Dia Nacional do Combate à Hipertensão: Pressão alta afeta um a cada quatro brasileiros


Doença é a principal causa de infarto e AVC. Estudo mostra que limites de pressão mais baixos ajudam a proteger crianças de complicações futuras. Um a cada quatro brasileiros é hipertenso, segundo Ministério da Saúde
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Pelo menos 25% dos adultos brasileiros sofrem de hipertensão. A doença é o principal fator de risco para a ocorrência de problemas cardiovasculares como infarto e acidente vascular cerebral (AVC).
No Brasil, 84 mortes por hora, ou cerca de 829 óbitos por dia, são decorrentes de doenças cardiovasculares. Os dados são do Sistema de Informações de Mortalidade (SIM), do Ministério da Saúde. Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), 51% das mortes por AVC e 45% das mortes por problemas cardíacos no mundo estão relacionadas à hipertensão.
No Dia Nacional de Combate à Hipertensão (26 de abril), médicos destacam a importância da prevenção e do diagnóstico precoce. Como a doença muitas vezes não manifesta sintomas, o número de pessoas hipertensas no Brasil pode ser ainda maior.
A hipertensão é mais prevalente em adultos e idosos mas também pode se manifestar em crianças e adolescentes. Um estudo publicado em 2013 na revista “Pediatrics” estima que a pressão alta afete cerca de 17% das crianças e adolescentes no Brasil.
Revisão de limites
Para evitar complicações decorrentes da hipertensão há uma tendência mundial de revisão dos limites máximos de pressão arterial recomendados, inclusive para as crianças, segundo o médico Marcus Malachias, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia.
“Vale a pena reduzir e trabalhar com números mais baixos de pressão considerada saudável porque você consegue proteger um número maior de pessoas com o acompanhamento médico”, explica Malachias.
Pesquisadores americanos verificaram que critérios mais rigorosos para determinar pressão alta em crianças são, de fato, mais eficazes. As informações foram publicadas na segunda-feira (22) pela Associação Americana do Coração (AHA, na sigla em inglês).
O estudo mostra que os novos parâmetros adotados pelos Estados Unidos para hipertensão infantil, em vigor no país desde 2017, são mais bem-sucedidos em proteger crianças em situação de risco do que a classificação anterior.
Segundo os novos critérios, cerca de 11% das crianças nos Estados Unidos têm pressão alta, contra 7% segundo os critérios antigos.
Dentre as crianças participantes do estudo, 19% das identificadas com pressão alta segundo os novos limites desenvolveu alterações na musculatura do coração, contra 12% das crianças classificadas como hipertensas pelos parâmetros antigos.
A pesquisa analisou dados do Bogalusa Heart Study, um dos maiores estudos na área de cardiologia nos Estados Unidos, que é usado como base para definir parâmetros de hipertensão em vários países do mundo.
“Em comparação com crianças de pressão arterial normal, aquelas reclassificadas como tendo pressão arterial elevada eram mais propensas a desenvolver hipertensão adulta, espessamento da parede do músculo cardíaco e síndrome metabólica – todos fatores de risco para doenças cardíacas”, afirma a pesquisadora Lydia Bazzano, uma das autoras do estudo.
Hipertensão infantil
A hipertensão em crianças pode causar lesões graves no coração, cérebro e rins. Ao contrário da pressão arterial adulta, que é considerada normal até 120 por 80 milímetros de mercúrio (mmHg), os níveis para crianças e adolescentes variam conforme o peso, idade, altura e sexo do paciente.
“A maior parte dos casos de hipertensão em crianças está relacionada a obesidade, dieta rica em sódio e sedentarismo”, explica Luiz Bortolotto, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Hipertensão. Além desses fatores, a predisposição genética também coloca muitas crianças no grupo de risco.
Obesidade infantil é um dos fatores de risco para hipertensão
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Os médicos ressaltam, no entanto, que nem sempre é necessário tratamento medicamentoso para tratar a pressão arterial elevada em crianças.
“Para a maioria, as mudanças no estilo de vida são a base do tratamento. É importante manter um peso normal, evitar excesso de sal, fazer atividade física regularmente e ter uma dieta saudável”, explica Lydia Bazzano.
Diagnóstico e prevenção em crianças
Um dos entraves para o diagnóstico da hipertensão em crianças é a escassez de equipamentos adequados para aferir a pressão nesse grupo. As braçadeiras dos medidores de pressão devem ser trocadas por modelos de tamanho menor para medir corretamente a pulsação de crianças e bebês.
“Nos atendimentos de urgência de hospitais públicos, a inadequação dos equipamentos pode ser mais comum”, explica Malachias. Segundo o cardiologista, são necessários pelo menos três tamanhos de braçadeiras diferentes para atender o público infantil.
As diretrizes brasileiras de tratamento para a hipertensão determinam que todas as crianças a partir de 3 anos de idade devem medir a pressão arterial com regularidade nas consultas médicas de rotina. No entanto, muitos médicos pediatras ainda não fazem o controle sistemático da pressão em crianças pequenas.
“Antigamente, era muito raro um medico verificar a pressão de uma criança”, lembra Malachias. “O cenário melhorou nos últimos anos mas ainda pode avançar. Quanto mais cedo nós conseguirmos diagnosticar e cuidar dessas crianças, melhor.”
Outra dificuldade para a medição correta da pressão em crianças é a chamada “Síndrome do avental branco”. Trata-se do medo irracional da figura do médico que faz com que muitos pacientes sintam ansiedade na hora de medir a pressão, o que acaba elevando a pressão arterial no momento da consulta.
“Essa síndrome pode ocorrer também com adultos mas, no geral, crianças ficam mais intimidadas”, explica Bortolotto. “Para garantir um exame preciso é necessário acalmar a criança e criar um ambiente confortável. Em caso de dúvida o ideal é fazer a medida com aparelhos que monitoram a pressão continuamente ao longo de 24 horas.”