De onde vem o que eu como: aplicativos conectam consumidor a alimentos da agricultura familiar


No Pará, uma iniciativa ganhou força após a pandemia e foi uma saída para alguns produtores venderem produtos. Por outro lado, ferramentas ainda se deparam com problemas antigos do campo, como dificuldade de acessar internet, de produzir em grande quantidade e falta de tecnologia nas lavouras. O Compras Coop-Pa no Pará conectado diretamente o consumidor final a agricultores familiares do estado.
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Aplicativos de compra e venda de comida não são uma novidade, mas quando se trata de comercializar alimentos da agricultura familiar, a ferramenta pode ser inovadora para esses pequenos produtores, que têm dificuldades de acessar mercados.
E a pandemia deu o “start” para que algumas ideias começassem a sair do papel. É o caso Compras Coop-Pa, um aplicativo que tem conectado diretamente o consumidor final a agricultores familiares do estado do Pará, sem intermediários e taxas administrativas.
“Por não ter taxa, o preço que o agricultor coloca no produto é o que ele recebe e é o que o consumidor paga”, diz o gerente de desenvolvimento do Sistema da Organização das Cooperativas Brasileiras no Pará (OCB-PA), Diego Andrade.
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O aplicativo, desenvolvido pela OCB em parceria com a Universidade Federal Rural da Amazônia (Ufra), foi uma das saídas encontradas por produtores do estado para escoar mercadorias durante a pandemia, que interrompeu, temporariamente, os principais canais de venda do setor: as feiras livres e compras públicas, como as para a merenda escolar.
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Outra iniciativa, como a da Associação da Rede de Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (RedeCoop), quer criar um canal direto entre agricultores familiares e redes de varejo do Mato Grosso.
O app, chamado de RedeCoop, já está pronto, mas enfrenta gargalos antigos do campo para ser colocado em prática, como a dificuldade de produzir em larga escala, falta de acesso à internet e de tecnologia nas lavouras.
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Arte/G1
Drive-thru digital do campo
O app Compras Coop-Pa começou a funcionar em um sistema de “drive-thru”, onde o consumidor checava onde estaria a feira, fazia o pedido, combinava a hora de retirada e a forma de pagamento por mensagens de textos.
“A partir disso a gente conseguia minimizar a aglomeração”, diz Andrade, da OCB – PA.
Lançado como projeto-piloto em meados de 2020, o app foi suspenso temporariamente em julho deste ano para melhorias e será lançado de vez no mercado no próximo mês.
Pelo app Compras Coop-Pa, o consumidor checa a localização feira, faz o pedido e combina a hora de retirada e a forma de pagamento.
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Os agricultores familiares da Cooperativa dos Produtores Rurais do município Paragominas (Coopruraim) foram alguns dos que aderiram à ferramenta em seu início, quando as feiras começaram a voltar em alguns pontos do Pará.
“A gente teve uma procura bem grande. Foi uma novidade aqui no município. Pelo aplicativo, a gente disponibilizava em qual feira estaríamos e o nosso cardápio. Muitos clientes ainda tinham receio de sair de casa, então isso ajudou a gente, pois as feiras eram a nossa única fonte de renda”, conta Samara Costa Silva, responsável técnica da Coopruraim.
“Uma das coisas que percebemos é que a aceitação do consumidor está relacionada com o fato dele saber quem está produzindo o alimento, uma garantia de segurança alimentar”, acrescenta Andrade.
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Agricultora da Cooperativa dos Produtores Rurais de Paragominas (Coopruraim).
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Opção de delivery
A Coopruraim, que trabalha com produção e venda de verduras, legumes, frutas e polpas para sucos, pretende voltar para o aplicativo assim que este for retomado, já disponibilizando ao consumidor a opção do delivery.
O sistema de entregas, inclusive, é uma das funções que deve entrar na nova versão do app, segundo Andrade. “Isso já acontece, muitos cooperados já fazem a entrega para o consumidor, mas não formalmente por meio do aplicativo”, afirma Andrade.
Outra melhoria é que ele será disponibilizado para o sistema iOS (dos iPhones) – antes só funcionava nos celulares Android.
“Estamos estudando também junto com a Ufra melhorar a forma de pagamento. Queremos implementar, dentro do próprio aplicativo, opções de pagamento por cartão de crédito, transferência bancária”, afirma o gerente de desenvolvimento da OCB.
O app tem 3 versões: para o produtor, consumidor final e atacadistas.
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Preço justo
Uma outra vantagem de ter um canal direto com o consumidor é eliminar a dependência dos agricultores dos chamados “atravessadores”, que fazem a ponte do campo com o consumidor final.
Isso é comum no campo, pois pequenos produtores têm dificuldades de acessar mercados distantes e acabam vendendo para intermediários, por preços muitas vezes aquém do custo de produção, por medo de perderem a produção.
“A partir do momento que você elimina o atravessador, o agricultor coloca um preço melhor pra ele”, diz Andrade.
Para participar do app, o produtor também não precisa pagar taxa, o que não afeta o seu lucro e barateia o alimento na ponta.
Isso porque a ferramenta é financiada pelo Sistema S, a partir do Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo (Sescoop), e pela Organização das Cooperativas Brasileiras (OCB), que funciona com recursos das contribuições dos seus associados.
“Se um produtor for contratar a criação de um aplicativo no mercado, ele vai pagar em torno de R$ 30 mil, R$ 40 mil”, diz Andrade.
Para usar o app, o produtor precisa estar associado à OCB. “Hoje, 90% das nossas 74 cooperativas são da agricultura familiar”, acrescenta o gerente da OCB.
No Brasil, 70% das propriedades rurais de cooperados são formados por agricultores familiares, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
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Conectividade no campo
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Climate FieldView/Divulgação
A criação de novas tecnologias esbarra, entretanto, em gargalos antigos do campo, como a dificuldade de acesso à internet.
Das 5 milhões propriedades de agricultura familiar de até 100 hectares, 72% não têm acesso a uma conectividade adequada, segundo a Associação Brasileira de Internet (Abranet).
“Alguns agricultores não têm sequer nem um aparelho de telefone e muito menos acesso à internet […] Dos que têm mais estrutura, nós percebemos que o uso de redes sociais cresceu, principalmente nas famílias com filhos mais jovens”, afirma Vânia Marques Pinto, secretaria de Política Agrícola da Confederação Nacional dos Trabalhadores Rurais Agricultores e Agricultoras Familiares (Contag).
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Sobre isso, Andrade, da OCB, conta que a organização está desenvolvendo um trabalho junto ao governo do Pará para levar internet gratuita aos municípios do estado, a partir das cooperativas.
“A ideia é ter um ponto fixo de internet de onde os agricultores consigam estruturar a sua produção”, diz Andrade.
Dificuldade de atender grandes redes
Em Mato Grosso, uma outra iniciativa sonha em conectar agricultores familiares com as grandes redes de varejo do estado.
Ainda em 2019, a Associação da Rede de Cooperativas da Agricultura Familiar e Economia Solidária (RedeCoop) criou o aplicativo RedeCoop com este objetivo, em parceria com a Cooperativa Central de Crédito (Sicredi) e Empresa Mato-grossense de Pesquisa, Assistência e Extensão Rural (Empaer).
O aplicativo RedeCoop já está pronto, mas enfrenta problemas como falta de tecnologia e gestão para produzir em grande escala.
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Para Hudson Saturnino, presidente da Associação, um dos pontos importantes da iniciativa é que Mato Grosso, apesar de ser líder no agronegócio e maior produtor de soja do país, ainda importa boa parte dos alimentos básicos de outros estados.
A ferramenta está pronta, mas enfrenta problemas como falta de tecnologia e gestão para produzir em grande escala.
O desafio de vender para grandes supermercados é justamente conseguir entregar uma grande quantidade de alimentos, de forma periódica, explica a assessora técnica da Comissão Nacional de Empreendedores Familiares Rurais da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Marina Zimmermann.
“A parte de distribuição foi acertada com governo do estado, com a disponibilização de veículos para fazer a logística, mas não temos ainda produção continuada para alcançar as gôndolas dos supermercados”, diz Saturnino.
Para ganharem escala, seria preciso que agricultores juntassem a sua produção, assim como é feito pelas cooperativas, por exemplo.
Um outro gargalo, segundo Saturnino, é que muitos deles não têm tecnologias básicas, como fertirrigação, por exemplo, para poderem produzir melhor.
“Então, vai demandar um tempo ainda para conseguirmos resolver essas questões e ganharmos a confiança das grandes redes”, diz Saturnino, acrescentando que, neste caso, os problemas seriam resolvidos com maior atenção de políticas públicas.
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