Depois de escapar do Japão, Carlos Ghosn se encontrou com presidente do Líbano, dizem fontes


O ex-executivo, que nasceu no Brasil, escapou da prisão domiciliar no Japão e voou até Beirute com o apoio de uma empresa privada de segurança, de acordo com pessoas próximas a ele. Carlos Ghosn no dia em que foi libertado sob fiança, em fevereiro de 2018, em Tóquio
Issei Kato/Reuters
Carlos Ghosn, o libanês nascido no Brasil e ex-diretor-executivo da Nissan, se encontrou com o presidente do Líbano, depois de fugir do Japão, onde estava em prisão domiciliar, de acordo com relatos de duas pessoas próximas a ele à Reuters nesta quarta-feira (1).
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Ele conseguiu escapar de uma prisão domiciliar com a ajuda de uma empresa privada de segurança, segundo os relatos dessas fontes.
Uma delas disse que Ghosn foi cumprimentado de forma efusiva pelo presidente Michel Aoun na segunda (30), depois de ter chegado em Beirute com escala em Istambul. O fugitivo está em um estado combativo e se sente seguro, acrescentou a pessoa próxima a Ghosn.
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No encontro com o presidente, ele teria agradecido a Aoun pelo apoio que ele e a mulher, Carole, receberam durante a prisão, segundo as fontes. Ele agora precisa de proteção e segurança dos libaneses, complementaram.
Um assessor de Imprensa do gabinete da presidência do Líbano negou que os dois tenham se encontrado.
Autoridades do Líbano disseram que não há por que entrar com ações legais contra Ghosn, já que ele entrou no país de forma legal, com um passaporte francês –o ex-executivo tem passaportes do Brasil, Líbano e França, mas, teoricamente, os três estão com advogados no Japão.
Os ministros de Relações Exteriores da França e do Líbano disseram que não sabem quais foram as circunstâncias da viagem.
O Líbano não tem acordo de extradição com o Japão, onde ele enfrentava um processo em que era acusado de crimes financeiros, o que ele nega.
Pelos termos de sua fiança, ele precisaria estar confinado na sua residência em Tóquio, onde haveria câmeras instaladas na entrada. Ele não poderia se comunicar com a mulher, Carole, e teria uso de internet e outros meios de comunicação reduzidos.
As fontes afirmaram que o embaixador do Líbano no Japão o visitava diariamente durante a prisão.
“Ficção pura”
Na mídia libanesa levantou-se a hipótese que Ghosn teria escapado escondido em uma caixa de instrumento depois de um concerto privado na sua residência. É ficção pura, disse a mulher Carole, em conversa com a Reuters.
Ela não deu detalhes da saída de uma das pessoas mais reconhecidas da indústria automobilística. Os relatos de duas fontes sugerem que houve uma escapada elaborada, e que poucas pessoas tinham conhecimento de como ela aconteceria.
Eles disseram que uma empresa de segurança privada supervisionou o plano, que levou três meses para ser executado. Por ele, Ghosn foi retirado do país em um avião privado, de onde foi até Istambul. De lá, ele seguiu para Beirute, e nem mesmo o piloto sabia da presença do fugitivo na aeronave.
Foi uma operação profissional do começo ao fim, descreveu uma das fontes. A outra complementou com a informação de que ele está em bom estado de saúde.
Em uma declaração por escrito, Ghosn disse que depois de sua chegada, ele “escapou da injustiça e da perseguição política”, e que iria se comunicar com a mídia na próxima semana.
Pessoas próximas a ele dizem que o ex-executivo não está disposto a revelar detalhes de sua fuga para não colocar em risco os que o ajudaram no Japão.
Ele está hospedado na casa de parentes de sua mulher, mas tem planos para voltar a um condomínio fechado de luxo em Beirute.
Ghosn foi preso em Tóquio em novembro de 2018. Ele enfrenta quatro acusações, que ele nega. Entre elas, a de esconder patrimônio e de enriquecer por meio de pagamentos a concessionárias no Oriente Médio.
A Nissan o tirou do cargo de presidente do Conselho com o argumento de que investigações internas revelam desvios e que ele declarou receber menos quando era diretor-executivo. Ele teria ainda transferido US$ 5 milhões (cerca de R$ 20,1 milhões, na cotação atual) para uma conta corrente na qual ele tinha interesses.
Ghosn foi apoiado por libaneses desde sua prisão. No país, havia outdoors que dizia “Somos Todos Ghosn”, em solidariedade a ele.
Ele é tido como uma espécie de modelo de sucesso libanês, onde há altos índices de desemprego.
Ghosn nasceu no Brasil, mas ele tem ascendência libanesa, e viveu no país quando era criança. Ele era diretor-executivo da Renault e, nessa época, ganhou o apelido de “matador de custos”. O ex-executivo emprego métodos semelhantes na Nissan.