‘Contra o feminismo branco’: entenda por que escritora diz que é preciso ‘extirpar branquitude’ do movimento feminista


Com livro recém-lançado no Brasil, Rafia Zakaria fala ao g1 sobre querer retirar supremacia branca das ideias feministas, que apagam conquistas de mulheres de outras etnias. Rafia Zakaria, autora de ‘Contra o Feminismo Branco’, lançado no fim de outubro pela Intrínseca no Brasil
Jeremy Hogan/Divulgação/Intrínseca
A escritora americana Rafia Zakaria não está interessada em “segurar a mão” de mulheres brancas em seu novo livro, “Contra o Feminismo Branco”, lançado no fim de outubro no Brasil.
Ao menos não daquelas que chama de “feministas brancas” – mulheres, em sua maioria brancas, que se recusam a “considerar o papel que a branquitude e o privilégio racial” desempenharam e desempenham a favor delas no feminismo.
Zakaria é escritora, advogada e ativista dos direitos humanos. Ela nasceu no Paquistão, emigrou aos 17 anos para os Estados Unidos após um casamento arranjado, e condena não uma cor de pele, mas o que chama de “supremacia branca” em movimentos feministas.
“Como menciono no início do livro, quando estou falando sobre feminismo branco, não me refiro a uma pessoa branca que é feminista. Em vez disso, quero dizer muito especificamente alguém que está investido em manter o privilégio racial branco”, esclarece, logo no início da conversa com o g1.
Ao mesmo tempo em que reconhece que as “feministas brancas” podem ter qualquer cor de pele, a autora afirma que a branquitude por si só “está na essência do feminismo branco”.
Essa branquitude, segundo Zakaria, define quais são as pautas, prioridades e preocupações dos movimentos feministas. Mesmo levando em conta que a maioria das mulheres do mundo não seja branca.
“O movimento feminista como o temos agora é um movimento que tem a supremacia branca construída sistematicamente, de modo que prioriza as agendas das mulheres brancas, suas prioridades políticas, sua visão de como é o feminismo.”
Capa de ‘Contra o Feminismo Branco’, de Rafia Zakaria
Reprodução/Intrínseca
“No livro, quando estou falando sobre feminismo branco, estou falando sobre tentar extirpar a supremacia branca do movimento feminista. A maioria das mulheres do mundo são marrons [entenda melhor logo abaixo], negras e asiáticas. Elas não são brancas. E, para um feminismo ser relevante para elas, temos que separar a branquitude do empoderamento das mulheres. Esse é o objetivo do livro.”
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Em oito capítulos distribuídos em 304 páginas de leitura fluida, mas provocativa, Zakaria consegue:
discutir como mulheres brancas apagaram, historicamente, o protagonismo de mulheres de outras etnias em questões importantes para o feminismo;
debater se devemos continuar lendo “heroínas feministas” como Simone de Beauvoir e Gloria Steinem;
explicar como mulheres brancas compactuaram com as invasões americanas no Oriente Médio e outros temas.
Uma chave essencial para entender a obra é a tradução: os termos “women of color”, ou “people of color” – “mulheres de cor” ou pessoas de cor”, respectivamente – são usados nos Estados Unidos para descrever de forma abrangente pessoas que não são brancas, de maneira que o ser branco “não seja o elemento central”, explicam as tradutoras Solaine Chioro e Thaís Britto.
Por isso, o termo “de cor” é mantido no livro, assim como “marrom” – usado para descrever pessoas de pele escura, mas que não são negras, como as do Oriente Médio (incluindo o próprio Paquistão), do sudeste asiático ou, até mesmo, da América Latina.
Leia, abaixo, os principais pontos da entrevista com Zakaria – incluindo a resistência inicial de seu então agente ao livro, as objeções ao título, as críticas que recebeu depois de sua publicação e mais. (As respostas foram reorganizadas e editadas para manter coesão e clareza, sem alteração de conteúdo):
g1 – Alguém te aconselhou – seus editores ou outras pessoas – a não intitular o livro de ‘Contra o Feminismo Branco’, temendo que isso afastasse os leitores?
Rafia Zakaria – Sim. Muitas pessoas. Meu editor – meu editor americano. Meu editor britânico amou o título. Mas meu editor americano tentou dizer, ‘talvez possamos ter ‘Além do Feminismo Branco’?’ Mas eu disse ‘olha, estou escrevendo um livro muito direto e ousado porque estou farta. Então eu disse não. Eu sei que é um título muito provocativo e talvez até agressivo.
“Sim, pode haver mulheres brancas que fiquem tão ofendidas que não abrirão o livro por causa do título – mas esse não é meu público-alvo, de qualquer maneira. Eu não estava interessada em segurar as mãos das mulheres brancas e absolvê-las de sua culpa – que elas deveriam ter, basicamente.”
Meu público-alvo para este livro foi, antes de mais nada, negras, pardas e asiáticas, mulheres de cor, feministas – para finalmente terem algo que diga a todas elas que [o feminismo branco] não está apenas em suas cabeças. Que elas não estão imaginando. É real.
E o outro público foi, eu diria, que mulheres brancas mais jovens, que são abertas e querem tentar entender por que nos últimos 20, 30 anos não fizemos nenhum progresso.
g1 – Você teve algum tipo de resistência – as pessoas te chamando de ‘racista reversa’ ou algo do tipo?
Rafia Zakaria: – Inicialmente, quando escrevi a proposta deste livro, mandei para o meu então agente, que é um cara branco – um cara branco legal… eu achava. E ele ficou com muita raiva da proposta deste livro.
Escritores enviam coisas para agentes o tempo todo. E os agentes, às vezes eles adoram, às vezes não ligam muito, fazem comentários e deixam você decidir o que quer fazer, mas, com isso, foi muito, muito estranho. Ele teve uma reação tão forte, emocional. E disse ‘este livro nunca será publicado, nenhuma editora vai comprá-lo, ninguém vai investir nele’.
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Obviamente, quando você ouve tudo isso, fica, ok, talvez isso tenha sido apenas uma ideia maluca que eu tive. Mas eu tenho amigos muito bons, e eles meio que me diziam para fazer isso, e, no final das contas, eu consegui uma nova agente – que é negra – e não tive que explicar tudo. Ela entendeu. Foi assim que este livro nasceu.
[Depois da publicação do livro], desde o início, os tipos de reações mais venenosas foram de mulheres britânicas mais velhas, brancas. Houve uma semana em que houve três editoriais – um no The Guardian, um no The Times e o outro foi em algum outro jornal britânico – denunciando este livro e dizendo que eu estava do lado dos homens, que eu queria destruir o feminismo, que ‘os homens ganham quando você escreve livros como este’. E isso foi difícil.
Na primeira vez, fiquei chateada [com as críticas]. Mas, então, quando acontece uma terceira ou quarta vez, você começa a pensar, ‘eu fiz a coisa certa’. Porque elas podem escrever quantos artigos de opinião quiserem, e eu não vou me preocupar com isso. Levei algumas semanas para perceber isso.
E o livro teve muitos apoiadores também, não vou mentir. Definitivamente, existem pessoas brancas que percebem que isso é um problema. E não vamos superar até que falemos sobre isso. E essa é uma conversa desconfortável, sem dúvida – é desconfortável para os brancos, mas todo mundo se sente desconfortável assim o tempo todo na presença deles. Então, talvez eles devam se sentir um pouco desconfortáveis.
g1 – Por que você acha que tantos brancos têm dificuldade em reconhecer seus próprios privilégios?
Rafia Zakaria – Sabe, pensei muito sobre isso nos últimos meses. Eu acho que – em particular as mulheres brancas, porque é disso que estou falando – estão acostumadas a se ver como vítimas dos homens brancos. Portanto, há aquele elemento de que elas nunca se viram como agressoras ou opressoras. Elas sempre se viram como pessoas que estão lutando na linha de frente.
A segunda razão é que ninguém quer ouvir que seus sucessos não foram conquistados inteiramente de forma justa. Se há uma mulher que se tornou CEO e ela é uma mulher branca, sua autoimagem é ‘eu quebrei todas essas barreiras, joguei tão bem, progredi muito, sou uma pioneira’.
E, dentro disso, você está dizendo ‘bem, você sabe, talvez parte do seu sucesso não seja baseado nas suas conquistas; é também baseado na sua branquitude, que te concede privilégios, de uma forma que mulheres marrons, negras ou asiáticas, refugiadas, seja o que for, não têm. E há uma razão pela qual eles não estão onde você está’.
Então eu acho que – especialmente mulheres que compraram o modelo individualista e capitalista de sucesso – para elas é muito difícil dizer ‘eu preciso me examinar e como posso estar oprimindo ou tirando algo de mulheres de cor, que foram marginalizadas porque não são brancas’.
g1 – Você questiona, no livro, se é possível remover aspectos racistas das obras de ‘heroínas feministas’ brancas como Simone de Beauvoir e Gloria Steinem e continuar a considerar o resto. Nós ainda devemos lê-las ou excluí-las completamente?
Rafia Zakaria – Meu palpite é que, uma vez que alguns desses aspectos de suas vidas sejam revelados, elas simplesmente não vão parecer tão heroicas.
Quando você pensa sobre isso, parece uma coisa absurda de se acreditar, mas as pessoas acreditaram que Simone de Beauvoir pode ter vivido nos anos 40 – nessa época horrível de nazismo e supremacia branca –, mas ela não foi afetada por ela de forma alguma; o que é tão ridículo. Claro que ela vai ser afetada por isso. E o fato de que ela foi capaz de passar pela guerra sem problemas baseia-se, em parte, em que ela em algum nível simpatizava com esses pontos de vista – não em termos de extermínio de judeus, mas em termos de pensar nos negros como algo inteiramente separado; ou no meu povo como os orientais preguiçosos que escravizam os outros.
Simone de Beauvoir
Reprodução/Wikimedia Commons
Agora, é tudo um grande segredo. É uma grande notícia que essas pessoas eram racistas. O insidioso e intencional é esconder que seu racismo foi intencional. Há um esforço muito organizado para apresentar a história dos brancos como moralmente superior. O que estou tentando desfazer é, depois de contar todas as histórias dessas pessoas, você verá que não havia nenhuma superioridade moral. Elas são inteiramente pessoas de seu tempo e tinham crenças que eram extremamente racistas e, no caso dos homens, misóginas.
Mas eu gosto de Simone de Beauvoir também porque ela ilustra para mim uma coisa muito específica: o que ela tenta fazer dentro da filosofia é criar a ideia ou o sujeito de ser mulher, já que está tentando trazer as mulheres para o reino da filosofia. Então, você pode ver como até mesmo uma mulher com o poder dela acredita que é uma vítima– e por que ela nunca consideraria o fato de estar vitimando outras pessoas: porque ela sente que está ganhando essa grande batalha.
g1 – É possível consertar a supremacia branca dentro do feminismo? Como fazemos isso?
Rafia Zakaria – Eu acho que é possível. Eu conheço muitas mulheres pardas, negras e asiáticas que desistiram e simplesmente não veem nada para ressuscitar. Acho que se formos capazes de superar essa barreira de falar sobre raça e sermos intencionais sobre a adoção de procedimentos e dinâmicas que elevem as mulheres que foram deixadas de fora, acho que isso pode ser extirpado. E eu sinto uma urgência muito forte para que seja extirpado, porque, honestamente, eu sinto que as estruturas políticas do mundo nos próximos anos serão todas abaladas. Portanto, é um momento em que você poderia ter algo melhor. Quer dizer, é claro que poderíamos falhar e nada acontecer, mas, nesse caso, acho que o feminismo estará acabado de vez.
O projeto deste livro é dizer às mulheres brancas que o resto do mundo não está se divertindo tanto quanto elas. Se formos capazes de fazer isso – ter uma discussão, um empurrão – acho que podemos ressuscitar o feminismo.
Espero que essa compreensão de que precisamos disso motive mulheres suficientes para ter essas conversas difíceis – para levar este livro para o trabalho, ou para entregá-lo a seus chefes, ou deixá-lo em cima da mesa, para que possam iniciar conversas que foram evitadas por muito tempo.
Estou muito animada que este livro está encontrando leitores no Brasil. É algo realmente maravilhoso que eu nunca esperei que acontecesse. Eu já estive no Brasil – na verdade, a primeira proposta de livro que fiz, para o meu primeiro livro, em 2015, foi em São Paulo. Espero que você possa transmitir isso aos leitores – como estou entusiasmada e grata.