikaze também ganhou registro do compositor em A terceira lâmina, álbum incisivo, mas sem o corte tão afiado como os dos dois primeiros antológicos discos da carreira solo de Zé Ramalho da Paraíba.