De onde vem a tese de Paulo Guedes sobre pobreza e meio-ambiente


Livro de Jack M.Hollander, de 2004, parece ter inspirado a fala do ministro da Economia em Davos. Capa do livro “The Real Environmental Crisis – Why Poverty, Not Affluence, Is the Environment’s Number One Enemy”, de Jack M.Hollander, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley
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Na semana passada, o ministro da Economia Paulo Guedes afirmou, em uma das mesas do Fórum Econômico Mundial em Davos, que a pobreza é o maior inimigo do meio-ambiente. A tese, controversa, não é nova: ela foi lançada em um livro de 2004 do cientista Jack M.Hollander, professor da Universidade da Califórnia em Berkeley: “The Real Environmental Crisis – Why Poverty, Not Affluence, Is the Environment’s Number One Enemy” (University of California Press, 252 pgs. US$ 29). Segundo Hollander, é falaciosa a ideia amplamente disseminada de que o crescimento econômico dos países ricos e industrializados é o principal responsável pela degradação do meio-ambiente e pelo esgotamento dos recursos naturais. Ele tenta demonstrar por A mais B que esses países são justamente os mais preocupados com a sustentabilidade e aqueles que mais investem na proteção da natureza.
Na contramão do ecoativismo contemporâneo e da retórica catastrofista encarnada na adolescente Greta Thunberg, Hollander afirma que o caminho para o problema do meio-ambiente está, justamente, no crescimento das economias mais pobres, bem como na transição desses países para a democracia. A degradação do meio-ambiente não é uma consequência inevitável do crescimento econômico, afirma. Ao contrário, a saída está na erradicação da pobreza, porque é a pobreza que gera poluição descontrolada. E, como outros problemas ligados ao ambiente, a poluição só pode ser controlada e combatida com dinheiro e tecnologia – artigos em falta nos países pobres, onde até respirar e beber água podem não ser atividades seguras.
De forma geralmente convincente, com análises fundamentadas em dados econômicos, demográficos e históricos, o autor examina as principais questões ligadas ao meio-ambiente: crescimento da população; mudanças climáticas; agricultura e produção de alimentos; combustíveis fósseis; qualidade do ar e da água; e fontes alternativas de energia (da solar à nuclear). E demonstra que é o desenvolvimento da economia e da tecnologia, aliado ao combate à pobreza, que permitirá mitigar os efeitos da poluição, da destruição das florestas, da degradação dos oceanos e das crises de desabastecimento – pela simples razão de que, nos países pobres, as pessoas estão mais preocupadas em sobreviver do que em preservar a natureza. Nesses países, as pessoas desmatam para plantar e comer: elas não têm tempo para pensar no ecossistema. É o que acontece na África subsaariana e é também o que acontece na Amazônia. Foi exatamente o que Guedes afirmou em Davos: “Destroem porque estão com fome”.
Paulo Guedes diz que ‘o pior inimigo do meio ambiente é a pobreza’ em Davos
A teoria de que a riqueza é amiga do meio-ambiente até faz sentido, mas está longe de esgotar o assunto, complexo e cheio de nuances ignoradas por Hollander. Ainda assim, parece correta a ideia de que o tempo e a energia que são gastos em acusar os países ricos de destruir o planeta seriam mais bem aproveitados se fossem usados para erradicar a pobreza nos países pobres e em desenvolvimento. Ou seja: o foco deve estar no combate à pobreza, não na defesa do meio-ambiente.
Temas sensíveis como alimentos geneticamente modificados também são tratados com clareza. Mas Jack Hollander parece excessivamente otimista na viabilidade das soluções propostas: uso da tecnologia, combate à pobreza e à corrupção, aumento da liberdade política nos países do Terceiro Mundo. Também parece questionável a tese de que é cedo (ou era cedo, em 2004) para se preocupar com o esgotamento dos combustíveis fósseis, e o autor desdenha a viabilidade de fontes alternativas de energia em larga escala, classificando como alarmistas as previsões sobre o aquecimento global – que, aliás, o tempo vem desmentindo. Hollander reitera a cada capítulo que são os países industrializados e ricos aqueles que adotam programas ambientais mais eficazes, até por pressão da sociedade – que tende a exigir de seus representantes responsabilidade em relação ao meio-ambiente. Ou seja, à medida que as pessoas se tornam mais ricas, elas também se tornam mais preocupadas com a natureza e o impacto de sua destruição na qualidade de vida. Mas programas ambientais favoráveis para a população de um país rico podem ser formulados em detrimento do meio-ambiente de países pobres.
Ainda assim, a leitura de “The Real Environmental Crisis” parece recomendável, no mínimo para contrabalançar as narrativas dos profetas do Apocalipse em questões ambientais, que na verdade mascaram uma visão extremamente elitista do mundo. Segundo essas narrativas, amplificadas por um segmento histérico da mídia e do ativismo profissional, os países pobres não devem prosperar nem progredir, nem sair da miséria, porque seu crescimento agravaria os problemas ambientais do planeta. Fácil dizer isso quando se é uma adolescente privilegiada em um país rico, que já se beneficiou do crescimento e da tecnologia.