Titãs recriam, e também destroem, a produção áurea da banda no molde de trio acústico



Grupo revive ‘Homem primata’ em ritmo de ska no segundo EP com registros de estúdio de músicas de show revisionista. Capa do EP ‘Trio acústico 02’, dos Titãs
Divulgação
Resenha de EP
Título: Titãs – Trio acústico EP 02
Artista: Titãs
Gravadora: Warner Music
Cotação: * * 1/2
♪ “Enquanto houver sol, ainda haverá”, canta Sergio Britto, sugerindo a palavra esperança para completar o verso do refrão da melodiosa balada de 2003 que Britto compôs para os Titãs no molde da canção Epitáfio, o hit que impulsionou o álbum lançado pela banda em 2001.
Enquanto houver sol abre o segundo EP do projeto Trio acústico, show sem eletricidade que os Titãs montaram em 2019 com roteiro retrospectivo, rebobinado em estúdio por Branco Mello (voz, baixo e violão), Sergio Britto (voz, piano e baixo) e Tony Bellotto (violão e guitarra acústica) para gerar álbum neste ano de 2020.
Disponibilizado na sexta-feira, 3 de julho, Trio acústico EP 02 apresenta mais oito músicas das 24 regravações feitas em estúdio e chega a mercado exatos três meses após a edição, em 3 de abril, do primeiro EP com registros de outras oito músicas do show Trio acústico.
Por mais que esse projeto seja a rigor um meio de sobrevivência para os Titãs na selva do mercado, a força do repertório da banda paulistana é inegável e o molde acústico ajuda eventualmente a iluminar melodias envolventes como a de Enquanto houver sol.
Despida da vestimenta new wave típica dos anos 80 com que foi apresentada na gravação original de 1984, a canção Toda cor (Marcelo Fromer e Ciro Pessoa) também é favorecida no formato acústico e ganha tom elegante com arranjo de violoncelo e violão.
Reggae do mesmo álbum, Titãs (1984), que apresentou a canção Toda cor, Go back (Sergio Britto a partir de poema de Torquato Neto) soa meramente curioso no EP por ser cantado em espanhol com citação do reggae Stir it up (Bob Marley, 1972).
Música-título do segundo álbum da banda, lançado em 1985, Televisão é sintonizada em frequência quase similar à do registro original e, por isso mesmo, perde peso no confronto com gravações anteriores, inclusive a feita pelo grupo no álbum Acústico MTV de 1997.
Desse mesmo disco acústico, responsável por revigorar os Titãs no mercado fonográfico após álbuns de menor receptividade popular, a canção Nem 5 minutos guardados (Sergio Britto e Marcelo Fromer, 1997) tem a arquitetura preservada pelo arranjo calcado no toque de piano, com violoncelos dando tom lírico à gravação sem cair em registro meloso.
Por fim, Bichos escrotos (Arnaldo Antunes, Nando Reis e Sergio Britto, 1986), Homem primata (Sergio Britto, Marcelo Fromer, Nando Reis e Ciro Pessoa, 1986) e Polícia (Tony Bellotto, 1986) – três músicas do furioso terceiro álbum dos Titãs, Cabeça dinossauro (1986) – têm plastificadas a aura punk original dessas composições, inadequadas para os tons plácidos de projetos acústicos.
Ouvir Homem primata em ritmo de ska pode soar curioso, mas apenas corrobora que – sendo a vida cruel e o capitalismo, selvagem – os Titãs sobrevivem na selva de pedra criando e recriando, mas também destruindo, tudo o que produziram desde os primórdios. Mas resta uma esperança, enquanto houver sol…

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Discos para descobrir em casa – ‘Avenida das desilusões’, Leo Jaime, 1989


Capa do álbum ‘Avenida das desilusões’, de Leo Jaime
Reprodução
♪ DISCOS PARA DESCOBRIR EM CASA – Avenida das desilusões, Leo Jaime, 1989
♪ O título do quinto álbum de Leo Jaime, Avenida das desilusões, já traduziu o desencanto que começava a abater o rock brasileiro projetado no Brasil ao longo dos anos 1980.
Após a euforia juvenil dos dias de lutas e glórias, as vendas de discos já começavam a minguar, assim como os hits radiofônicos, em crise que seria aprofundada na primeira metade dos anos 1990, década em que houve uma troca de guarda na geração pop nacional.
Goiano nascido em 23 de abril de 1960 na interiorana cidade de Anápolis (GO), Leonardo Jaime fez desde o início parte da história do rock brasileiro dos anos 1980 e poderia ter mudado o curso dessa história se tivesse aceitado o convite para ser o vocalista do banda Barão Vermelho, posto que, por indicação de Leo, acabou sendo de Cazuza (1958 – 1990), de quem se tornara amigo nas andanças pela cidade do Rio de Janeiro (RJ).
Artista multimídia, hábil na conciliação de trabalhos musicais com aparições na TV e no teatro, Leo Jaime entrou em cena no elenco do musical Os saltimbancos (1977 / 1978), mas somente encontrou a própria turma no alvorecer dos anos 1980 como integrante de João Penca e seus Miquinhos Amestrados, grupo carioca que combinava humor e rockabilly.
Seduzido em 1983 por contrato com a gravadora CBS para iniciar carreira solo, Leo preferiu deixar de ser um miquinho e saiu do grupo sem rusgas com amigos como Avellar Love e Leandro Verdeal. Tanto que João Penca participou da gravação da música Vinte garotas num fim de semana (Leo Jaime e Guto Barros), lado A do single duplo de 1983 que marcou a estreia de Leo Jaime em disco (o lado B era a canção O bolha, de autoria do cantor e compositor).
O compacto simples – nome dado aos singles duplos no mercado fonográfico do Brasil dos anos 1980 – foi o prenúncio do primeiro álbum de Leo, Phodas “C”, lançado no fim de 1983 com estética tecnopop e repertório com moderado poder de sedução.
Leo Jaime precisou esperar dois anos para fazer real sucesso – e este veio avassalador com os sucessivos hits do segundo álbum do artista, Sessão da tarde (1985), delicioso tratado juvenil sobre o amor e a desilusão sob a ótica dos loosers ou, em bom português, dos garotos pobres apaixonados por meninas de melhor condição social.
Leo Jaime encontrou a fórmula do sucesso na forma de canções de perfeita arquitetura pop e de um rock sem firulas. Mas pagou preço pelo sucesso. Álbum seguinte, Vida difícil (1986) refletiu a crise existencial do artista diante das encruzilhadas do sucesso.
De absorção facilitada pela inspirada balada Nada mudou, Vida difícil foi disco de ressaca que antecipou em três anos o tom de Avenida das desilusões, álbum antecedido por Direto do meu coração pro seu (1988), disco de repertório pautado pelo romantismo e pelo rock’n’roll com direito à regravação de Gatinha manhosa (Roberto Carlos e Erasmo Carlos, 1965), reforçando a conexão de Leo com o antecessor Erasmo Carlos.
Em Avenida das desilusões, esse romantismo direto saltou aos ouvidos na balada Eu perco o rumo sem você, parceria de Leo com Dalto e Paulo Lima.
Gravado com produção musical de Johnny Galvão, músico português que colaborara com Leo desde o princípio da obra fonográfica do cantor, o álbum Avenida das desilusões jamais encontrou o endereço do sucesso. Talvez por oferecer o que nunca se esperava do artista naquele ano de 1989.
Alocada na abertura do LP, a música-título Avenida das desilusões (Leo Jaime) ostentou batida funkeada até então dissociada da discografia do artista. Nessa mesma linha funky, a faixa Sucesso sexual – parceria de Leo com o miquinho Leandro Verdeal – evocou no sopro dos metais o suingue da Vitória Régia, banda de Tim Maia (1942 – 1998), em gravação que se diferenciou do registro original da composição, feita por Angela Ro Ro no álbum A vida é mesmo assim (1984).
Na sequência de Avenida das desilusões, a faixa Frio manteve a quentura do funk com direito à voz adicional da futura garota carioca suingue sangue bom Fernanda Abreu – então já gestando o primeiro álbum solo que lançaria em 1990 – nessa música assinada somente por Leo Jaime.
Parceria do artista com Paulinho Lima, Agora corroborou o fato de o álbum Avenida das desilusões ter ficado calcado mais no groove do que na força das canções, ao menos no lado A do LP de capa dupla. Mas, sim, houve canções no disco, caso de Bobagem, balada de acento soul composta por Leo com Paulinho Lima e gravada com citações da canção-soul Primavera (Cassiano e Silvio Roachel, 1970) e do samba-soul Gostava tanto de você (Edson Trindade, 1973), dois sucessos do recorrente Tim Maia na década de 1970.
Dentro dessa seara de canções, a serena abordagem de Índios (Renato Russo, 1986) – então lançada pela banda Legião Urbana há meros três anos – ostentou a afinação do canto de Leo Jaime em um dos melhores desempenhos vocais do artista. Na regravação de Índios, Leo esboçou maturidade que tornou destoante a manha juvenil e machista da balada Eterno enquanto duro, parceria do artista com o miquinho Leandro Verdeal que soou deslocada na voz de um cantor então à beira dos 30 anos.
Nesse sentido, a balada Você e eu pareceu mais condizente com a postura que Leo Jaime vinha adotando desde o coeso álbum Vida difícil para se livrar da imagem de roqueiro irreverente.
Fora da CBS, gravadora que dispensou o cantor após o insucesso de Avenida das desilusões, a vida fonográfica de Leo Jaime se tornou difícil com a ida do artista para a Warner Music. A estreia nessa gravadora com álbum tardiamente adolescente, Sexo, drops & rock’n’roll (1990), surtiu efeito abaixo do esperado, o que gerou insatisfações do artista e da companhia fonográfica.
Posto na geladeira, Leo Jaime somente conseguiu lançar em 1995 o disco seguinte, Todo amor, ao qual se seguiu – longos 13 anos depois – Interlúdio, álbum que refletiu a maturidade esboçada pelo artista neste titubeante (mas nem por isso desinteressante) Avenida das desilusões.

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