Como Manuela Dias conseguiu vencer ‘corrida de obstáculos’ para dar desfecho a ‘Amor de mãe’


Novela volta nesta segunda (1º). Autora explica como Covid aparecerá na trama e conta que escreveu mais de 5 mil páginas de capítulos – alguns deles não irão para o ar. 5 fatos sobre a fase final de ‘Amor de Mãe’
A autora Manuela Dias já sabia que a barra ia ser pesada quando assumiu o comando de “Amor de mãe”, sua primeira novela, já no disputado horário das 21h. Mas nada comparado ao que veio depois.
Em março de 2020, quatro meses após a estreia, uma crise sanitária sem precedentes interrompeu a trama, que finalmente reestreia nesta segunda-feira (1º), com um resumo de duas semanas sobre o que se passou com os personagens. A partir do dia 15, vão ao ar os 24 capítulos finais inéditos.
“Imagina essa situação: era minha primeira novela, era uma novela das 21h. E aí, pandemia. Me senti numa corrida de obstáculos: agora com uma perna só, agora de cabeça pra baixo…”, brinca.
Manuela demonstra ter enfrentado as barreiras com leveza, sem se sentir castigada pelo destino. “Nunca me coloquei nesse lugar de azarada.”
Manuela Dias, autora de ‘Amor de mãe’
Divulgação/TV Globo
A autora de 43 anos é considerada um dos jovens nomes mais promissores da TV, por trabalhos como as séries “Ligações perigosas” e “Justiça”, ambas da Globo.
Na entrevista abaixo ao G1, ela fala, entre outros assuntos, sobre os protocolos de segurança, que tornaram possíveis as gravações de “Amor de mãe” em meio à pandemia, mas que também mudaram aspectos da trama.
Sem figurantes e com atores isolados em “bolhas”, a novela precisou incorporar o coronavírus em sua fase final. Mas Manuela avisa: essa não é uma história sobre a Covid.
Regina Casé é Lurdes em ‘Amor de Mãe.
Victor Pollak/Globo
G1 – Como a pandemia foi inserida na trama de “Amor de mãe”?
Manuela Dias – A novela parou e eu fiz um salto de seis meses dentro da história. A gente tinha parado em março, voltou em setembro. Em vez de dizer seis meses depois, coloquei a indicação do número de mortos [pela Covid] naquele momento em que a narrativa é retomada. Naquele momento eram 9 mil mortos, o que é muito.
A gente vai ver a Lurdes [personagem de Regina Casé] lavando as compras, vai ver as pessoas de máscara. Vamos ver os personagens se virando nessas situações. Todo mundo conhecemos sem pandemia, vamos ver com pandemia.
“Mas a novela não é sobre a pandemia, assim como as nossas vidas não passaram a ser sobre a pandemia.”
As pessoas tem suas questões, suas relações, seus sonhos, que foram interrompidos ou até potencializados pela pandemia. A novela é isso, é sobre a Lurdes [personagem de Regina Casé] procurando o filho dela, apesar da pandemia; a Camila (Jéssica Ellen) realizando u, projeto de educação, apesar da pandemia; a Thelma [Adriana Esteves] fazendo de tudo para manter a Lurdes afastada do filho. Não é uma novela sobre a Covid.
A Covid entra de uma forma super realista, até porque mantê-la fora da novela mudaria o gênero. É uma novela naturalista, realista, quase documental. Por um momento, eu pensei em não colocar a doença, até porque a gente ia parar só por 15 dias.
G1 – Como mudou de ideia?
Manuela Dias – [Durante a quarentena], eu não parei de escrever um único dia. Na minha situação, eu não podia parar de escrever porque, a qualquer momento, os estúdios podiam reabrir e a gente teria que voltar a gravar. A minha parte tinha que estar disponível para que todos os outros departamentos pudessem se organizar.
Quando a gente parou, eu pensei em não inserir uma coisa que poderia ser curta. Eu amo os meus personagens. Se eu pudesse fazer com que eles não passassem pela Covid, seria maravilhoso.
Queria muito que a novela tivesse um fim. Uma história que não tem fim é uma história que nunca aconteceu. Um produto perdido. Como a gente ia vender essa novela para o exterior? Ir ao ar é só o começo da vida do produto. Ela não iria nunca para o Globoplay, para o “Vale a pena ver de novo”. A novela ia ser abortada. Mas nossa preocupação eram as pessoas.
Adriana Esteves e Chay Suede em cena de ‘Amor de mãe’, antes da novela ser interrompida pela pandemia do novo coronavírus
Globo/Estevam Avellar
Quando saiu o protocolo sanitário, ficou muito claro, por exemplo, que a gente não poderia ter figurantes. Como eu ia justificar uma cidade cenográfica deserta, sem colocar o Covid na novela? Eu tive que separar os personagens em bolhas, os atores não podiam conviver. O protocolo veio para acurar a gente, para fazer a gente buscar soluções.
Hoje a gente tem esses capítulos prontos, editados. E o protocolo não aparece no ar. Esse era nosso objetivo, que as pessoas não vissem o que foi feito.
G1 – Você diz que não pôde parar de escrever. Teve dificuldade pra manter a produtividade em meio à loucura da quarentena? Como lidou com isso?
Manuela Dias – Três dias antes do início da quarentena, minha casa entrou em obras. Eu não tinha para onde ir com a minha família porque a obra não poderia continuar. Tive que me mudar durante a pandemia. Aluguei uma casa na serra pra ficar com a minha filha.
O que eu fiz foi armar a melhor estrutura para ela, a Helena, que ia ficar sem aulas, para que eu pudesse continuar cumprindo minha carga horária de 12 horas por dia, sete dias por semana — a carga horária de uma pessoa que faz novela. Foi uma loucura.
Normalmente, uma novela tem umas 4.500 páginas. Isso são três Bíblias, é bastante. Em “Amor de mãe”, eu ainda produzi mais 800 páginas que não usei. A gente estava adaptando tudo, incluindo o número de capítulos.
G1 – Essa pausa mudou o destino de algum personagem, em relação ao que você tinha pensado originalmente?
Manuela Dias – Acredita que não? Tem uma frase do Guimarães Rosa, que é linda: “O que há de ser tem muita força”. Não sou uma fatalista, acho que a gente é o nosso próprio destino. Mas esses personagens foram encontrando o caminho deles.
É super intensa essa volta. Os personagens vão ser esticados no máximo das suas potencialidades — boas, ruins, malucas, justificadas ou não. Eles seguem complexos, como a gente é na vida real.
G1 – Algumas pessoas lamentam o fato de “Amor de mãe” ser uma ótima novela, que teria dado o azar de estar sendo exibida quando a pandemia começou. Agora, com os capítulos finais prontos, você avalia que, dramaturgicamente, a novela foi prejudicada pela pandemia?
Manuela Dias –
“Eu acho que a novela ganhou um aspecto muito interessante, inédito. Nesse sentido, ela é um case, um alienígena. Se isso fez bem ou mal à trama, não sei se te dizer. Mas isso a tornou muito diferente de todas as outras.”
Imagina essa situação: era minha primeira novela, era uma novela das 21h. E aí, pandemia. Me senti numa corrida de obstáculos: agora com uma perna só, agora de cabeça pra baixo… (risos). Mas tem coisas na vida que não tem como não resolver.
A pandemia chegou num momento em que conseguimos colocar o atropelamento [de Rita, personagem de Mariana Nunes, que tinha informações valiosas sobre desaparecimento de Domênico, filho de Lurdes] exatamente no último capítulo da primeira fase. Isso foi uma sorte. Dentro do caos absoluto, tinha alguma coisa pra gente se agarrar.
Taís Araújo e Pedro Guilherme Rodrigues em cena de ‘Amor de mãe’
Globo/Estevam Avellar
G1 – Quando a novela foi interrompida, você se sentiu nesse lugar de azarada?
Manuela Dias – Jamais. Nunca me senti nesse lugar de azarada na vida. Te juro, quando a novela parou, eu não pensei em mim, na novela. Pensei na minha filha e nas pessoas, no mundo. Não tinha espaço pra me preocupar com a minha novelinha, que foi interrompida. A gente está vivendo uma coisa muito grave.
Claro que, depois, voltei a pensar na novela. Tinha também esse problema, que não era de vida ou morte, mas que precisava ser resolvido. E fomos. Acho que a gente tem que crescer com os desafios da nossa vida.
G1 – Você costuma dizer em entrevistas que muito do seu trabalho vem do que você aprendeu em momentos de sofrimento. O que você aprendeu com a experiência da pandemia?
Manuela Dias – É muito difícil ter o distanciamento em relação a uma situação que ainda está acontecendo. Mas acho que ela vem com muitos recados claros. Mostrou, de uma forma muito cruel, a desigualdade social e uma mensagem clara de que a gente precisa urgentemente repensar nossa relação com a Terra, com o planeta.
Achamos que a Terra, como uma mãe, não faz mais que sua obrigação de prover tudo que precisamos. Só que, como uma mãe da vida real, a mãe Terra também precisa de cuidados. Vivemos numa sociedade que não recicla o lixo. Isso é uma conta que está chegando.
G1 – Essa questão ambiental está muito presente na trama de “Amor de mãe”. Essa crítica relacionada à pandemia, que você faz agora, de alguma forma vai entrar nos capítulos finais?
Manuela Dias – Eu brinco que, na novela, eu sou a Camila e eu sou o Davi [Vladimir Brichta]. A questão ambiental é muito relevante pra mim, uma questão diária. Minha intenção é dividir, de coração para coração, essa preocupação com as pessoas.
De alguma forma, eu acho que todo mundo está consciente sobre a questão ecológica, mas essa consciência não resolveu nada. Eu acredito que o que resolve é a sensibilização. Não é saber, é sentir. Se a gente sentir, a gente pode mudar.
G1 – Você acha que, no isolamento, a percepção das pessoas sobre o entretenimento mudou? De que forma isso pode impactar a indústria?
Manuela Dias – Se não mudou, deveria ter mudado. Acho que a contação de histórias é uma ferramenta civilizatória.
“A importância da representação é uma questão de sobrevivência. Tão importante quanto ter comida em casa durante a pandemia, foi ter acesso às histórias — filmes, séries, novelas, jornalismo.”
Isso é um chamado pra que todos se lembrem de quantas dessas histórias foram vistas durante a pandemia. E que lembrem como foi bom ter escritores, diretores, atores, cenógrafos, figurinistas, continuístas, editores, finalizadores, equipes trabalhando pra que todo mundo tenha acesso a essa coisa tão humana, que é contar histórias.