Chico Buarque e Jair Rodrigues detalham polaridade apaixonada em noites de festival


Embate e empate entre ‘A banda’ e ‘Disparada’ são os assuntos do segundo episódio de série sobre as competições musicais dos anos 1960. Resenha de série documental de TV
Título: Noites de festival – Episódio 2
Direção e roteiro: Renato Terra e Ricardo Calil
Exibição: Canal Brasil
Data: 21 de outubro de 2020
Cotação: * * * 1/2
♪ Em depoimento alocado no início do segundo episódio da série Noites de festival, exibida pelo Canal Brasil nas noites de quarta-feira e disponível para assinantes da plataforma Globoplay, Nelson Motta é enfático ao dizer que, em meados dos anos 1960, a música popular era discutida com a mesma paixão com que, nas décadas seguintes, a novela seria assunto nas conversas.
Tal paixão gerou e alimentou o embate entre A banda (Chico Buarque, 1966) e Disparada (Geraldo Vandré e Theo de Barros, 1966), músicas que terminaram empatadas no Festival de Música Popular Brasileira exibido de 27 de setembro a 10 de outubro de 1966 pela TV Record.
O embate e o empate – na realidade, um arranjo providencial sugerido por Chico Buarque para evitar a hostilidade do público que torcia por Disparada – são os assuntos do segundo dos seis episódios da série roteirizada e dirigida pelos cineastas Renato Terra e Ricardo Calil como spin-off do filme Uma noite em 67 (2010).
Os depoimentos de Chico Buarque e de Jair Rodrigues (6 de fevereiro de 1939 – 8 de maio de 2014) – cantor convidado a defender Disparada, composição de estilo até então dissociado da personalidade esfuziante de Jair – conduzem e valorizam o episódio da série de TV.
Engenheiro de som dos festivais, Zuza Homem de Mello (1933 – 2020) lembra que, na primeira vez em que A banda foi apresentada, a voz da cantora Nara Leão (1942 – 1989) foi abafada pelo som da bandinha arregimentada para a defesa da música. Zuza conta ter sido de Manoel Carlos a ideia de chamar Chico para reforçar a defesa da música, somente com a voz e o violão do artista, para somente depois Nara entrar em cena com a banda.
Manchete principal de jornal, como lembra o empresário Paulo Machado de Carvalho (1924 – 2010), a apaixonada polaridade entre as músicas dividiu não somente o público, como também o júri, como enfatiza o maestro Julio Medaglia, integrante desse júri.
De certa forma, o embate também foi entre a “música de protesto” e a “música alienada” (e o próprio Chico Buarque admite no programa que A banda era música intencionalmente alienada da situação política da época). Por isso mesmo, o empate foi providencial. “Havia rivalidade, mas não hostilidade nos bastidores”, diferencia Chico, caracterizando o empate como “confortável”.
No fim do episódio, Caetano Veloso desempata ao dar o próprio veredito: “(A banda) é uma canção mais tola dentre todas as canções de Chico. Era bem feita, mas não era genial como quase todas as canções que Chico faz. Mas era irresistível. Já A disparada me parecia uma canção de certa força poética. É uma canção maior do que A banda”, sentencia o artista baiano, ressaltando, no entanto, que compôs a marcha pop Alegria, alegria (1967) com inspiração em A banda.
No todo, os depoimentos do segundo episódio da série Noites de festival corroboram a tese de Nelson Motta sobre um tempo em que a música do Brasil era feita e discutida com paixão.