Dia do Professor: professores transformam suas casas em sala de reforço escolar em Araruama


Objetivo do projeto ‘Casas Reforço Escolar’, da Prefeitura de Araruama, é acolher afetivamente e contribuir com a aprendizagem dos alunos do município afetados pela pandemia. Iniciativa ainda gera renda para professores que estavam desempregados. Crianças são recebidas na casa dos professores, totalmente adaptada para oferecer as aulas de reforço escolar em Araruama
Prefeitura de Araruama/Divulgação
No Dia do Professor, celebrado nesta sexta-feira (15), o g1 apresenta uma iniciativa em Araruama, na Região dos Lagos do Rio, que tem transformado a casa de professores em sala de aula nessa pandemia da Covid-19. Trata-se do projeto da Secretaria Municipal de Educação “Casa Reforço Escolar”, que se destaca pelo acolhimento afetivo e valorização da autoestima dos alunos da Rede Pública Municipal enquanto gera trabalho e renda a educadores que estavam desempregados.
O projeto, lançado em 02 de setembro, já transformou parte da casa de cinco professoras que estavam desempregadas em sala de aula para reforço escolar
Prefeitura de Araruama/Divulgação
O projeto foi lançado no dia 02 de setembro e, atualmente, estão em funcionamento cinco Casas Reforço Escolar na residência de cinco professoras, sendo duas no bairro Mataruna, uma no Fazendinha, uma no Mutirão e outra no Outeiro. Todas as casas foram adaptadas pela Prefeitura com mesas, cadeiras, quadro, tatame e almofadas, além de material de ensino, como livros e cadernos. A remuneração aos professores ocorre a título de aluguel.
A professora Luciene Inês de Oliveira Costa, de 39 anos, está feliz em abrir sua casa para o projeto e já vem colhendo os resultados desse contato mais próximo com os alunos.
A professora Luciene Inês transformou uma parte da sua casa em sala de aula para o reforço escolar, que parte da perspectiva individual de cada aluno para o acolhimento e a aprendizagem
Arquivo pessoal
“Eles compartilham comigo a dificuldade que tiveram fazendo aulas on-line. Alguns disseram que não tinham internet em casa, outros disseram que os pais, por não terem o estudo, a formação necessária, não conseguiam ajudá-los. Então, eles estão muito empolgados com o projeto. São muito assíduos, interessados, esforçados. A todo o momento eu procuro levantar a autoestima desses alunos. E pelo fato de ser uma casa, não sei se eles se sentem mais à vontade, por não ter aquela visão mais total de escola, eles expõem suas dificuldades. Eu falei pra eles não terem vergonha de falar sobre o onde tem dificuldade, que vamos subir um degrau de cada vez, e se tivermos que regressar, vamos regressar. A gente não pode avançar e deixar alguma lacuna para trás. E assim a gente tá seguindo e obtendo resultado, e eu estou muito feliz”, conta Luciene.
A professora compartilhou com o g1 a redação de um aluno em que ele manifestou a importância da Casa Reforço.
“…Tem uma parte da produção textual feita pelo aluno João Vitor, que ele diz: ‘quando sentei na cadeira percebi a experiência da professora que em poucos minutos despertou a minha vontade de estudar’…
“Nada mais motivador do que saber que você despertou no seu aluno a vontade de estudar, porque eles, a maioria, às vezes ficam desestimulados pela dificuldade que têm na assimilação de conteúdos, acham que são diferentes dos outros colegas porque não aprenderam. Eu falo: você sabe, vamos traçar o melhor caminho para você tá mostrando para si mesmo que você sabe”, explica a professora, lembrando que o foco é identificar a maneira própria que cada um tem de aprender, além de considerar aspectos subjetivos, da própria realidade deles, buscando a melhor forma de aplicar o conteúdo.
“Essa profissão me escolheu e eu sigo com ela há 21 anos fazendo de tudo para tentar contribuir de forma positiva na vida dos meus alunos, tanto na parte didática, quanto na parte humana”, ressalta Luciene.
Funcionamento da Casa Reforço
Adolescentes também são atendidos pelo projeto ‘Casa Reforço Escolar’ em Araruama
Prefeitura de Araruama/Divulgação
As cinco Casas Reforço funcionam de segunda a sexta-feira, de 07h30 às 17h30. Cada aula, com até 10 alunos por turma, tem duração de uma hora. A triagem dos alunos que apresentam mais dificuldades é feita pelos professores do 1º ao 9º ano das escolas municipais.
Anna Paula Franco, subsecretária de Educação e diretora do Departamento de Desenvolvimento do Ensino, explica que o projeto é mais uma estratégia de superação de dificuldades ocasionadas pela pandemia da Covid-19.
“Os educadores do referido projeto, devidamente habilitados e orientados, fazem a acolhida aos discentes encaminhados pelas unidades escolares e propõem, com segurança, estratégias pedagógicas diversas a fim de potencializar suas habilidades e competências, resgatando a autoestima e maior interesse pelos estudos”.
Ao g1, a Prefeitura informou que vai ampliar o projeto, chegando a 30 Casas Reforço Escolar em diferentes pontos de Araruama, com capacidade para atender 160 crianças, cada.
Atualmente, as escolas municipais, pré-escolar da Educação Infantil e Ensino Fundamental 1 e 2 (Regular e EJA), estão seguindo o modelo híbrido de ensino. Apenas os alunos da creche continuam com aulas on-line.
Anna Paula conta que foram muitos os desafios diante da necessidade da rápida adaptação a uma realidade nunca antes experimentada na educação brasileira.
“A pandemia da Covid-19 nos impôs a necessidade de repensar nossa postura diante de alguns aspectos relacionados à vida em sociedade, ao trabalho, ao lazer, à educação, entre outros. Mudanças consideráveis foram observadas e talvez sejam permanentes, ou durem mais tempo do que imaginávamos. Na Educação, a tecnologia, embora já fizesse parte da rotina de muitos, inicialmente foi vista como uma muralha intransponível. Planejar e propor aulas lançando mão das ferramentas digitais tornou-se um grande entrave no fazer pedagógico. De uma hora para a outra, o processo ensino aprendizagem passou por uma significativa transformação, em meio às incertezas que a pandemia nos reservava. A Prefeitura de Araruama, por intermédio da Secretaria de Educação, propôs cursos on-line sobre o ensino híbrido, modelo proposto para rede municipal, palestras continuadas, grupos de estudos, entre outros, a fim de subsidiar a prática docente nas unidades escolares”, explicou a subsecretária.
Anna Paula ressalta que o engajamento dos professores tem sido parte fundamental em todo o processo e que os mesmos, diante da grande oferta de aulas, cursos, palestras, fóruns on-line, buscaram o aperfeiçoamento de suas práticas para esta nova realidade.
“É notório o engajamento dos educadores na proposição de metodologias capazes de encantar e motivar seus alunos, colaborando com o desenvolvimento de habilidades e competências que permitam aos alunos passar da melhor forma por esta pandemia e ter uma vida responsável, consciente e ativa na sociedade”.
“Hoje, gostaria de parabenizar a todos os professores que atuam em escolas e no Projeto Casa Reforço Escolar por sua incansável busca pela proposição do melhor aos seus alunos, e, por consequência, ‘se eternizam em cada ser que educa’, nas atemporais palavras do educador Paulo Freire”, conclui Anna Paula Franco.
Importância do acolhimento
O g1 ouviu a psicopedagoga Maria Izabel Bastos sobre a importância do acolhimento aos alunos diante de tudo que eles já passaram nessa pandemia. Quanto à recuperação dos conteúdos, ela explica que é uma tarefa que deve ocorrer aos poucos, a longo prazo.
A psicopedagoga Maria Izabel fala do processo de acolhimento e aspectos que devem ser considerados nessa pandemia
Arquivo pessoal
“Esse momento de retorno precisa ser de grande acolhimento, já que a escola não sabe o que ocorreu com o aluno, assim como o aluno não sabe o que ocorreu com o professor, com a escola. Então, quando se fala em retorno, seja na modalidade híbrida ou 100% presencial, precisamos ter bastante cuidado pois a escola não acompanhou a vida desse aluno nesse período de um ano e meio ou quase dois anos já na pandemia. Vai receber alunos que tiveram perdas financeiras, perdas materiais, perdas de vida, alunos que, hoje, sofrem com sintomas de ansiedade, medo, pânico…e esse aluno precisa estar novamente integrado na comunidade escolar. Ele precisa ter seus sonhos reavivados, ter a integração com os colegas novos, com os professores novos, pois a pandemia também trouxe mudança de professores nas escolas. Então, ele precisa de se ambientar novamente”, ressalta Maria Izabel.
Nesse processo de acolhimento, o professor tem papel crucial, como lembra a psicopedagoga.
“O professor é figura principal pra esse retorno, porque ele tem o olhar cuidadoso sobre o aluno. Ele sabe a postura do aluno, conhece bem o comportamento deles. Sabe identificar aquele aluno que realmente está participando, está com alguma questão de ordem psicológica, emocional. O professor é o primeiro a detectar isso. O professor é uma figura valiosíssima pra todos, pra cada um de nós. E ele pode contribuir muito com isso, e, naturalmente, a escola precisa dar esse espaço de acolhimento, de afeto, pra dar um abraço, pra permitir que o aluno possa conversar, pra que se sinta bem, que sinta que há vida de novo, há perspectivas de novo, que há desenvolvimento para ele no futuro. Enfim, assim como nós adultos precisamos de um ombro pra chorar, de um aperto de mão, de um abraço, o aluno precisa muito mais”.
“A gente não pode esquecer que seja criança, seja pré-adolescente ou adolescente, ele foi furtado dos momentos em que ele gostaria de estar numa praça, nos parques, nos restaurantes, num lazer, num shopping…ele foi furtado disso num momento em que era pra ele isso. Então, precisamos retomar a autoestima desses alunos”, finaliza Maria Izabel.