Centenário de Paulo Freire: viúva e pesquisadores do DF falam sobre legado e bom humor do educador


Pedagogo e filósofo pernambucano completaria 100 anos neste domingo (19). ‘Afável, amoroso e cheio de bom humor’, lembra viúva Nita Freire, que participou de evento online em Brasília. Paulo Freire
GloboNews
Patrono da educação no Brasil, o pedagogo e filósofo Paulo Freire completaria 100 anos neste domingo (19). O educador pernambucano morreu em 1997 e deixou um legado de obras com um método educacional que deu oportunidade de alfabetização à população mais pobre, sobretudo, na área rural, usando palavras e expressões do cotidiano.
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Mais conhecido pela metodologia educacional adotada no Brasil e no exterior, o pedagogo também é lembrado, por quem o conhece, pelo “bom humor e a garra”. A também educadora Ana Maria (Nita) Araújo Freire, de 87 anos, casada com Paulo Freire por quase 10 anos contou ao G1, após um evento online que homenageou o centenário do pedagogo em Brasília, que “ele era em casa como era em público”.
“Paulo era um homem muito afável, amoroso, cúmplice e cheio de bom humor. Vivíamos a vida com alegria. Ele era muito humano, com inteireza de caráter e que trabalhava as próprias virtudes”, diz Nita.
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Presença de Paulo Freire no DF
No Distrito Federal, a filósofa e mestre em tecnologias da educação Maria Madalena Torres, de 58 anos, coordena o Centro de Educação Paulo Freire (Cepafre). A organização sem fins lucrativos, fica em Ceilândia e foi fundada em 1989.
Desde então, já ajudou a alfabetizar cerca de 16 mil jovens e adultos, com base nas “palavras geradoras”, a metodologia freiriana. Ela lamenta que a pedagogia de Paulo Freire não tenha sido “abraçada” pela educação pública.
“Se tivesse aderido [à metodologia], não estaríamos mais falando de pessoas não alfabetizadas no Brasil”, diz Madalena.
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O educador popular e professor da Faculdade de Educação da Universidade de Brasília (UnB), Erlando da Silva Rêses, contou ao G1 que Freire tinha uma “relação íntima” com o DF.
“Ao mesmo tempo que lembramos de Angico, município no Rio Grande do Norte, onde ele alfabetizou 300 trabalhadores em 45 dias, recordamos que ele esteve por aqui, nos anos de 1960, no governo de João Goulart, para coordenar o Plano Nacional de Alfabetização, onde acompanhou a abertura de círculos de cultura”, diz Erlando.
Leia abaixo as entrevistas com Nita Freire, Maria Madalena Torres e Erlando da Silva Rêses sobre Paulo Freire
Nita Freire, 87 anos, educadora e viúva de Paulo Freire
Arquivo pessoal
‘Um apaixonado’, segundo a educadora e viúva Nita Freire
G1 – As obras de Freire são bastante conhecidas no Brasil e no mundo. Conte, por favor, um pouco sobre esse outro lado: Quem era Paulo, marido e amigo?
Nita Freire – Paulo era muito humano, brincava com certas coisas. Era uma pessoa que chegava aos sábados, aos domingos, e perguntava o que queria que nós fizéssemos juntos. Era de total disponibilidade para mim. Tínhamos 10 anos de casados.
Mas ele fumou muito, teve tuberculose e uma saúde muito precária. Sempre foi um rapaz franzino. Quando foi dar conta de contornar o problema, as placas de nicotina já tinham se espalhado pelo corpo. Fomos a médicos, mas, infelizmente, não deu [certo].
G1 – Você acompanhou de perto a pesquisa e a dedicação dele à educação. Como surgiu esse amor e quando surgiu o Paulo pedagogo?
Nita Freire – Ele tinha sido professor no colégio dos meus pais. Sempre com essa garra de humanizar as pessoas.
“Paulo dizia que o analfabeto não se sente ‘existência humana’ como nós [letrados], mas como objeto de manipulação da sociedade. E, então, para ele, para transformar a sociedade em cidadãos mais iguais, temos que começar pela alfabetização, pela instrução.”
Ele foi levado à educação por essa razão, para que as pessoas se sentissem inseridas na sociedade e participassem da justiça social, como cidadãs, e não como objetos de manipulação. Na educação, ele começou a aprofundar essas questões do conhecimento. Dizia que, se a gente pode conhecer mais, temos que procurar o saber.
“Nos anos de 1950, Paulo entendeu que faz parte da condição do ser humano saber ler e escrever. Ele percebe [naquela época] que está na necessidade de desenvolvimento da sociedade que o cidadão precisa ler e escrever, e que isso é a educação.”
G1 – Ele lhe disse alguma frase inesquecível, que guarde com carinho na memória?
“Ele me disse uma frase inesquecível: ‘Nita, eu te amo o máximo que um homem pode amar uma pessoa. Mais do que eu te amo, ninguém pode amar’ .”
‘Às escondidas na UnB nos anos 1980’, lembra Erlando da Silva Rêses, pós-doutor em educação e autor de artigos sobre Paulo Freire
Paulo Freire durante I Fórum Regional do Programa de Alfabetização de Jovens e Adultos, em Ceilândia (DF)
Arquivo Cepafre
G1 – Qual a relação de Paulo Freire, pernambucano, com o Distrito Federal?
Erlando Rêses – Paulo teve uma presença marcante no DF. Esteve no Gama, em Sobradinho, em Ceilândia e na UnB.
Ele foi para o exílio e, na volta ao Brasil, no início dos anos de 1980, ficava às escondidas na UnB. Veio ao DF porque tinha pessoas conhecidas, professores. Participou de cursos de comunicação e cultura e manteve contato com mestrandos.
“Ele foi do conselho diretor da Fundação Universidade de Brasília (FUB). Recebeu prêmios da Organização dos Estados Americanos (OEA) na Faculdade de Educação [da UnB], em 1992, e no mesmo ano, inaugurou e batizou o “Centro Acadêmico Pedagogia do Oprimido”, uma referência à obra dele.”
Legado e (des)valorização, segundo Maria Madalena Torres, filósofa e uma das coordenadoras do Centro de Educação Paulo Freire, em Ceilândia
Madalena Torres ao lado de Paulo Freire, em Ceilândia, em 1996
Arquivo Cepafre
G1 – Qual o maior legado que Paulo Freire deixou à educação brasileira, em especial no processo de alfabetização de jovens e adultos?
Madalena Torres – A obra de Paulo Freire é um grande legado. Nas universidades inglesas, “Pedagogia do Oprimido” é o livro mais lido e está no topo, na área de humanidades. Mas o Brasil não deu valor. O que será que ele tem que que é valorizado em outros países e aqui, não?
“Ainda temos mais de 11 milhões de analfabetos no país e, hoje, 66 mil no DF. Precisamos resolver esse problema.”
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Paulo respeitou a realidade das pessoas com quem ele trabalhava. Ele diz: “a leitura do mundo precede a leitura da palavra”. Quer dizer que, quando você consegue animar as pessoas a discutir sua própria realidade, lutar para resolver os problemas sociais que existem naquela comunidade, esse é o diferencial”.
“A educação, no geral, tem uma linha individualista e capitalista. Paulo Freire foi o contrário.”
G1 – Em sua vivência como educadora, convivendo com estudantes em condições sociais e faixas etárias distintas, o que Paulo Freire sugeriu, mas que, na prática, não se aplicou bem e foi preciso fazer adaptações à realidade da sala de aula?
Madalena Torres – Uma forma de trabalhar mais específica, considerando as diferentes gerações. Mas a obra não está defasada. Ela recomenda pesquisar a realidade da comunidade, ela está sempre contemporânea. O problema é que a escola pública não fez o trabalho que deveria. A não ser experiências muito específicas, em alguns colégios rurais, mas não é no geral.
“Paulo Freire não ficou no passado. Ele recomendava fazer sempre a pesquisa do universo vocabular [do estudante], seja qual tempo for, além do respeito à cultura, ao pensamento e ao modo de vida.”
Quando a “Pedagogia do Oprimido” foi escrita, em 1968, ainda vejo os dias de hoje. Paulo Freire trabalhou a máxima que “ninguém educa ninguém, ninguém se educa sozinha, os homens se educam em comunhão mediatizados pelo mundo”.
“Se fosse usado esse método, desde então, o Brasil teria outra cara, teríamos muito mais respeito dos jovens.”
Exposição celebra centenário de Paulo Freire
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