‘Cúpula de Líderes sobre o Clima’: entenda o que está em jogo no encontro organizado pelos EUA


Governo de Joe Biden quer sinalizar aos outros países que os EUA vão assumir um compromisso duradouro para reduzir emissões. Saiba como será o encontro de líderes que acontece durante dois dias. Presidente dos EUA, Joe Biden, participa de entrevista coletiva em 25 de fevereiro de 2021
Leah Millis/Reuters
Lideranças de mais de 40 países participam nesta quinta-feira (22) do primeiro dia da Cúpula de Líderes sobre o Clima, organizada pelo governo dos Estados Unidos.
O presidente brasileiro Jair Bolsonaro é um dos convidados a falar sobre o combate às mudanças climáticas na reunião virtual que ocorre na quinta e sexta-feira (23).
ENTENDA: o que é a Cúpula de Líderes sobre o Clima?
Quais países participarão do encontro promovido pelos EUA?
A cúpula faz parte dos esforços da gestão do presidente americano Joe Biden para cumprir promessas de campanha e recuperar a imagem do país após o governo de Donald Trump, que foi desastroso para o clima.
Com o republicano, os EUA deixaram integrar o Acordo de Paris – medida que foi revogada logo no primeiro dia do democrata na Casa Branca.
Abaixo, em 5 pontos, veja os principais temas em debate:
Volta dos EUA nas discussões internacionais sobre o clima
Novas metas na redução de emissões dos EUA até o fim da década
Oportunidade para o Brasil mudar a imagem de sua política ambiental
Preparação para a COP26, que acontece em novembro
Financiamento para projetos de países em desenvolvimento
Na véspera da Cúpula do Clima, políticos e entidades alertam para falhas na política ambiental brasileira
A volta dos EUA
A Cúpula de Líderes sobre o Clima marca a volta dos EUA nas discussões internacionais sobre o clima, interrompidas durante a gestão de Donald Trump com a saída do Acordo de Paris.
Os EUA são responsáveis, hoje, por cerca de 15% das emissões.
Na véspera do primeiro dia, a porta-voz da Casa Branca, Jen Psaki, disse em entrevista coletiva que a cúpula “põe em prática” a mensagem do presidente americano sobre a questão climática.
“A mensagem que ele está mandando é que a crise climática é tão significativa, que em menos de 100 dias de mandato ele está convocando as maiores economias mundiais para discuti-la”, disse Psaki.
Fumaça de incêndios no norte da Califórnia em foto de setembro de 2020
Noah Berger/AP Photo
Redução nas emissões americanas
Especialistas em política norte-americana acreditam que Biden deve anunciar, durante a cúpula, qual será a nova meta de redução na emissão de gases poluentes pelos EUA nos próximos anos.
A expectativa é que Biden prometa cortar pela metade as emissões americanas até o fim de 2030, voltando ao mesmo nível das emissões registrado em 2005.
Os americanos esperam também incentivar outros países a assumir metas audaciosas para o combate às mudanças climáticas em seus próprios territórios (veja mais adiante).
Imagem do Brasil
O Brasil sempre participou ativamente do debate ambiental desde 1992, quando sediou a Conferência da ONU sobre o Meio Ambiente – a ECO-92.
No entanto, desde o início do governo Bolsonaro, o país vem recebendo críticas de outras nações – especialmente, os europeus.
Um acordo entre a União Europeia e o Mercosul encontra impedimentos por conta da postura brasileira sobre o meio ambiente.
Na semana passada, uma carta enviada por Bolsonaro a Biden mostrou uma tentativa de mudança no discurso do governo brasileiro em relação ao tema.
Jair Bolsonaro e Joe Biden
Adriano Machado/Reuters e Carolyn Kaster/AP
No documento, Bolsonaro pediu a “ajuda possível” da comunidade internacional e disse que se compromete a zerar o desmatamento ilegal até 2030 – o mandato atual de Bolsonaro acaba em 2022.
O embaixador Marcos Azambuja, que foi o coordenador brasileiro na ECO-92, disse em entrevista ao Jornal Nacional que não basta o governo tentar mudar o discurso se não apresentar resultados concretos.
“O problema hoje é que nós damos a impressão de que estamos procurando ganhar tempo e um pouquinho enganar os outros”, disse Azambuja.
Entidades, organizações não governamentais, parlamentares e governadores mandaram cartas à Cúpula sobre o Clima criticando Bolsonaro.
Em um documento, parlamentares dizem que o governo tem como inimigos aqueles que atuam pela conservação da Amazônia.
Cúpula do Clima: ambientalistas cobram mudança de postura do governo brasileiro
Os negociadores americanos, aparentemente, pareceram surpresos com a receptividade do Brasil em tratar do assunto do meio ambiente como uma “nova prioridade”, desde que fosse incluída na negociação uma contrapartida financeira pelos serviços florestais do país.
A ideia dos americanos, no entanto, é só colaborar depois que o Brasil agir sozinho, inicialmente, para que outros países colaborem na conservação e nas políticas para diminuir as emissões de gás carbônico.
Preparação para a COP 26
O presidente Biden convidou 40 líderes de países ou blocos de países, todos também farão parte do encontro oficial de novembro, a COP 26, organizada pelas Nações Unidas em Glasgow, na Escócia.
Na soma, todos esses países são os responsáveis pela maior parte das emissões globais – de 75% a 80% do total – carregados pelos EUA, China, Índia e Rússia.
Analistas internacionais apontam que o encontro proposto por Biden será considerado bem-sucedido se houver compromissos explícitos desses quatro países.
A cúpula dos líderes não substitui a COP 26, ela é um evento independente.
O secretário-executivo do Observatório do Clima, Marcio Astrini, disse em entrevista ao G1 que apesar de não fazer parte do calendário oficial da ONU, a Cúpula dos Líderes sobre o Clima não “deixa de ser importante”.
“A COP é realmente o espaço oficial, acordado pelos países, para debater questões climáticas. É onde foi assinado o Acordo de Paris e onde os países submetem os seus compromissos para o clima”, explica Astrini.
Globo terrestre na conferência do clima de Madri, COP 25, em 13 de dezembro de 2019
Paul White/AP
Financiamento para países em desenvolvimento
Os EUA devem insistir que os países precisam reduzir emissões de modo que o aquecimento seja de, no máximo, 1,5ºC. Um dos temas da conversa é a forma de financiar os programas para atingir essa meta.
Para os americanos, é preciso falar sobre mais do que doações de países ricos e incluir também conversas sobre como atrair capital privado, como estruturar programas de seguros e garantias e envolver fundos.
O Brasil tenta conseguir parte deste financiamento internacional e defende que é só com investimento internacional que conseguiria alcançar a meta de eliminar o desmatamento ilegal no Brasil até 2030 – definida durante o Acordo de Paris, em 2015.
“Alcançar essa meta, entretanto, exigirá recursos vultosos e políticas públicas abrangentes, cuja magnitude obriga-nos a querer contar com todo apoio possível, tanto da comunidade internacional, quanto de Governos, do setor privado, da sociedade civil e de todos os que comungam desse nobre objetivo”, escreveu Bolsonaro em carta ao presidente Biden.
Em 2019, em meio a recordes no número de queimadas na Amazônia, a Noruega decidiu suspender o repasse de recursos para o Fundo Amazônia. Mais de R$ 100 milhões seriam usados para proteger a floresta e desenvolver projetos na região.
No mesmo ano, o Ministério do Meio Ambiente da Alemanha decidiu suspender o financiamento de projetos para a proteção da floresta e da biodiversidade, estimados em R$ 155 milhões.