Clipes na quarentena: artistas fazem vídeos caseiros criativos que dão cara ao pop isolado


De funkeiros da Kondzilla aos Rolling Stones, videoclipes com soluções caseiras, mas engenhosas, se adaptam à quarentena e traduzem em imagens sentimentos de angústia e isolamento. Cena do clipe de ‘Pheom’, do grupo americano Thao & The Get Down Stay Down
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Amy Lee, líder do Evanescence, higieniza as compras e chora. O maior canal de clipes do mundo, o brasileiro Kondzilla, dirige o MC DR em casa, via Facetime. Yungblud grita na laje do prédio em vez do palco do Lollapalooza. Uma trupe indie transforma videoconferência em arte.
Os videoclipes mudaram. As produções são caseiras, mas há ideias engenhosas. As imagens traduzem a ansiedade do isolamento para a cultura pop. E vem mais: Dua Lipa vai mostrar um hit arrasa-quarteirão presa em casa; Lô Borges fará um mosaico de sua “Paisagem da janela”.
O G1 assistiu a vídeos recentes feitos sem equipe presencial – mas com colaboração remota – e falou com diretores sobre os videoclipes durante o isolamento.
Cenas da quarentena de Amy Lee, do Evanescence no clipe de ‘Wasted on you’: tédio, compras, limpeza e lágrimas
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Amy Lee é gente como a gente no clipe de ‘Wasted on you’, do Evanescence: fica entediada no quarto, recebe as compras, higieniza os pacotes e chora.
O clipe antecipa o disco “The bitter truth”. As cenas são amargas: os outros músicos também aparecem em casa, entre roupas para lavar e olhares para a janela, ao som da música sobre um amor desperdiçado.
Passeio fantasma
O vídeo e a letra de “Living in a ghost town”, primeira faixa inédita em oito anos dos Rolling Stones, também são pura ansiedade da quarentena. O clipe tem imagens anteriores da banda em estúdio, mas a base é um passeio pelo vazio surreal das cidades de hoje.
‘A vida era tão bonita, mas aí todo mundo foi trancado. Parece que eu sou um fantasma’, canta Mick Jagger acompanhado do vídeo com cidades fantasmas.
Outra estrela que prepara clipe de quarentena é Dua Lipa, que lançou o festejado álbum “The Future Nostalgia” no início da pandemia. Uma das melhores faixas, “Levitating”, vai ter vídeo gravado em casa. Ela adiantou que o roteiro tem uma “historinha”, mas não revelou a trama.
Reunião-arte
E “o grande clipe da era do Zoom”, como definiu o jornal americano “The Washington Post”, é de um grupo menos conhecido: o quinteto indie Thao & The Get Down Stay Down, de San Francisco, nos EUA, com “Phantom”.
O vídeo foi concebido em oito dias pela vocalista Thao Nguyen e o diretor e coreógrafo Erin S. Murray. Em seis horas de ensaio mais um dia inteiro de filmagens, eles criaram a coreografia no app de reunião.
Os oito dançarinos se movem como se quisessem expandir o quadradinho de conversas virtuais em que eles – e todos nós – estão confinados atualmente. No auge do vídeo, todos viram uma pessoa só.
Clipe de ‘Phenom’, do grupo americano Thao & the Get Down Stay Down
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Do Lolla à laje
A aflição da quarentena também é visível em “Weird!”, do cantor de pop punk americano Yungblud. A letra feita na quarentena diz: “Eu me sinto ansioso o tempo inteiro… A gente está em uma época estranha da vida”.
Ele estrearia em abril no Brasil, no palco gigante do Lollapalooza SP. No clipe, ele grita em espaços menores: uma cama de beliche e a laje do prédio em Los Angeles. O orçamento, segundo Yungblud, foi de US$ 100.
“O videoclipe sempre se adaptou a mudanças de orçamento, linguagens, gênero… A indústria fonográfica já teve muito dinheiro e os clipes se aproximaram do cinema. Depois mudou a verba, mas o clipe se reinventou. Não seria diferente agora”, diz o diretor mineiro Conrado Almada.
“Na quarentena as pessoas querem ver coisas novas. Apesar de estarmos limitados, a tecnologia e as boas ideias sempre levam a alternativas. É o que estamos vendo. As pessoas estão vindo com ideias interessantes”, diz Conrado, parceiro do Skank, vencedor do VMB em 2009 com “Sutilmente”.
Conrado finaliza um projeto colaborativo de Lô Borges. Ele editou imagens de fãs de mais de 20 países e todos os estados do Brasil cantando em suas casas os versos de “Paisagem da janela”, que são a cara da quarentena: “Da janela lateral, do quarto de dormir…”
Lô Borges na janela de sua casa, em vídeo de convocação para o projeto colaborativo “Paisagem da janela”
Divulgação / Conrado Almada
DR à distância
O canal de clipes musicais com mais seguidores do mundo, o brasileiro Kondzilla, criou o projeto #FunkEmCasa para dirigir à distância cantores de funk. “A gente orienta os MCs a filmarem com o celular e edita aqui”, diz Kaique Alves, executivo criativo da Kondzilla.
O primeiro lançamento foi “Filho de Deus”, do MC DR. Uma ironia: o resultado lembra a simplicidade dos primeiros clipes de funk feitos em celular, antes de a Kondzilla revolucionar o gênero, com fotografia e equipamentos profissionais.
Há mais cinco vídeos prontos no projeto, e a Kondzilla busca patrocínios. Um quase fechado é com um app de videochamada. A referência é justamente o clipe do Thao & the Get Down Stay Down no Zoom.
Felipe Sassi, que já dirigiu vídeos de Ludmilla, Iza, Lexa e outras, não está parado: “Esse jeito de produzir sempre foi explorado por youtubers, gente que usa recursos pessoais para fazer conteúdos. Os clipes estão explorando isso de maneira incrível com webcam e celular. E há outras possibilidades”.
Em seu projeto, o material está em casa: Felipe mora com o cantor pop Caio e planeja o clipe de “Canto da liberdade”. Um amigo diretor de fotografia vai enviar equipamentos e ajudar na gravação à distância. Outra amiga diretora de arte estuda figurinos e cenários. Tudo assim, em parceria remota.
Letrux no clipe de ‘Eu estou aos prantos’
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Gambiarra na serra
Outro exemplo de colaboração caseira é “Eu estou aos prantos”, clipe da Letrux, marcado para sair no dia 8 de maio. A cantora está em isolamento na serra fluminense com o marido e com outro casal, que inclui o iluminador e designer Julio Parente.
Letrux convocou Julio para dirigir o clipe e os cônjuges para serem assistentes de produção. “Foi divertido porque foi como o início da carreira”, ela compara.
“Ninguém começou a carreira fazendo clipe com megaprodução. Todo mundo começou de uma maneira meio capenga, criativa, com gambiarras. E acho que a gente fez uma volta a isso”, diz Letrux.
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