Como estética dos ‘desafios’ no TikTok está mudando a forma de fazer música no Brasil


Batidas combinam com movimentos dos vídeos e coreografias passaram a ter mais passos com os braços. Após virais nacionais e estrangeiros, entenda como nasce um hit na plataforma. Fãs fazem vídeos com desafios de dança e maquiagem ao som da música viral ‘Na raba toma tapão’
Reprodução / Tik Tok
Uma nova máquina de hits ganhou força no Brasil durante a quarentena causada pelo coronavírus.
O TikTok, que viu seu público e conteúdo se diversificarem durante o isolamento, revelou novos artistas e se tornou elemento fundamental nas estratégias de lançamentos do pop.
“Com certeza essa onda acabou mexendo na forma de fazer música aqui no Brasil”, diz ao G1 o MC Zaac. Ele acaba de lançar “Desce pro play”, com Anitta, o rapper americano Tyga e todos os elementos da receita para viralizar na plataforma.
Como nasce um hit no TikTok
Amanda Paes/G1
Mas será que 15 segundos de um vídeo divertido podem gerar mais que 15 minutos de fama?
De ‘Old town’ ao ‘Tapão’
O TikTok funciona como uma plataforma para criar e compartilhar vídeos curtos. É possível adicionar qualquer fundo sonoro à gravação, e muitos usuários usam esse recurso para dublar músicas ou fazer coreografias.
Antes da pandemia, o serviço já se fortalecia como pilar importante do pop desde que se fundiu ao aplicativo Musical.ly, em 2018
Um ponto de virada aconteceu no início do ano passado, com o sucesso de “Old town road”, rap caseiro do americano Lil Nas X.
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O clipe da música, inspirado no game “Red Dead Redemption II”, virou desafio no app, com jovens dublando ou dançando como caubóis ou cowgirls.
Resultado: “Old town road” bateu recorde em número de semanas seguidas em primeiro lugar no ranking de músicas mais tocadas no Estados Unidos, feito pela revista “Billboard”.
Outros sucessos apareceram: “Buttercup” (Jack Stauber), “Lalala” (Y2K e bbno$), “Dance monkey” (Tones and I), “Death bed” (Powfu)…
No Brasil, um dos hits do longínquo carnaval de 2020 foi impulsionado pela plataforma. “Tudo ok”, parceria de Thiaguinho MT, Mila e JS O Mão de Ouro, fez famosos ligarem a câmera para mostrar o cabelo, a sobrancelha, as unhas…
“Na raba toma tapão”, do MC Niack e o DJ Markim WF, ganhou um novo sentido em desafios de dança e de maquiagem para dar um “tapa no visual”. Em pouco tempo, surgiu no topo das paradas do país.
E “Tudo no sigilo”, de Vytinho NG e MC Bianca, se beneficiou de uma coreografia viral. “Não tenho ideia de quem criou a dancinha. Queria muito saber pra poder agradecer”, diz Bianca.
“Pelo perfil caseiro da plataforma, as pessoas que não sabem dançar se sentem mais confortáveis”, avalia Fabio Duarte, fundador do FitDance, empresa que cria passos de dança e se tornou também ferramenta de marketing musical.
‘Na raba toma tapão’ foi do TikTok ao 1º lugar das paradas
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Ele explica que as coreografias – e até as músicas – tiveram que se adaptar à estética do aplicativo.
“As pessoas passaram a dançar mais próximas da câmera, então passamos a ter mais passos com os braços”, cita
“Os próprios produtores estão pensando em como tornar as músicas mais dançantes. Eles já pensam nas batidas que possam dar as ênfases para os movimentos no TikTok.”
Mas só isso não garante o sucesso. Para fazer a música circular, muitos artistas – principalmente, os menos conhecidos – têm parcerias com influenciadores. O G1 apurou que eles cobram entre R$ 10 mil e R$ 15 mil para ajudar a divulgar um lançamento na rede.
Foco na interação
“As plataformas tem particularidades. No YouTube, por exemplo, o visual é importante. O TikTok é mais dinâmico porque convida as pessoas a entrarem na música”, explica o produtor musical Pablo Bispo.
Ele acumula trabalhos com Anitta, Pabllo Vittar, Iza e outros artistas. Também ajudou a compor “Desce pro play”, de Zaac.
Capa do single ‘Desce pro play’, de Anitta, MC Zaac e Tyga
Reprodução
Com um “papapa” colante, o refrão da música parece um convite à interação, embora produtor e MC digam que ele não foi pensado para grudar no TikTok.
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“Se a gente tivesse fazendo hoje, ia quebrar a cabeça pra conseguir isso. Mas, por outro lado, se você tenta forçar, pode não ficar natural”, afirma Bispo.
Para ele, o TikTok “não tem que ser prioridade”, mas “fazer parte do planejamento” dos músicos.
Afinal, em comum entre quase todos os virais da plataforma, há tentativas frustradas dos artistas em manter o sucesso a longo prazo.
Lil Nas X
Divulgação
Depois de “Old town road”, Lil Nas conseguiu emplacar outras duas músicas no ranking da “Billboard” até julho do ano passado, mas os resultados não chegaram nem perto de seu hit viral.
A fama repentina gerada pelo app, baseada na repetição, muitas vezes tem mais a ver com a forma com que um meme se espalha na internet do que com o processo musical.
Bispo resume: “Fazer uma música estourar é difícil, mas possível. Muito mais complicado é sustentar esse sucesso”.