Casa de shows de drag queens em SP faz 25 anos reverenciada até por Pabllo Vittar


Conheça a história da Blue Space, a ‘miniBroadway’ que reúne ícones como Marcia Pantera, Silvetty Montilla e Alexia Twister. Há 1 ano, pandemia parou o espetáculo. Boate de SP, referência na arte drag queen, completa 25 anos
“Ninguém me tomba mais”: foi assim que Pabllo Vittar resumiu sua passagem pela Blue Space, casa de shows de drag queens de São Paulo que acaba de completar 25 anos.
A drag mais popular do mundo no Instagram tinha só 1 ano de idade quando a boate foi criada. Mas a “casa azul” no bairro da Barra Funda sobreviveu a muitas mudanças na noite, a ponto de ainda ser fascinante para a então estrela em ascensão. Pabllo se apresentou lá em 2016, na Festa Priscilla.
A cantora começou o show “emergindo” pelo elevador, um dos vários recursos cênicos do lugar, único a manter uma produção para drag queens com balé, coreógrafo e diretor artístico, além de ter um time voltado para o humor.
Pabllo Vittar se apresentou na Blue Space em 2016
Festa Priscilla
A boate é elogiada até pelas drags gringas do reality show “Ru Paul’s Drag Race”, que também já se apresentaram lá. Uma delas, Alaska, vencedora do “All Stars”, gravou um clipe na casa, assim como Gloria Groove (“Dona”).
De RuPaul a Pabllo: drag queens ganham o pop, a TV e as gírias
Além de receber estrelas pop esporadicamente, a boate tem um elenco fixo de drags. Toda semana, três novos números eram criados e apresentados no sábado e no domingo.
Mas está tudo “congelado” desde 15 de março de 2020, a última noite antes das restrições pela pandemia. Era a comemoração dos 24 anos da Blue. “Chorei muito porque não sabia quando íamos voltar”, lembra o primeiro e único dono, José Victor, de 68 anos.
Neste 1 ano fechada, a casa abriu uma única vez, como bar, com público e horário limitados e mesas distantes entre si, num momento de flexibilização das medidas contra a Covid na cidade.
Os 25 anos terão de ser comemorados pela internet. E os cachês da live serão pagos pelos fãs da casa, que participam de uma vaquinha.
Última apresentação antes da Blue Space fechar por restrições pela pandemia em SP marcou a comemoração dos 24 anos da casa
Calaguar/Arthur Viana
Por que fascina Pabllo?
Atenta às tendências, mas sem esquecer da tradição, a casa na Zona Oeste de São Paulo, sempre teve um elenco onde veteranas dividem espaço com as mais novas.
Marcia Pantera, precursora do bate-cabelo e estrela da Blue Space
Cassio Sampaio
O time atual mistura diversas expressões da dublagem na arte drag.
Vai do famoso bate-cabelo, iniciado por Marcia Pantera, nos anos 90, e imitado mundo afora, à androginia de Danny Cowlt e Ikaro Kadoshi, passando por nomes que ficaram conhecidos primeiro no YouTube e no Instagram, como Penelopy Jean e Halessia.
“O público é muito exigente: ou você é bom ou você é bom”, resume Silvetty Montilla, drag/transformista há 33 anos e com 24 de casa.
Halessia, uma das caçulas da Blue Space, se tornou conhecida primeiro na internet
Lima Dezenove
A Blue “bebeu” dos áureos tempos em que transformistas – o termo “drag queen” só surgiu depois – como Silvetty faziam até 9 shows por noite em diferentes locais.
A intenção do dono era unir o melhor da lendária casa de shows Nostromondo e o humor de outra boate paulistana, a Rave.
Por lá já passaram Nany People, Dimmy Kieer (o Dicesar do BBB 10), Salete Campari e Verônika – que popularizou o estilo “top model” das drags – entre outras referências. Muitas veteranas continuam a se apresentar, como Gretta Sttar e Marcinha.
Marcinha é uma das veteranas do elenco da Blue Space
Lima Dezenove
Saiu para plateia para virar estrela
Hoje um dos nomes mais conhecidos da cena drag brasileira, Alexia Twister também vai fazer 25 anos de carreira neste ano e era parte da plateia da Blue no começo dos anos 2000.
Vivia em São José dos Campos (SP) e ia para a capital paulista para se atualizar: “Naquela época não tinha internet para a gente ver (em casa) os shows que estavam acontecendo”.
Alexia Twister saiu da plateia da Blue Space para virar uma das estrelas da casa
Calaguar/Arthur Viana
Alexia estreou em 2005, quando a boate estava prestes a se reinventar mais uma vez. Foi dela um dos últimos “especiais”, como eram chamadas as noites dedicadas a uma artista do elenco. Esse formato ficou para trás, assim como os concursos da Blue.
Se adaptar não foi um problema. Chamada de camaleoa por colegas, Alexia já “voou” pelo palco da boate como a cantora Pink, emocionou gerações como Elis Regina e segue surpreendendo como o Coringa ou Freddie Mercury.
Alexia Twister ‘voando’ na Blue Space interpretando a cantora Pink
Lima Dezenove
‘MiniBroadway’
A Blue funciona como uma “miniBroadway” – isso porque os espetáculos ficam só 2 dias em cartaz. Eles são criados com a direção artística de Vagner Cavalcante, coreografia de Jairo Azevedo, além de figurinos para bailarinos e o cenário.
Show de drag da Blue Space contam com cenário e recursos no palco para as drags
Lima Soares
As drags levam seu próprio “look” e, claro, também são responsáveis pela maquiagem e a peruca, como é típico dessa arte.
Cavalcante, que hoje tem formação de ator, começou na boate como faxineiro, aos 17 anos, em 2000. Curioso para acompanhar os bastidores e ajudar, acabou tendo a chance de dirigir os números. E conquistou o respeito das estrelas da casa.
Drag queen é questão de gênero?
Há 3 datas anuais em que o elenco todo participa: a festa de aniversário, o Halloween e “Uma noite em Hollywood”, quando a “pegada” da Broadway realmente aparece e o palco se “transforma” em cenas de filmes como “Harry Potter”, “Predador” ou “Moulin rouge”.
No cenário, as artistas contam com elevador (aquele “da Pabllo”), ventilador para fazer os cabelos voarem, balancinho para chegar “de cima”, palco giratório, painel de LED e muita luz.
Halloween da Blue Space em 2019 fez palco virar hotel aterrorizante
Lima Dezenove
“Tudo comprado com o dinheiro da própria boate”, conta o dono, José Victor. Um feito para quem começou o negócio sem ter capital, parcelando em 24 vezes.
Da Sabesp para a noite
A Blue Space surgiu porque Victor era apaixonado por shows de drag. Ex-leitor de hidrômetros da Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), ele era gerente de uma sauna gay na época.
A fim de fazer com que os clientes ficassem mais tempo – e, claro, gastassem mais – começou a contratar drags que via em boates, para animar a sauna. A primeira foi Miss Biá, um ícone desta arte, que morreu em junho passado, vítima da Covid, aos 80 anos.
Miss Biá se apresentou na Blue Space em 2017; lenda da arte drag, ela tinha 60 anos de carreira quando morreu, em 2020
YouTube/Blue Space
No início de 1996, soube que o ponto estava vago depois de ser a boate “Anjo azul” e uma casa de samba chamada Catedral. Aliás, o samba está nas origens do local, que, nos anos 70, foi sede da notória São Paulo Chic, do fundador da escola do bairro, a Camisa Verde e Branco.
Victor, então, decidiu virar empresário e batizou o lugar de “Espaço azul” porque não tinha dinheiro nem para mudar a cor da pintura da fachada.
“Coloquei em inglês (Blue Space) porque, na época, achavam mais chique. Hoje não faria isso”, diz.
Imagem do primeiro ano de funcionamento da Blue Space, em 1996
Instagram/José Victor
Dicionário drag: as gírias mais usadas
O imóvel fica numa região que estava fora da “ferveção” noturna da época. Mas Victor enxergou potencial porque tinha metrô perto e muitas vagas para estacionar nas ruas, ao contrário do badalado Jardins.
“Todo mundo me chamava de louco. Gay não vai à Barra Funda”, lembra o dono.
Antes de abrigar casa de espetáculos drag na Barra Funda, prédio onde fica a Blue Space foi o notório de samba São Paulo Chic
Lima Dezenove
A estreia foi menos de um mês depois, num domingo, e lotou. Hoje a região abriga diversas casas noturnas.
Para desmistificar o que é uma casa de shows drag queens, Victor também as leva para a rua, em plena luz do dia, no aniversário da Blue: é o “futebol” das drags.
A brincadeira atrai de idosos a crianças que moram na redondeza. E termina sempre com apresentações de estrelas da casa.
Silvetty Montilla e José Victor no futebol das drags, quando estrelas da casa se apresentam na rua, em plena luz do dia
Lima Dezenove
Constelação
Naquela primeira noite de 1996 se apresentaram Pandora Boat, Grace Black, Georgia, Zuraio, Talita De La Costa, Natasha Rasha e Victoria Principal – que tem espaço na Blue até hoje.
Silvetty Montilla chegou ainda no primeiro ano e se tornou a “cara” da Blue, mesmo trabalhando em praticamente todas as casas de São Paulo.
Ainda é ensurdecedor estar no local quando ela surge no palco. Depois de ovacioná-la, a plateia canta um famoso jingle de comercial dos anos 80, cuja paródia foi o primeiro trabalho dela na boate: “De leste a oeste, de norte a sul…”.
Com seus 33 anos de noite, Silvetty Montilla virou a cara da Blue Space, mesmo trabalhando em praticamente todas as casas de SP durante a longa carreira
Cassio Sampaio
Além de apresentar os shows e interagir com a o público, Silvetty eventualmente participa dos quadros de humor com um time que está junto há pelo menos 10 anos: Thália Bombinha, Michelly Summer e Valenttini, que escreve os roteiros sabendo que tudo pode mudar porque as artistas adoram improvisar.
A comédia é o carro-chefe dos domingos, quando o público da Blue é mais variado.
“Esse time, naturalmente, se tornou ‘os Trapalhões’: Thália é o (humor) físico. Michelly usa a voz. Silvetty fala que é rica, mas a gente sabe que é ‘penosa'”, descreve Valenttini, responsável pelos roteiros. “Eu sou a escada delas. Sempre escrevi para elas não me importando em brilhar.”
Drags humoristas da Blue brincam com tudo… já teve até paródia do ‘Mais você’
Lima Dezenove
Os próximos 25 anos
Victor nunca imaginou que a casa chegaria aos 25 anos.
“As casas noturnas, de uma forma geral, nunca duravam mais que 5 anos”, conta o dono. “Quando chegou nos 10, eu não acreditava. Nos 15, desacreditei. Nos 20, quase morri.”
“A Nany (People) diz que eu administro um hospício”, resume.
Se os bastidores são frenéticos, na plateia é tudo mais tranquilo. “Eu oriento os seguranças: o público aqui é diferenciado, não tem briga, você não é autoridade. Briga só se for de namorado”, diz o proprietário.
Se alguém fica chateado, pode chegar na chapelaria e bater um papo com Robertinha da Blue, que cuida do local há quase 20 anos. “Às vezes a gente também é psicóloga”, brinca.
Com 19 funcionários com carteira assinada e sem saber quando vai pode reabrir, a boate vive a incerteza do futuro. “Não é barato fazer show”, destaca o dono.
Foi de Silvetty a ideia de fazer uma live pelos 25 anos, para “por um sorriso na cara do Victor e não passar em branco”, conta ela. A transmissão ainda não tem data para acontecer. “Seremos os últimos a voltar (a funcionar, após a pandemia).”
Silvetty Montilla comanda a noite e o público há 3 décadas
Lima Soares
Além do desafio financeiro, a equipe sabe que os próximos anos vão trazer ainda mais desafios.
“A cada 5 anos, em qualquer lugar, o público se renova. O da Blue já se renovou 5 vezes (…). Esse público de agora é um dos mais difíceis que a gente vai enfrentar”, acredita o diretor artístico, Vagner Cavalcante.
“A pandemia traz o ‘eu não quero pagar, mas quero coisa boa’. (O público) Já tem tudo na mão, através do celular. Então, só vou para uma casa noturna se tiver um motivo muito bom.”
Bate-cabelo, teatro, comédia… veja as diversas facetas desses 25 anos:
Danny Cowlt passeia pelo público na bola, no réveillon de 2017
Lima Soares
Marcia Pantera dá um ‘mosh’ na Festa Priscilla, na Blue Space
Jéssica Dalla Torre
Antara Gold
Lima Soares
Penelopy Jean performa música de Lady Gaga na Blue Space
Lima Dezenove
O circo foi o tema da festa de aniversário em 2019
Lima Dezenove
Futebol das drags em 2018
Lima Dezenove
O elenco de 2020 comemorando os 24 anos da Blue Space
Calaguar/Arthur Viana
Valenttini e Stefany di Bourbon
Cassio Sampaio
Stripperella
Lima Dezenove
Ikaro Kadoshi em performance em 2018
Lima Dezenove
Marcinha
Lima Soares
A Frozen de Thália Bombina, estrela do humor da Blue Space
Lima Soares
Alexia Twister e o bailarino Paulo Lyra performam “Try”, da cantora Pink
Lima Dezenove
Público da Blue Space na virada de 2013 para 2014, no Réveillon dos Anjos
Adailton Soares
Lady Gaga de Penelopy Jean ‘voando’ a la Superbowl, em 2017
Lima Soares
Ikaro Kadoshi, Alexia Twister e balé no aniversário de 22 anos da Blue Space
Lima Dezenove
Danny Cowlt e balé
Lima Dezenove
O time de humor da Blue Space como Família Addams, no Halloween
Lima Dezenove
Número de Ikaro Kadoshi com a música ‘Geni’, de Chico Buarque, lembrou a violência contra transexuais em 2019
Lima Dezenove
Danny Cowlt virou o gênio de Aladdin em “Uma noite em Hollywood”, em 2019
Aleh Fotografia
Hidra e Musa Von Carter fazem paródia do filme “As branquelas”
Lima Dezenove
Halessia na matinê de domingo, em 2019
Lima Dezenove
Tributo a Whitney Houston, com dublagens de Layla Ken, Hidra Von Carter e Leyllah Diva Black, em 2016
Lima Soares
Marcia Pantera bate cabelo na Blue Space em 2018
Cassio Sampaio
Silvetty Montilla e José Victor, dono da Blue Space
Lima Soares