Conheça Antônio, trabalhador rural de 32 anos que foi alfabetizado durante a pandemia, no DF


Um ano atrás, ele precisava pedir aos outros que lessem mensagens de texto que chegavam no celular. Mesmo aparelho foi usado nas videoaulas que permitiram ao cearense, que vive em Brasília, deixar de ter ‘vergonha de não saber’. Antonio Alexandre dos Santos Souza, de 32 anos, foi alfabetizado durante a pandemia
Álvaro Henrique / Secretaria de Educação do DF
Aos 32 anos, Antônio Alexandre dos Santos Souza carrega nas mãos os calos da lida diária na roça, e um celular, que comprou com dificuldade. Mas, até um ano atrás, ele não conseguia ler as mensagens que chegavam por meio do aparelho (assista abaixo).
Quem quisesse se comunicar com Antônio, tinha que mandar áudio, ou ligar. O motivo? O cearense, que em 2010 veio morar na capital do país, era analfabeto.
“Meu nome completo eu sabia escrever porque tinha decorado na cabeça. Mas é muito ruim a gente querer ler, ver algum nome e não saber o que tá vendo”, diz o agricultor.
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Não saber ler e escrever era motivo de vergonha e tristeza para Antônio. “Já cheguei no ponto do pessoal mandar mensagem no celular e eu ficar tipo, perdido”. Para driblar a situação, Antônio conta que recorria a alguém próximo para saber o que estava escrito.
“Quando eu tinha alguém perto de mim, eu mandava os outros ‘olhar (sic)’, então quando não tinha eu não tinha como responder”, conta Antônio.
Ao G1, o pequeno agricultor que mora na região de Planaltina, no Distrito Federal, disse que não tinha “coragem” de ligar de volta, ou gravar áudio, para dizer que era analfabeto. “Eu tinha vergonha, né? De dizer que não sabia.”
O mesmo celular acabou sendo a ponte para a alfabetização de Antônio. Com o apoio de duas professoras da rede pública, mesmo com a pandemia do novo coronavírus, o homem tímido abre um sorriso para contar que já reconhece as letras, escreve algumas palavras e lê frases curtas.
Do Ceará para Brasília
Natural de Campos Sales, município do Ceará com pouco mais de 27 mil habitantes, Antônio viveu a infância na roça com outros nove irmãos, sem frequentar a escola. Eles tinham que garantir o sustento da família.
“O tempo era pouco pra ir pra escola. Tinha que trabalhar. Quando criança, a gente nunca se interessou por estudar. O que acontece é que depois a gente vai ver o tanto que é ruim, né?”, diz o agricultor.
Antônio Alexandre dos Santos Souza, de 32 anos, alfabetizado durante a pandemia no DF
Arquivo pessoal
Há 11 anos, ele se mudou para Brasília, “em busca de uma vida melhor”. Na capital federal, a esposa dele, Jaine, de 22 anos, decidiu voltar a estudar. Ela se matriculou em um curso de Educação de Jovens e Adultos (EJA), no Centro Educacional Taquara, colégio rural de Planaltina.
“Ela ia pra parada de ônibus e sempre dizia pra mim: vamos estudar? Aí, um dia, eu resolvi estudar também”, lembra Antônio.
Matrícula e pandemia
A decisão de se matricular na escola foi em abril de 2019. Mas, havia um problema: a turma de EJA estava mais avançada, todos sabiam ler e escrever.
“Eu não esqueço. Quando ele percebeu que não poderia ser inserido na turma porque não sabia ler e escrever, ele, de cabeça baixa mesmo, a lágrima desceu. Aquilo me emocionou bastante”, conta a supervisora da escola, Marlúcia Trindade.
A realidade de Antônio comoveu os educadores, e duas professoras se comprometeram em ajudá-lo – mesmo sem ter especialização em alfabetização. Ana Patrícia Passos, que dava aulas de geografia, e Lilian Martins, professora de matemática, fizeram cursos de alfabetização e letramento para acolher o novo aluno.
Antônio Alexandre, de 32 anos, e a professora Ana Patrícia uma das primeiras atividades durante a pandemia, no DF
Arquivo pessoal
Mas, em 2020, quando a escola estava preparada para receber Antônio, veio a pandemia da Covid-19, e as aulas presenciais tiveram que ser interrompidas. No entanto, a força de vontade de Antônio – e das educadoras – foi maior do que as dificuldades. Ele passou a pegar os exercícios impressos na escola e ter a ter aulas por videochamada.
“Fiquei meio descrente no começo, eu não sabia nada. Mas fui me adaptando, não pensei em nenhum momento em desistir”, conta Antônio.
O desafio da escola para ensinar Antônio a ler e a escrever, a distância, também era enorme. As professoras Ana Patrícia e Lilian tiveram que se unir para pensar um trabalho individualizado – as videoaulas para o novo aluno seriam só com elas.
Antônio Alexandre dos Santos Souza, de 32 anos, sendo alfabetizado por videoaula durante a pandemia, no DF
Arquivo pessoal
“Percebi que ele se esforçava muito. A esposa e a filha dele sempre o ajudaram muito também. As vezes, na aula, eu perguntava pro Antônio: Cadê a Maria Eduarda? Chama ela aí! E a menina, filha dele, aparecia na chamada de vídeo do Whatsapp pra ajudar o pai nas atividades”, conta a professora Ana Patrícia.
Maria Eduarda tem 8 anos, está no 2º ano do Ensino Fundamental, e já sabe ler e escrever. Os pais fazem questão de garantir os estudos da menina que sonha em ser professora.
“Eu fico muito feliz porque é uma profissão muito bonita, que ajuda os outros. Quando tenho um tempinho, eu fico acompanhando ela a fazer as tarefinhas dela.”, diz Antônio.
Antonio Alexandre dos Santos Souza, de 32 anos, ao lado da esposa e da filha Maria Eduardo, de 8 anos
Álvaro Henrique / Secretaria de Educação do DF
Depois de pouco mais de um ano tendo aulas em casa, Antônio é só alegria. “Eu não sabia de nada, nada. Hoje me sinto mais animado. Já sei ler e escrever umas palavrinhas fáceis (…) mas, no começo, pra mim, era muito difícil”, diz.
A professora Lilian Martins, que dá aulas de matemática, afirma a vontade de aprender de Antônio tem feito toda diferença. “Ele tem um raciocínio excelente e tem facilidade muito grande com exatas”.
VÍDEO: Antônio aprendeu a ler com aulas a distância, por causa da pandemia
Além de “começar do zero”, o trabalhador rural teve que vencer a timidez, o cansaço – trabalhava durante todo o dia e tinha aulas no período da noite – e a dificuldade de conseguir conexão de internet para as videochamadas.
“Eu digo que é um aluno muito esforçado, dedicado, comprometido, participativo, assíduo, alegre e com muita vontade de aprender. Estamos muito orgulhosas com o sucesso dele e nos emocionamos muito com isso”, diz Lilian.
A escola
Centro Educacional Taquara, em Planaltina, no DF
Eduardo Paiva / TV Globo
O Centro Educacional Taquara atende é uma escola da rede pública do Distrito Federal que atende 130 alunos de Educação de Jovens e Adultos (EJA), no período noturno. A modalidade existe desde 2017 na região.
“A maioria dos alunos da noite é formada por pais dos alunos do diurno. São exemplo de superação e nosso trabalho é feito voltado para a realidade da vida de cada um deles”, diz o diretor Volemar Ornelas.
Quando veio a pandemia, toda estrutura e conhecimento adquiridos pelos professores teve que se adaptar às aulas online. “Ficou mais complicado ainda, mas nós tivemos uma grata surpresa com o Antônio, que ele conseguiu adquirir um aparelho celular e as professoras começaram a dar aulas pra ele por vídeo chamadas”, conta Ornelas.
Em todo o Distrito Federal, cerca de dois mil alunos de EJA se cadastraram no início do ano passado para as a retomar os estudos. Mas em janeiro deste ano, apenas 117 haviam concluído o processo.
Durante a pandemia, muitos acabaram desistindo das aulas online. Na turma do Antônio, de oito alunos, apenas ele e um outro colega tiveram aulas remotas.
Os demais, usaram apenas o material impresso, entregue pela escola. “Muitas vezes por causa da falta de aparelho adequado para fazer as atividades ou por falta de sinal de internet”, diz o diretor.
Analfabetismo no DF
Analfabetismo no DF
Eduardo Paiva / TV Globo
Segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Continua Anual – Educação 2019 (PNADC) divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatistica (IBGE) em julho do ano passado, havia 11 milhões de analfabetos em todo o Brasil.
A população do DF possui a maior média de anos de estudo. Os índices de analfabetismo se concentram na faixa etária de 60 anos ou mais.
DF mantém maior índice nacional de pessoas com nível superior
Até 2019, 66 mil pessoas de 15 anos ou mais eram analfabetas na capital federal, uma taxa de analfabetismo de 2,7%, bem abaixo da taxa registrada no Brasil (6,6%). Em comparação com as demais Unidades da Federação, o DF apresentou a quinta menor taxa de analfabetismo, atrás do Rio de Janeiro (2,1%), de Santa Catarina (2,3%), São Paulo (2,6%) e Rio Grande do Sul (2,6%). As piores taxas ficaram com Alagoas (17,1%), Paraíba (16,1%) e Piauí (16%).
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