Das maravilhas de Teresa Cristina, fez-se o esplendor de uma noite


Cantora reafirma a ideologia musical e política no show apresentado na casa Vivo Rio como ‘Live de aniversário’. Resenha de show – Vivo Rio em casa
Título: Live de aniversário
Artista: Teresa Cristina
Local: Vivo Rio (Rio de Janeiro, RJ)
Data: 27 de fevereiro de 2021
Cotação: * * * *
♪ Teresa Cristina esperou 53 anos para subir ao palco da casa Vivo Rio para apresentar show solo, intitulado Live de aniversário pela ausência de plateia presencial e por festejar a vinda da artista ao mundo em 28 de fevereiro de 1968. A estreia no palco carioca veio no momento mais luminoso da trajetória dessa artista carioca que entrou em cena em 1998, aos 30 anos.
Entronizada em 2020 no posto de rainha das lives, pela promoção de encontros noturnos que aglutinaram estrelas da MPB e público afinado com as lutas por liberdade e justiça social, Teresa Cristina ocupa atualmente outro patamar no escalão da música brasileira.
Contudo, a artista pisou no palco da casa Vivo Rio com a mesma simplicidade, ideologia e repertório de shows anteriores, como se sinalizasse que a vida a fez assim e que, sim, continua fiel a si mesma e às escolhas que tem feito ao longo da carreira fonográfica iniciada em 2002.
Tal fidelidade soou perceptível na saudação política ao povo de santo, nos punhos cerrados com que encerrou o canto do samba-enredo Heróis da liberdade (Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manoel Ferreira, Império Serrano, Carnaval de 1969) – primeiro número de bloco que encadeou sambas das agremiações foliãs do Rio de Janeiro em homenagem aos profissionais do Carnaval – e na maneira com que iniciou a apresentação.
Após apresentar da coxia os seis músicos da banda, a cantora entrou no palco e reproduziu o medley com Gorjear da passarada (Argemiro Patrocínio e Casquinha, 1981) e A vida me fez assim (Argemiro Patrocínio e Teresa Cristina, 2004) perpetuado no álbum e DVD O mundo é meu lugar – Teresa Cristina e Grupo Semente ao vivo (2005).
Na sequência, a artista reacendeu Candeeiro (Teresa Cristina, 2002), samba com o qual, há 19 anos, começou a abrir alas e pedir passagem como compositora entre a nobreza dos bambas.
Na pele de pantera negra, realçada pelo figurino brilhante de Milton Castanheira, Teresa Cristina recusou o posto de diva quando, após saudar Oxóssi em Capitão do Mato (Teresa Cristina, 2010), pediu ao roadie para tirar as sandálias que a incomodavam. “Elegante nem está, mas tô livre”, festejou a artista, com a liberdade de ser quem é.
E, por ser quem é, Teresa Cristina apresentou, ao longo do roteiro da Live de aniversário, quatro músicas inéditas que soaram fiéis à ideologia musical da compositora, valorizando a apresentação.
Em Canto pra Ogum (Teresa Cristina, 2021), a artista saudou o orixá em número em que o gestual de Teresa sublinhou o significado dos versos desse samba de toque africano em que a cantora tanto apontou a lança de Ogum como o próprio progresso como intérprete.
Nostalgia (Teresa Cristina, 2021) ganhou a forma de samba de toque rural, evocativo tanto do universo do calango fluminense quanto da pegada da chula baiana – com direito à letra que versou liricamente sobre o voo do passarinho, símbolo do amor que vai embora.
Parceria de Teresa com Moacyr Luz, bamba do samba carioca, Yabá (2021) afagou a doçura feminina da mulher afro-brasileira. Fechando o lote de inéditas, Dona do ouro (Teresa Cristina, 2021) louvou Oxum no canto resplandecente da artista com a batida do samba afro, gênero recorrente no cancioneiro autoral da compositora. Aliás, pela intimidade com essa linha do samba, a cantora expôs toda a luminosidade de Gema (Caetano Veloso, 1980).
Teresa Cristina canta antigos sambas-enredos em apresentação na casa Vivo Rio
Reprodução / Vídeo
Para os Cristiners que passaram a seguir Teresa no recente reinado das lives, o show foi a oportunidade conhecer momentos de espetáculos anteriores da cantora. O canto a capella de A voz de uma pessoa vitoriosa (Caetano Veloso e Waly Salomão, 1978) reproduziu a abertura do show eternizado no CD ao vivo e DVD Melhor assim (2010), de cujo repertório a cantora também pescou Tudo é ilusão (Aníbal da Silva, Eden Silva e Tufic Lauar, 1944), pérola que conheceu na gravação feita em 1975 por Clara Nunes (1942 – 1983).
Samba de refrão aliciante, Amém (2002) reviveu o início da parceria de Teresa com o compositor Argemiro Patrocínio (1923 – 2003), bamba da velha guarda da Portela. O samba-canção Feitio de oração (Noel Rosa e Vadico, 1933) e o samba Com que roupa? (Noel Rosa, 1929) – este ambientado em sobressalente clima rural – foram boas lembranças do recente show de 2018 em que Teresa deu voz ao cancioneiro do compositor carioca Noel Rosa (1910 – 1937).
Luz da inspiração (Candeia, 1975) e Minhas madrugadas (Candeia e Paulinho da Viola, 1975) reverberaram a devoção da intérprete à obra do engajado Candeia (1935 – 1978), pilar do samba politizado. Alvorada (Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho, 1968) e Corra e olhe o céu (Cartola e Dalmo Castello, 1974) ecoaram o show com músicas de Cartola que, assim como o tributo a Noel, foi feito por Teresa em 2015 somente com o toque virtuoso do violonista Carlinhos Sete Cordas, integrante da banda arregimentada para a Live de aniversário da cantora.
Ao lado de Carlinhos, de máscaras, estavam os músicos Alexandre Caldi (sopros), João Callado (cavaquinho) e os percussionistas Alex Moreira, Paulino Dias e Rodrigo Jesus. Sem jamais jogar nota fora, a banda se mostrou bamba ao executar sambas do alto quilate de Liberdade (Ivone Lara e Delcio Carvalho, 1977).
De novidade, além do bom lote de músicas inéditas, Teresa apresentou o samba maranhense Engenho de flores (Josias Sobrinho, 1978 – antigo, mas novo na voz da artista – e o bloco com sambas-enredos em que sobressaiu, pela surpresa, a beleza melódica e poética de A criação do mundo na tradição nagô (Neguinho da Beija-flor, Gilson Dr. e Mazinho), antológico samba-enredo com o qual a escola Beija-Flor se sagrou campeã no Carnaval carioca de 1978.
Menos surpreendente, por já ter sido revivido por Maria Bethânia no show Dentro do mar tem rio (2006), o samba-enredo Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite (David Corrêa e Jorge Macedo, Portela, Carnaval de 1981) carregou todos os espectadores na onda de Teresa Cristina.
Eram nítido o orgulho e o deleite da intérprete portelense ao mergulhar na beleza desse samba. Por esse e por muitos outros grandes momentos do show, foi impossível não se deixar encantar com tudo da artista na live de aniversário. Das maravilhas de Teresa Cristina, fez-se o esplendor de uma noite.
Teresa Cristina e banda apresentam 30 músicas na ‘Live de aniversário’ da cantora
Reprodução / Vídeo
♪ Eis as 30 músicas do roteiro seguido em 27 de fevereiro de 2021 por Teresa Cristina e banda na apresentação, diretamente do palco da casa Vivo Rio, da Live de aniversário da cantora:
1. Gorjear da passarada (Argemiro Patrocínio e Casquinha, 1981)
2. A vida me fez assim (Argemiro Patrocínio e Teresa Cristina, 2004)
3. Candeeiro (Teresa Cristina, 2002)
4. Canto pra Ogum (Teresa Cristina, 2021)
5. Capitão do mato (Teresa Cristina, 2010)
6. Nem ouro nem prata (Ruy Maurity e José Jorge, 1976)
7. A voz de uma pessoa vitoriosa (Caetano Veloso e Waly Salomão, 1978)
8. Gema (Caetano Veloso, 1980)
9. Engenho das flores (Josias Sobrinho, 1978)
10. Alvorada (Cartola, Carlos Cachaça e Hermínio Bello de Carvalho, 1968)
11. Corra e olhe o céu (Cartola e Dalmo Castello, 1974)
12. Minhas madrugadas (Candeia e Paulinho da Viola, 1965)
13. Luz da inspiração (Candeia, 1975)
14. Amém (Argemiro Patrocínio e Teresa Cristina, 2002)
15. Nostalgia (Teresa Cristina, 2021)
16. Yabá (Moacyr Luz e Teresa Cristina, 2021)
17. Dona do ouro (Teresa Cristina, 2021)
18. Acalanto (Teresa Cristina, 2004)
19. Tudo é ilusão (Aníbal da Silva, Eden Silva e Tufic Lauar, 1944)
20. Feitio de oração (Noel Rosa e Vadico, 1933)
21. Com que roupa? (Noel Rosa, 1929)
22. Liberdade (Ivone Lara e Delcio Carvalho, 1977)
23. Heróis da liberdade (Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manoel Ferreira – Império Serrano, Carnaval de 1969)
24. A criação do mundo na tradição nagô (Neguinho da Beija-flor, Gilson Dr. e Mazinho – Beija-flor de Nilópolis, Carnaval de 1978)
25. O amanhã (João Sérgio – União da Ilha do Governador, Carnaval de 1978)
26. Ziriguidum 2001, um Carnaval nas estrelas (Arsênio, Gibi e Tiãozinho da Mocidade – Mocidade Independente de Padre Miguel, Carnaval de 1985)
27. História pra ninar gente grande (Tomaz Miranda, Deivid Domênico, Luiz Carlos Máximo, Mama, Márcio Bola, Ronie Oliveira, Danilo Firmino e Manu da Cuíca – Mangueira, Carnaval de 2019)
28. Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite (David Corrêa e Jorge Macedo – Portela, Carnaval de 1981)
29. Embala eu (Albaléria, 1979)
30. Marinheiro só (tema tradicional do samba de roda)