Charlie Watts: João Barone e Charles Gavin explicam o gênio discreto da bateria; ouça


Em podcast, baterista dos Paralamas explica como Watts tocava em função da música; Gavin lembra encontro em 2006 em Copacabana e descreve sua ‘elegância’ nos Rolling Stones. “O Charlie Watts simboliza o conceito do baterista que toca para a música. Ele foi brilhante e teve papel fundamental nas obras-primas que os Rolling Stones deixaram para o rock.” O inglês era discreto, mas os brasileiros, como João Barone, não fingem moderação ao explicarem sua importância.
Ouça acima o podcast G1 Ouviu. Barone e Charles Gavin, dois dos principais bateristas do rock brasileiro, explicam o gênio discreto de Charlie Watts. Ele morreu aos 80 anos nesta terça-feira (24).
Charlie Watts, dos Rolling Stones, durante a música “Start Me Up” no MGM Grand Garden Arena em Las Vegas, EUA, em novembro de 2002
Ethan Miller/Reuters/Arquivo
Gavin diz que entendeu melhor o que Charlie Watts significava para o rock quando tocou com o Ira!, entre 1982 e 1984. Na época, ele era fã de bandas surgi mas os colegas Nasi e Edgard Scandurra eram fanáticos pelo rock inglês dos anos 60.
“É interessante: ao longo dos anos, como eu fui entendendo o quanto Charlie Watts era gigante”, lembra Gavin. Ele diz que, assim como Ringo, Watts “alcançou algo no instrumento muito difícil para todos os músicos, que é a lei básica do ‘menos é mais'”.
“Ele é sinônimo de elegância dentro dos Stones. Cada um tem uma função ali, e a elegância, o requinte, dos Stones está exatamente no instrumento dele”, defende o ex-Titãs.
O baterista Charlie Watts, da banda inglesa The Rolling Stones chegando ao Hotel Copacabana Palace, zona sul do Rio de Janeiro, para apresentação da banda no Hollywood Rock, em abril de 1998
Alcyr Cavalcanti/Estadão Conteúdo/Arquivo
Gavin encontrou Watts duas vezes. A primeira foi quando ele veio tocar com seu quinteto de jazz, em 1992. O comportamento do baterista condiz bem com o personagem. “Deram uma festa para ele em SP, ele apareceu e ficou exatamente 5 minutos. Foi muito engraçado. Deu ‘hello’ e foi embora.”
O segundo encontro foi maior. Em 2006, os Titãs tocaram na abertura do maior show dos Stones no Brasil, na praia de Copacabana. “Depois veio o convite para a gente ir encontrá-los no camarim no Copacabana Palace”, ele lembra. O baterista elogiou os ritmos brasileiros, lembra Gavin.
Mas o mais marcante foi encarar sua bateria. “O roadie dele ficou incomodado comigo, fiquei olhando pro instrumento, tentando adivinhar quanto tempo aquela bateria tinha. Ele usa uma bateria Gretsch muito antiga, o mesmo modelo, sempre usou o mesmo, então é um instrumento histórico.”
“Fiquei olhando e passando um filme na minha cabeça. Me lembrei o quanto os Stones eram importantes para nós e para todo mundo. O caminho que eles pavimentaram dentro do rock para toda uma geração”, diz Gavin.
Charlie Watts, baterista dos Rolling Stones, morre aos 80 anos
“Mais do que se mostrar com técnica ou arroubos de exibicionismo, ele sempre foi uma cara comedido. Cada nota que ele botava estava no lugar certo”, define João Barone.
O baterista dos Paralamas acompanhou o trabalho de Watts também no jazz, e nota lá a mesma característica: “Mesmo nesse conceito jazzístico, ele não era um cara com arroubos de exibicionismo. Ele tocava os standards todos de uma forma elegante”.
E o futuro dos Rolling Stones? “Não sei se eles vão continuar fazendo shows com o Steve Jordan, que já ia substituir ele nessa turnê de outubro. Mas os Stones são maiores que eles mesmos. Talvez seja até um gesto nobre eles continuarem, como forma até de homenageá-lo”, opina João Barone.