Claudia esbanja técnica vocal no balanço bossa nova de disco inédito no Brasil


Lançado no Japão em 1969, o álbum ‘O meu corolla’ ganha a primeira edição nacional. Resenha de álbum
Título: O meu Corolla
Artista: Claudia
Gravadora: Discobertas
Cotação: * * * 1/2
♪ Dona de uma das vozes mais fartas do Brasil, a cantora Claudia foi revelada nos anos 1960 e viveu período áureo na carreira fonográfica ao ser contratada pela gravadora EMI-Odeon no alvorecer dos anos 1970.
Pela Odeon, Claudia editou três álbuns – Você, Claudia, Você (1971), Jesus Cristo (1971) e Deixa eu dizer (1973), com destaques para os dois últimos – que evidenciaram a apurada técnica vocal da cantora.
Antes, no fim dos anos 1960, Claudia entrou em estúdio da cidade de São Paulo (SP) para fazer álbum para o mercado do Japão e lançado naquele país em 1969 com o título de O meu corolla por ter sido gravado com patrocínio de empresa automobilística que fabricava o carro de nome inserido no inacreditável título do disco.
Título mais raro da discografia de Claudia, por nunca ter sido lançado no Brasil, o álbum O meu corolla ganha a primeira edição nacional neste mês de abril de 2020 pelo selo Discobertas com produção executiva do pesquisador musical Marcelo Fróes.
Produzido originalmente pela gravadora Seven Seas, o álbum chega ao Brasil após 51 anos com a capa original, com boa remasterização e com as 14 faixas do LP de 1969, sendo que 11 são oficialmente inéditas no Brasil.
Como os fonogramas pertenciam à empresa Fermata, a gravadora RGE lançou em 1971 coletânea disfarçada de álbum para pegar carona na exposição obtida por Claudia com os discos editados pela Odeon. Nessa compilação, apareceram as exuberantes gravações de Carolina (Chico Buarque, 1967), Mas que nada (Jorge Ben Jor, 1963) e The shadow of your smile (Johnny Mandel e Paul Francis Webster, 1965) – três amostras da reluzente lâmina vocal de Claudia na época da gravação de O meu corolla.
Disco voltado para a bossa nova, gênero musical idolatrado no Japão, O meu corolla mostra que, aliado à rara técnica vocal que fez o jornalista e compositor Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994) forjar rivalidade entre Claudia e Elis Regina (1945 – 1982), o aguçado senso rítmico da intérprete carioca a tornava na época uma cantora de fato singular.
O suingue e a leveza com que Claudia caiu nos sambas Água de beber (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1961) – este adornado com breves scats ao fim da gravação – e Garota de Ipanema (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1962) preservam o frescor de 1969.
Munida da voz e de coragem, Claudia encarou até o risível jingle bilíngue O meu corolla, criado pelo compositor Kuranosuke Hamaguchi (1917 – 1990) para promover o carro corolla e cantado pela artista em português e japonês. Hamaguchi também foi o autor do insosso samba-canção No star in the sky (em parceria com Bonta Seshi) e do pitoresco samba bilíngue Vamos dançar a bossa nova, tentativa vã de clonar a batida da moderna música brasileira.
Embora o canto opulento de Claudia seja a antítese do intimismo promovido pela bossa nova, a cantora baixou os tons para esboçar clima aconchegante ao interpretar Corcovado (Antonio Carlos Jobim, 1960). Deu certo, mas, ainda assim, ficou claro no disco que Claudia era cantora mais vocacionada para temas mais esfuziantes como o afro-pop Pata pata (Miriam Makeba e Jerry Ragovoy, 1967), sucesso mundial no fim dos anos 1960.
A inclusão do cinematográfico sucesso francês Un homme et une femme (Pierre Barouh e Francis Lai, 1966) no disco ressaltou a intenção de rechear o repertório com standards planetários como o Samba de uma nota só (Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça, 1960), apresentado na ficha técnica como o título em inglês One note samba, embora Claudia cante o samba em português com fluência exemplar.
Não fossem os peculiares temas japonês impostos no repertório, o álbum O meu corolla seria um dos discos mais coesos de Claudia pela vibração dos arranjos e, sobretudo, pela luminosidade da voz dessa grande cantora do Brasil.