Criador do grupo Bongar, Guitinho da Xambá deixa herança ativista ao morrer aos 38 anos


Eternizada em cinco álbuns, obra do cantor e percussionista pernambucano preserva tradições da comunidade quilombola de Olinda. Guitinho da Xambá morre em hospital de Olinda em decorrência de complicações de AVC
Reprodução / Instagram grupo Bongar
♪ OBITUÁRIO – Na certidão de nascimento, constava o nome de Cleyton José da Silva (11 de agosto de 1982 – 17 de fevereiro de 2021).
Na nação quilombola e no universo musical de Olinda (PE), bastava se referir a Guitinho da Xambá que todo mundo sabia que se tratava do cantor, compositor, percussionista e ativista cultural pernambucano que criara, em 2001, o grupo Bongar, símbolo da resistência afro-brasileira, a ponto de ter gerado um centro cultural aberto em 2016.
Guitinho da Xambá era assim chamado por fazer parte da Nação Xambá, comunidade quilombola situada em Olinda (PE). A nação ficou de luto na tarde da quarta-feira de cinzas com a notícia da morte de Guitinho, aos breves 38 anos, em decorrência de complicações de AVC sofrido pelo artista há uma semana em hospital de Olinda (PE), onde estava internado desde 1º de fevereiro para tratar de doença rara conhecida como síndrome de Cushing.
“Guitinho da Xambá se encantou”, anunciou o grupo Bongar em rede social, confirmando a morte que entristeceu muitos artistas, em especial nomes associados ao universo musical de Pernambuco, como a cantora e percussionista Karina Buhr.
Como integrante e fundador do Bongar, Guitinho da Xambá deixou cinco álbuns, sendo que um, Festa de terreiro (2013), foi registro ao vivo de show editado também em DVD. No primeiro álbum, 29 de junho, lançado em 2006 com título alusivo à data anual da Festa do coco da Xambá, o grupo registrou cantos de terreiros e cocos de roda.
No segundo, Chão batido, coco pisado (2009), o Bongar abordou esses gêneros ancestrais em tom ligeiramente mais contemporâneo, sem jamais se afastar das tradições do Bongar, reiteradas em álbuns posteriores como Samba de gira (2016) – baseado no culto da Jurema, manifestação religiosa afro-indígena recorrente nos terreiros de Pernambuco – e o derradeiro Ogum iê! (2017).
Ao lado dos vocalistas e percussionistas Beto da Xambá (pandeiro, ganzá, gonguê, ilu e voz), Memé da Xambá (congas, ilu, pandeiro, gonguê e voz), Neta da Xambá (abê, pandeiro, gonguê, ilu, alfaia e voz) e Nino da Xambá (alfaia, abê, ilu, pandeiro e voz), e Neta da Xambá (abê, pandeiro, gonguê, ilu, alfaia e voz), o ativista Guitinho da Xambá fez do Bongar um polo de resistência cultural e política, inclusive por entender que a música também pode ser posta a serviço da transformação social na desigual nação brasileira.