‘Depois de tanta luta, precisei abrir mão da vaga na universidade’: como a pandemia pode reduzir nº de jovens com diploma


Crise financeira e emocional, ‘encolhimento’ de programas federais e maior evasão escolar atrapalham plano de estudantes concluírem universidade. G1 reúne números e histórias que mostram os obstáculos enfrentados. Vídeo: Pandemia pode adiar sonho de jovens se formarem na faculdade
Matheus Henrique estudou por dois anos em um cursinho popular (voltado a jovens de baixa renda) para realizar o sonho de cursar engenharia em uma universidade pública. No início de 2020, viu seu nome na lista de aprovados da Universidade Federal de São Carlos (Ufscar), uma das melhores da América Latina. Mas, por causa da pandemia, ele nem chegou a fazer a matrícula.
“Por questões financeiras, não dava. Foi difícil. Meus pais ficaram desempregados, minha mãe engravidou, e tive de procurar emprego para ajudar em casa”, conta o jovem de 18 anos.
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Nesta reportagem, o G1 apresenta depoimentos brasileiros que, assim como Matheus, adiaram o ingresso ao ensino superior ou temem ter de desistir da graduação após dificuldades impostas pela Covid-19.
Também reúne dados que indicam mais obstáculos para a conquista do diploma:
“encolhimento” de programas federais de educação, como a redução no número de bolsas do Programa Universidade Para Todos (Prouni) e nas vagas do Sistema de Seleção Unificada (Sisu);
perda de vínculo com os estudos, após problemas no ensino remoto;
impossibilidade de fazer faculdade em outro estado, por causa da crise financeira;
ingresso precoce no mercado de trabalho;
previsão de aumento na evasão do ensino médio;
elevação de casos de depressão e ansiedade.
Marlova Noleto, diretora e representante da Unesco no Brasil, resume o quadro como “uma catástrofe na aprendizagem”. “Nossos dados já apontam que o ensino superior é relativamente o mais afetado pela evasão na pandemia: devemos ter 7,9 milhões de estudantes a menos nas universidades do mundo”, diz.
“Isso é muito, muito ruim. Precisamos manter nossos jovens com a perspectiva de estudar e de se estabelecer em suas carreiras. O desenvolvimento social e o econômico dependem disso.”
Já há evidências que apontam para uma possível redução no número de universitários após a pandemia:
O Enem 2021 registrou o menor número de inscritos desde 2005. O exame é uma importante via de acesso ao ensino superior – em 2019, 38,3% dos alunos entraram na universidade usando a nota da prova (58,4% nas públicas e 30,8% nas particulares).
Vestibulares grandes registraram recordes de abstenção, como na Unicamp e na USP.
O número de inscritos no Sisu do 2º semestre de 2021 foi 40% menor que o da mesma edição de 2019, antes da pandemia.
Levantamento de 2020 mostra forte aumento da inadimplência no pagamento de mensalidades da rede privada.
Os principais motivos de quem desiste ou pensa em desistir da faculdade
A seguir, veja o que mantém os jovens mais distantes do diploma:
1- Sisu oferece vagas no Brasil inteiro, mas quem pode mudar de estado agora?
O Sisu tem como vantagem oferecer vagas em instituições de ensino do país inteiro, em um processo seletivo único. Usando a nota do Enem, o aluno pode morar no Rio de Janeiro e pleitear uma vaga na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), por exemplo.
Isso trouxe maior deslocamento dos estudantes pelo país: logo na primeira edição do Sisu, em 2010, 25% dos alunos mudaram de estado depois do resultado. Antes, o índice era de apenas 1%, segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep).
Mas, com a crise financeira na pandemia, a possibilidade de morar fora ficou mais complicada.
“Se eu passar em uma universidade em outra cidade, vou ter de alugar um imóvel ou ter moradia estudantil e arcar com despesas de alimentação e transporte. Por outro lado, se estiver na casa dos pais, vou retardar esses gastos extras”, explica Claudia Costin, diretora do Centro de Excelência e Inovação em Políticas Educacionais da Fundação Getúlio Vargas (FGV).
Foi o que ocorreu com Lívia Marques, de 18 anos, moradora de Jandira (SP). Ela foi aprovada em relações internacionais na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mas não pôde se matricular por questões financeiras.
Lívia teve de abrir mão de vaga em universidade federal, porque não tinha como se mudar para outro estado
Arquivo pessoal
“Foi uma das decisões mais difíceis da minha vida. Depois de uma luta muito grande para passar [na faculdade], estudando o sábado inteiro em cursinho popular, consegui o que queria e precisei abrir mão”, diz. “Chorei muito. Sei que meus pais teriam feito de tudo se tivessem condições, mas infelizmente não era o caso.”
A mãe de Lívia era a única pessoa com emprego formal – trabalhava como vigilante em eventos, mas teve o contrato suspenso por causa da pandemia.
Depois disso, a jovem tentou uma vaga pelo Prouni e foi chamada na lista de espera para a PUC-SP, com bolsa integral. “Meu sonho era fazer faculdade pública, mas tudo bem, estou dentro [de uma universidade] agora. No fim, as coisas deram certo. Vou pegar ônibus, trem e metrô para chegar, mas poderei continuar morando com a minha família.”
E os que ainda podem desistir quando as aulas voltarem?
Ainda não é possível saber o número de alunos que desistiram do Sisu pela questão da mobilidade. O índice pode aumentar nos próximos meses, já que há aqueles que se matricularam na instituição de ensino justamente porque as aulas estão on-line durante a pandemia.
Na UFRJ, por exemplo, a presença de matriculados de fora do Rio de Janeiro chegou até a crescer em 2021: saltou de 974, no ano anterior, para 1.278. E o número de desistências diminuiu drasticamente: no primeiro semestre de 2021, foram 327 alunos que evadiram; no mesmo período de 2019 (antes da pandemia), 2.618 largaram o curso.
A questão é: quando as atividades presenciais forem retomadas, haverá condição de esses jovens se mudarem para o Rio de Janeiro e continuarem a estudar?
A pró-reitora de graduação da UFRJ, professora Gisele Pires, acredita que o “ensino remoto tenha encorajado os alunos de fora do estado a efetivamente cursar suas disciplinas”. Ela não respondeu, no entanto, se a evasão pode aumentar na volta às aulas presenciais.
A dúvida paira sobre os estudantes de baixa renda que foram aprovados em locais distantes da casa dos pais. Ana Caroline Ramos, de Mogi das Cruzes (SP), está cursando engenharia de alimentos na Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), no Paraná – ao menos enquanto o ensino for remoto. Quando as aulas voltarem, ela imagina que não conseguirá se manter em outro estado.
“Vou viajar para lá, mas não sei se terminarei o curso. Meus pais vão me dar um apoio, mas tenho mais duas irmãs, não dá para eles me bancarem. Isso me deixa muito ansiosa: se eu for para lá e não der certo, o que vou fazer da minha vida?”, questiona.
Ana Caroline teme ter de desistir da faculdade quando aulas presenciais forem retomadas
Arquivo pessoal
A mesma aflição é sentida por Letícia Camille, de Belo Horizonte. Ex-aluna de escola pública, ela passou na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e está cursando biologia à distância.
“Tenho medo de [a aula presencial] voltar neste ano, porque aí não vou conseguir me mudar. Estou trabalhando e tentando guardar dinheiro, mas o custo de vida em São Paulo é muito alto – fica difícil mesmo com auxílio estudantil. Não saber do futuro dá medo”, conta.
2- Pandemia trouxe problemas emocionais e perda de vínculo com a escola
Nikolas Pimenta, de 17 anos, não vai prestar o Enem 2021, mesmo estando no último ano do ensino médio em uma escola estadual de Belo Horizonte.
Ele perdeu o vínculo com o colégio durante a pandemia: precisou cuidar da mãe, que teve Covid-19 e desaprendeu a andar, e não se adaptou ao ensino remoto. Desde fevereiro, não faz mais atividades pedagógicas.
Nikolas ajudou a mãe, que teve Covid-19 e desaprendeu a andar
Arquivo pessoal
“Os aplicativos já não funcionam. A gente já não aprende, só faz lição, aí desisti deste ano”, diz Nikolas.
“Estou mais na cama, jogando e mexendo no telefone. Sinto falta de ver os amigos”, diz.
“Quando o presencial voltar, em breve, aí eu retomo tudo. Mas não vou fazer faculdade agora – quero trabalhar direto, para comprar as coisas. O Enem não vai resultar em nada.”
Costin explica que, apesar dos esforços das redes de ensino e dos docentes em manter o vínculo com os alunos, “houve um problema socioemocional no afastamento da escola”. As dificuldades na conectividade (falta de internet ou e equipamentos eletrônicos) também agravaram o quadro.
Por isso, Noleto, da Unesco, defende a busca ativa por estudantes que não voltaram às salas de aula em agosto (nas cidades em que a retomada foi autorizada). Ressalta também a importância tanto de uma coordenação nacional para combater a evasão quanto também o desenvolvimento de programas adaptados às realidades locais.
Infográfico mostra o reflexo da pandemia no dia a dia dos jovens brasileiros
Arte/G1
3- Necessidade de trabalhar x possibilidade de estudar
A necessidade de entrar no mercado de trabalho, diante da crise financeira na pandemia, aumentou entre os jovens. É mais um aspecto que pode adiar ou inviabilizar a entrada deles na faculdade.
Uma pesquisa da Unesco em parceria com o Conselho Nacional da Juventude do Brasil (Conjuve) mostrou que, em 2021, de cada 10 jovens entrevistados, pelo menos um começou a trabalhar por causa da pandemia, e dois estão procurando emprego.
Alcacia dos Santos, de 23 anos, até já estava na faculdade, mas desistiu do curso.
“Eu tinha bolsa integral do Prouni. Comecei em fevereiro de 2020 e cancelei minha matrícula três semanas depois, porque ficou muito pesado conciliar com o emprego.”
Outra jovem que optou por focar no mercado de trabalho foi Camile Caiane, de 18 anos. Ela abandonou o cursinho popular em São Paulo, na pandemia, porque parou de ver sentido em fazer faculdade. Apesar de sonhar em cursar direito desde os 13 anos, mudou de ideia ao começar a trabalhar na quarentena e perceber que é possível, sim, ganhar dinheiro sem ter diploma.
Camile parou de ver sentido em fazer faculdade
Arquivo pessoal
Ela dá aula particular a crianças que não conseguiram se alfabetizar e ainda faz trabalhos de arte no marketing digital. “Percebi que é melhor escolher cursos on-line na área de design, porque aí vou aprender o que preciso. Ficar quatro anos na faculdade e perceber que não aproveitei nem 6 meses não vale a pena”, conta.
4- Programas federais de acesso à universidade ‘encolhem’
O gráfico abaixo mostra que houve um “encolhimento” de programas federais de acesso ao ensino superior: o total de bolsas ofertadas pelo Prouni em 2021 foi o menor desde 2013. Por meio dele, alunos de baixa renda e/ou de escolas públicas conseguem bolsas de 50% ou 100% no setor privado.
Prouni e Sisu sofreram reduções em 2021
Arte/G1
E o Fies, que concede financiamentos para alunos pagarem as mensalidades, teve redução de vagas: foram 93 mil ofertadas em 2021 – 7 mil a menos do que o inicialmente divulgado pelo Ministério da Educação (MEC) no plano trienal do programa.
O G1 entrou em contato com a pasta para saber as razões da diminuição dos programas, mas não obteve resposta até a última atualização da reportagem.
5- Dificuldade de adaptação à EAD também desanima jovens
Costin alerta que as instituições públicas de ensino superior demoraram, no geral, para começar a oferecer conteúdos à distância. “‘Pensaram assim: já que nem todos têm equipamentos, não vamos oferecer nada.’ Foi um erro muito forte. Uma demora maior que na educação básica para achar uma solução de aprendizagem em casa”, explica.
É um fator que aumenta ainda mais a resistência ao formato on-line.
Em São Paulo, Lucas Leal, de 18 anos, havia conseguido uma bolsa parcial do Prouni na PUC-SP, para estudar odontologia.
“Acabei desistindo porque tenho muita dificuldade em aprender à distância. Achei melhor esperar o momento em que as aulas forem presenciais”, diz. “E eu também precisava trabalhar, porque preciso garantir uma renda extra.”
Lucas Leal só quer entrar na faculdade depois da volta do formato presencial
Arquivo pessoal
6- Alunos em vulnerabilidade social que faltaram ao Enem passado ficarão de fora no próximo
Pelas regras do Enem, ex-alunos da rede pública e pessoas em vulnerabilidade social têm direito a não pagar a taxa de inscrição (R$ 85).
Aqueles que, na edição anterior do Enem, estavam isentos, mas não compareceram aos locais de prova, só poderiam obter novamente a gratuidade se explicassem por que se ausentaram. O edital previa justificativas como acidente de trânsito ou doenças contagiosas (desde que houvesse documento comprovando a situação, como boletins de ocorrência ou atestados médicos).
Não foram aceitas, porém, autodeclarações de quem estava com medo da pandemia, por exemplo.
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“Muitos ficaram com medo de entrar no ônibus lotado e foram punidos com a perda de isenção de taxa. Isso explica por que o índice de inscrição foi o mais baixo desde 2005”, diz Costin.
Situação já era crítica antes da pandemia
O Brasil já enfrentava problemas graves na educação de jovens mesmo antes da pandemia:
Números mostram desafio da permanência escolar antes da pandemia
Arte/G1
Os dados acima mostram a dificuldade de aumentar a parcela de jovens que concluem a educação básica. Para garantir que eles não só terminem a escola, como também entrem na faculdade, o caminho é ainda mais longo.
O Plano Nacional de Educação (PNE), que estabelece metas para o país, tem como objetivo que 33% dos brasileiros de 18 a 24 anos estejam no ensino superior até 2024. Estamos ainda distantes dessa marca: em 2020, o índice era de 23,8%.
Não falta apenas garantir o ingresso dos alunos nas universidades, mas também a permanência deles até o final do curso.
Segundo o Censo de Educação Superior mais recente (divulgado em outubro de 2020), entre 2010 e 2019, cerca de 40% dos alunos que entraram na faculdade concluíram a graduação. Ou seja: a maior parte já desistia no meio do caminho.
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