Colégios e universidades fazem parceria para aulas no ensino médio

Professores da USP dão aula em escolas

Professores da USP dão aula em escolas
Reprodução/FMUSP

Papel e caneta na mão, Leonardo Queiroz faz desenhos de rins, pulmões e coração com detalhes que surpreendem até o professor. Aos 16 anos, ele nem pegou o canudo do ensino médio, mas já visitou a Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. No laboratório da USP, em meio a cadáveres para estudo, encontrou a própria vocação. “Na hora fiquei até nervoso. Sempre quis estar lá”, diz ele, que sonha com a Medicina.

Aluno do 2.º ano do Colégio Dante Alighieri, na região central de São Paulo, Leonardo tem as aulas de sempre — Português, Matemática, Geografia — e também a chance de se aprofundar nos estudos de Anatomia com professores que vêm direto da USP. Como o Dante, outros colégios particulares da capital já fecham parcerias com universidades para oferecer matérias conectadas com as carreiras a estudantes de ensino médio.

Com metodologia parecida à da graduação, as disciplinas em parceria funcionam como um spoiler (adiantamento) do que os alunos vão encontrar lá na frente. Para os colégios, são uma forma de ampliar o cardápio aos estudantes, facilitar as escolhas e prepará-los para os novos desafios. E, para as universidades, uma possibilidade de “vender o próprio peixe” aos futuros universitários. “Escolher a carreira aos 17 anos sem repertório pode não ser muito adequado”, diz a diretora pedagógica do Dante, Valdenice Minatel. Em meio às discussões sobre um ensino médio mais flexível, o colégio abriu há dois anos uma lista de disciplinas opcionais. Entre elas, agora, surgiram matérias ensinadas por professores de faculdades como a Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e a USP.

Aluna do Dante, Clarice Villari, de 17 anos, fez uma salada mista para descobrir a vocação. Cursou disciplinas nas áreas de Ciências e Exatas e estudou, durante um semestre no ano passado, Jornalismo com professores da ESPM que iam à escola toda semana. No fim, percebeu que a área não fazia seu estilo. “Descobri que tinha uma parte que não conseguiria fazer. Tivemos de escrever uma reportagem, entrevistar, apresentar… Eu ficava nervosa. Sou muito tímida.”

O contrário aconteceu com Gustavo Campos, de 18 anos. Quando o Colégio Bandeirantes, na zona sul, abriu uma aula extra sobre motores a combustão, ele se animou. Com um manual na mão e ferramentas como chaves de fenda, Gustavo e os colegas tinham o desafio de criar os próprios equipamentos. Tudo sob a supervisão de professores do colégio e do Instituto Mauá de Tecnologia, uma escola de ensino superior. “Eles têm a oportunidade de estar em contato com professores, conhecem as instituições, o currículo”, diz o professor Renato Villar, do Bandeirantes. Depois de visitar os laboratórios da Mauá, Gustavo voltou aos carrinhos de corrida da universidade – desta vez para ficar. “A aula no curso extra é o que estou tendo agora na graduação. Os professores falam que temos de ir atrás de tudo o que precisamos. Não é mastigado”, diz o aluno, que acabou de ingressar em Engenharia.

Vestibular

No Bandeirantes, além da parceria com a Mauá, todo o currículo de uma das disciplinas obrigatórias do 3.º ano do ensino médio foi desenhado neste ano em conjunto com o Insper. “Queremos oferecer para alunos metodologias, práticas e atividades que dialoguem com a universidade”, diz Mariana Lorenzin, coordenadora de Ciências e Steam do Bandeirantes.

Nas aulas de Steam (sigla em inglês para Ciência, Tecnologia, Engenharia, Artes e Matemática), os estudantes escolhem um tema desafiador, como aquecimento global ou energia limpa, e têm de “prototipar” (planejar) soluções. Esse tipo de tarefa já faz parte de vestibulares modernos, como o do próprio Insper. “Vemos mudanças em vários exames de seleção. E, além disso, o aluno precisa ter autonomia, certas competências e habilidades para que esse trajeto na universidade leve a uma carreira de sucesso. Queremos que a transição seja mais fácil”, diz Mariana.

No Colégio Visconde de Porto Seguro, é também a chance de incrementar o currículo que atrai os estudantes para os cursos extras em parceria com as universidades. Neste ano, a escola oferece três disciplinas com a ESPM, a USP e a Belas Artes. Como estão fora da grade curricular obrigatória, as matérias são pagas à parte. “Todo o percurso formativo fica registrado. Isso cria um currículo principalmente para ingresso nas faculdades no exterior. Lá, a primeira coisa que perguntam é o que você fez além do que era obrigatório”, diz Lisie De Lucca, coordenadora institucional de Cultura e responsável pelos cursos extracurriculares do Porto Seguro.

“Tínhamos mais responsabilidades e éramos colocados em situações-problema”, conta o aluno do 2.º ano do ensino médio do Porto Seguro Rafael Crivelaro, de 15 anos. O curso que fez, de Engenharia e Inovação, em parceria com a Escola Politécnica da USP, o ajudou a acalmar as dúvidas sobre a carreira. “Sou apaixonado por Biologia e Exatas. Foi no curso que percebi que era Engenharia o que eu queria e tive mais noção do que poderia fazer dentro da área.”