Disco de resistência, ‘Acorda amor’ propõe que corações batam sem medo e sem fugir à luta


As cantoras Letrux, Luedji Luna, Liniker, Maria Gadú e Xênia França unem vozes e forças em álbum coletivo com releituras de 16 músicas lançadas entre 1957 e 2016. Resenha de álbum
Título: Acorda amor
Artistas: Letrux, Luedji Luna, Liniker, Maria Gadú e Xênia França
Gravadora: Selo Sesc
Cotação: * * * *
♪ “Acorda, amor / O teto vai cair em cima de você / Sai logo da cama, vai / Vamo lutar”, conclama Edgar em versos de Sem preguiça para fazer revolução, poema inédito do rapper alocado ao fim do álbum coletivo Acorda amor, lançado pelo Selo Sesc em luxuoso CD e em edição digital.
No arremate, o poema de Edgar explicita o que está quase sempre subentendido nas 16 gravações ouvidas anteriormente neste disco dividido pelas cantoras Letrux, Liniker, Luedji Luna, Maria Gadú e Xênia França.
Batizado com o nome de música de 1974, creditada pelo autor Chico Buarque aos fictícios irmãos compositores Julinho da Adelaide e Leonel Paiva, o álbum Acorda amor tenta provocar o despertar da multidão inerte.
Ao se alternarem nas interpretações de 16 músicas lançadas originalmente entre 1957 e 2016 (e ao se juntarem em coros em várias dessas músicas), as cantoras Letrux, Liniker, Luedji Luna, Maria Gadú e Xênia França unem vozes e forças para propor engajamento social com afeto altivo e com a consciência de que “a flor pode vencer o canhão” se houver espírito de coletividade entre o povo anestesiado.
Registro de estúdio do projeto idealizado em 2017 por Décio 7, Devanilson Furlani e Roberta Martinelli, Acorda amor não foge à luta, mas foge do panfleto ao apresentar músicas do show que estreou em fevereiro de 2018 em São Paulo (SP), com produção musical de Décio 7, baterista do banda paulistana Bixiga 70.
Composição lançada na voz de Erasmo Carlos em fase marginal da discografia do Tremendão, Gente aberta (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1971) já hasteia a bandeira do afeto na abertura do disco em gravação com as cinco cantoras.
Capa do álbum ‘Acorda amor’
Arte de Pedro Inoue
Os solos posteriores reforçam o discurso com doses maiores ou menores de amor. A dor sai pela boca de Xênia França em Deixa eu dizer (Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, 1973), samba lançado na voz de Cláudia, sem pesar o tom do disco. Liniker renega o desespero em A vida em seus métodos diz calma (Di Mello, 1975).
Letrux preza o bem-estar ao trazer Saúde (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1971) para a pista na qual a vivaz cantora também joga Cinco bombas atômicas (Jorge Mautner e Nelson Jacobina, 1974). Luedji Luna pondera, na cadência do reggae Extra (Gilberto Gil, 1983), que “resta uma ilusão” na oração feita para escapar de tempo sombrio.
“Onde queres o ato, eu sou o espírito”, sintetiza Maria Gadú em verso de O quereres (Caetano Veloso, 1984). Gadú também faz Nuvem cigana (Lô Borges e Márcio Borges, 1972) passar no disco com a pureza do afeto.
Selecionado longe do trilho da obviedade, o repertório do álbum Acorda amor levanta bandeiras com sutileza, seja quando Xênia França revitaliza em Assumindo (1985) o orgulho de Leci Brandão ao ver amores ousarem andar de mãos dadas ao meio-dia, seja quando Luedji Luna evoca a ancestral força da negritude em Obaluayê (Abigail Cecílio de Moura, 1957), seja quando Maria Gadú põe as mulheres no devido lugar de autonomia, livre do jugo machista, em Triste, louca ou má (Juliana Strassacapa, Mateo Piracés-Ugarte, Sebastian Piracés-Ugarte, Andrei Martinez Kozyreff e Rafael Gomes da Silva, 2016).
O afeto permeia Acorda amor sem atenuar a firmeza da resistência. “Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”, avisa Letrux em Sujeito de sorte (Belchior, 1976) entre golpes da guitarra de Guilherme Held.
Resistir é preciso, até porque “há beleza em viver e amar”, como reforça Liniker no canto assertivo de Não adianta (Aloísio Silva e Luiz Carlos Fritz, 1975), música lançada há 45 anos pelo Trio Mocotó.
Letrux, Luedji Luna, Liniker, Maria Gadú e Xênia França se alteram nos solos do álbum ‘Acorda amor’
Pablo Saborido / Divulgação
A musicalidade reforça o discurso. As cordas e sopros do arranjo de Conflito (Pedro Santos, 1976), por exemplo, encorpam com toques de africanidade a gravação dessa até então esquecida composição lançada pelo grupo Baluartes no disco Nira Congo (1976).
A sintonia entre sons, discursos e o momento do Brasil redime Comportamento geral (Gonzaguinha, 1972) de já soar batido na voz de Xênia França, uma vez que, nos dois anos que separam a estreia do show e a edição do disco, o atualíssimo samba ganhou as vozes de Elza Soares, Vanessa da Mata e Ney Matogrosso em registros quase simultâneos.
E por falar em samba, Chorando pela natureza (João Nogueira e Paulo César Pinheiro, 1980) ressurge na gravação de Liniker com alto teor de destruição, como se o mediano samba (um dos menos inspirados da dupla de compositores) fosse o mar ou as matas que geram o lamento do poeta.
Enfim, por mais alguma faixa tenha resultado fora da ordem, tudo se afina no espírito engajado deste disco que tenta provocar o despertar coletivo. Mesmo o desânimo, acusado pelas artistas no canto coletivo de Cansaço (Douglas Germano, 2016), acaba vencido pelo espírito de luta reavivado no recado final dado pelo rapper Edgar no poema Sem preguiça para fazer revolução.
Acorda, amor, para a importância e beleza deste disco que propõe que os corações batam sem medo e sem fugir à luta.