Counting Crows e os segredos de ‘Mr. Jones’: bebedeira e transtorno mental estão no DNA do hit


‘Talvez nós teríamos sido uma banda enorme como os Stones se não tivesse estragado um monte de coisas’, diz cantor ao g1. Série ‘Quando eu hitei’ entrevista artistas que sumiram. Quando eu hitei: Counting Crows e os segredos por trás de Mr. Jones
Quando se fala do Counting Crows, uma imagem e um som já vêm na cabeça. Esse cara do vídeo acima balançando o dread ao som de “Mr. Jones”. O clássico do pop rock tocou demais nos anos 90 e toca até hoje em rádios brasileiras.
Mas poucos sabem das histórias desse hit (leia mais abaixo) e dos causos de Adam Duritz, o tal cara de dreads. O cantor de 57 anos tem um transtorno mental que o faz se esquecer de como se toca piano, quando ele fica um tempo longe do instrumento.
Na série semanal “Quando eu hitei”, artistas do pop relembram como foi o auge e contam como estão agora. São nomes que você talvez não se lembre, mas quando ouve a música pensa “aaaah, isso tocou muito”. Leia mais textos da série e veja vídeos ao final desta reportagem.
Adam Duritz, líder da banda americana Counting Crows
Divulgação
Esse transtorno, claro, afeta o jeito que ele cria música. Afetava nos anos 90 e afeta agora, quando ele foi compor as músicas de “Butter Miracle”, o oitavo álbum de estúdio do Counting Crows, lançado no primeiro semestre de 2021.
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“The Tall Grass” foi a primeira música escrita por ele depois de não tocar piano por muito tempo. Ela começa muito, muito simples musicalmente.
“Provavelmente, porque é tudo que eu conseguia tocar, sabe?”, explica o cantor ao g1 (veja entrevista no vídeo acima). “Só alguns dias depois, pude escrever ‘Elevator Boots’, muito mais complicada.”
“Eu acho que sou eu me abrindo e podendo tocar algo um pouco mais complicado. Não sei se isso me afeta, exceto que provavelmente me segura um pouco, porque às vezes fico frustrado quando tento me sentar para escrever e não consigo tocar muito bem.”
Adeus, dreads
Adam Duritz, do Couting Crows, no começo dos anos 90 e em foto recente
Reprodução/Facebook do cantor
O jeito de compor músicas não mudou, mas o visual, quanta diferença. Ao ouvir que muitos fãs brasileiros iriam ficar surpresos quando assistissem ao vídeo do papo, Duritz deu risada. Ele contou por que mudou o visual.
Assim que chegou na casa de um amigo que estava morando, em 2019, ele foi tomar um banho, para ver se o jet-lag passava. A namorada já estava dormindo quando ele entrou no banheiro.
“Olhei para o lado e vi a máquina de barbear na bolsa e acabei raspando minha cabeça. Foi tipo uma extravagância, mas estava pensando nisso há um tempo. Sendo honesto, me senti muito bem. Foi ótimo tomar um banho, lavar o cabelo e não esperar oito horas para secar.”
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Adam Duritz em show do Counting Crows
Divulgação/Facebook da banda/Jason Kempin
Hoje, quando canta “Mr. Jones” em shows, os dreads não sacodem mais. Mas a história do começo dos anos 90 segue fazendo sentido.
“O que me deixa mais orgulhoso é que não é apenas uma música sobre sonhar em ser uma estrela do rock”, explica ele. “Também se trata de perceber que isso não vai consertar toda a sua vida e eu não sei como sabia disso antes de experimentar, mas eu sabia.”
“Talvez nós teríamos sido uma banda enorme como os Stones, se eu não tivesse estragado um monte de coisas. Mas até mesmo estar aqui é tão raro. 30 anos depois, acho que tomei muitas decisões certas.”
Mas quem é Mr. Jones?
David Jones Serva, violonista flamenco é o ‘Mr. Jones’ da música do Counting Crows
Reprodução/YouTube do músico
Mr. Jones é o pai de Marty Jones, baixista original do Counting Crows que tocou com o Adam em outras bandas. David Jones Serva tinha se mudado para Espanha, após se separar da esposa.
“Ele virou talvez o único americano que um dia já foi bem-sucedido tocando flamenco em Madri, tipo bem-sucedido de verdade.”
Quando voltou para fazer shows de flamenco em San Francisco, Mr. Jones já era Mr. Serva. “Fomos vê-los e foi incrível. Saímos naquela noite com os rapazes e as mulheres da trupe flamenca. Ficamos muito bêbados.”
Counting Crows no começo dos anos 90, com Adam Duritz (centro, de chapéu)
Divulgação
Após o show, Adam e seus parças foram parar no bar New Amsterdam, citado na letra da música. “Lá estava o Kenney Dale Johnson, baterista da banda do Chris Isaak naquela época. Eles eram a banda mais falada em San Francisco, antes de fazerem sucesso. Eles eram bons demais.”
Chris Isaak ficou famoso com um rock n’ roll romântico de baladas como “Wicked Game”, no fim dos anos 80 e começo dos 90.
“Ele vivia cercado por pelo menos três mulheres no canto dele e a gente mal conseguia falar com garotas”, lembra Duritz, falando do baterista, que não era exatamente um galã como Isaak (veja no vídeo do topo).
O clipe de ‘Mr Jones’ do Counting Crows
Reprodução
“E eu me lembro dizendo para o Marty: ‘Cara, a gente tem que virar rockstars ou algo assim, olha para isso… a gente pode conhecer garotas, sabe?’ E eu fui para casa naquela noite pensando como aquilo era engraçado e eu escrevi a música.”
“A gente pensava que seria um hit? Honestamente, não. A gravadora também não. Ninguém pensava. Todo mundo pensava que ‘Rain King’ seria o hit.”
A preguiça de ‘Mr. Jones’
Counting Crows com Adam Duritz (centro)
Divulgação
Com o status de megahit, veio também certa preguiça. “Tivemos shows em que não tocamos ‘Mr. Jones’, mas eu não queria tocar naquela noite e não sei se é uma boa ideia tocar alguma coisa se você não quer tocar”, justifica-se.
Hoje, ele parece ter feito as pazes com a música inspirada na noitada com Sr. Jones. “Eu me lembro de ficar pensando, há muito tempo, quão incrível era para alguém como Paul McCartney escrever talvez 60 ou 70 músicas que se eu disser o nome, você vai cantarolar para mim”, comenta Duritz.
“Eu tenho algumas músicas assim, sabe? Não são muitas, mas tenho ‘Mr. Jones’, ‘A Long December’, as pessoas podem cantarolar essas e já faz muito tempo.”
Adam Duritz, do Couting Crows
Divulgação/Facebook da banda
O Counting Crows tem outras canções conhecidas como “Accidentally in Love”, trilha de “Shrek 2”, de 2004. Tem também muitas outras histórias.
Uma delas tem a ver com o lado galã do cantor. No meio dos anos 90, Duritz namorou duas atrizes de “Friends”, no auge da série. Além de Jennifer Aniston e Courtney Cox, teve casinhos com mais famosas, como Winona Ryder.
Agora, ele tem a primeira relação mais séria na vida dele, e não é com uma estrela. A vida pessoal sossegada mudou um pouco a vida artística dele:
“Mudou a minha perspectiva. A música sempre foi mais importante do que qualquer outra coisa na minha vida. Na real, nada importava muito para mim a não ser fazer música. E uma coisa sobre estar em um relacionamento por tanto tempo é que isso se tornou mais importante e eu não acho que senti a necessidade de ser como um viciado, de precisar criar como antes.”
Bem além de ‘Mr. Jones’
A banda americana Counting Crows
Divulgação
Ao explicar a conflituosa relação com “Mr. Jones”, Adam elegeu (sem pensar muito) a canção preferida do Counting Crows:
“Eu me sinto diferente com ‘A Long December’. Foi uma coisa estranha, quando eu escrevi: ‘Ok, essa música é perfeita’. Nunca fico entediado com ela e soube quando a escrevi que ela era atemporal, uma joia. Tinha algo cristalino e perfeito nela. Como um artesanato.”
Para ele, “Round Here” foi a música que fez a banda mudar de patamar. “Ela realmente fez nossa carreira, porque ‘Mr. Jones’ foi um sucesso no rádio e o álbum não estava nem no top 200. Mas ‘Round Here’, nós tocamos no ‘Saturday Night Live’ e nossa carreira decolou”, diz, lembrando da apresentação no programa humorístico americano, em 1994.
Em 2021, eles seguem na ativa, embora ainda sem shows no Brasil. “Deus, já se passaram 30 anos e ainda estamos aqui. Temos uma música de sucesso no rádio. Não estamos fazendo shows de ‘Greatest Hits’. Nós somos uma banda na ativa, 30 anos depois.”
VÍDEOS: Quando eu hitei
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