Cantora sul-africana fala da prisão no Brasil: “É como não existir”

Nduduzo luta para permanecer no Brasil

Nduduzo luta para permanecer no Brasil
Reprodução/Facebook

Nas entranhas do centro, ao lado de um viaduto, está o galpão fechado do Espaço Cia. do Pássaro, em São Paulo. Quem me recebe no portão é a sul-africana, Nduduzo Godensia Dlamini, 30 anos, uma mulher negra, com um belo sorriso e bem cuidados cabelos rastafari.

Ela faz as vezes de anfitriã. Entramos os dois no local e lá me deparo com uma grande quantidade de trajes típicos de mulheres: máscaras, chapéus, perucas, roupas, elegantes, festivas, coloridas, de seda e aventais.

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Nduduzu, nascida em Kwazulu Natal, a cerca de 580 km de Joanesburgo, se tornou uma frequentadora do local após descobrir na prisão o dom da música. Foi detida em 24 de setembro de 2013, em São Paulo, após uma abrupta decisão de deixar por um tempo seu país, sua família, seu noivo e sua empresa, para refletir sobre a vida. Casar ou não? Ter filhos ou prosseguir em sua trajetória profissional, que a manteve em uma situação confortável em seu país?

Ficou por apenas oito dias no Brasil, país que escolheu por considerar mais acessível. Ficou em São Paulo e, ao chegar ao aeroporto para a viagem de volta, a polícia federal encontrou drogas em pacotes que ela havia recebido de um fornecedor, a pedido de uma amiga da África do Sul. Nduduzo diz que foi ingênua ao aceitar trazer o produto, pensando serem apenas caixas com perfumes. E afirma ter sido feito o papel de “mula” involuntária.

— Minha família só ficou sabendo que eu fui presa três meses depois. Ninguém sabia onde eu estava. Na hora da prisão foi um choque enorme, eu nem falava português, entendi que estava sendo presa e que iria ficar entre 15 e 25 anos na PFC (Penitenciária Feminina da Capital, no Carandiru).

Sem advogado, ela via o tempo passar e percebia que sua situação não mudava. Nenhuma chance de defesa, nenhuma possibilidade de argumentar em seu favor. Navegava no convívio dos pavilhões, na incerteza em relação ao futuro, com sua alma boiando entre o melhor e o pior do ser humano, conhecendo na prisão a essência do Brasil e do mundo.

Pânico e emoção

Foi um dramático aprendizado. Ela frequentou a biblioteca, fez questão de aprender dezenas de idiomas (“não desisto nunca”), buscou ocupar o tempo de forma construtiva. Foi alvo de hostilidades, mas também de muita amizade, em meio à sensação terrível de estar presa naquele local: “é como não existir, você é apenas um número”.

Por outro lado, nunca lhe trataram com tanta solidariedade como nesse tempo aprisionada. Percebeu isso logo que chegou.

— No primeiro dia, eu não tinha absolutamente nada. Só as roupas do corpo. Entrei na cela e havia duas mulheres de Guiné-Bissau. Uma delas levantou o olhar e me perguntou, nem lembro como, de onde eu era. De algum jeito ficou sabendo que eu era da África do Sul. Se levantou, foi até a portinhola e gritou: “Ela é da África do Sul”.

Então, veio a emoção maior, ecoando no pavilhão:

— Um urro geral de solidariedade vinha das outras celas, gritavam, falavam que iriam me ajudar, para eu não ter medo. Havia muitas sul-africanas também. Logo depois, os gritos pararam, eu peguei minha coberta e dormi no chão. Entrei em pânico, até hoje lembro a sensação. Mas quando acordei, essas mulheres que eu nem conhecia tinham me deixado bolo e blusas de frio para me ajudar. Aquilo me tocou tanto que hoje dou esta entrevista por elas, para que olhem para elas.

Mas não foram poucos os dramas sofridos por ela naquele local. Havia acolhimento mas também um tipo de inveja.

— Sofri também humilhações e fofocas na prisão apenas por repetir que não tomei a decisão de traficar, isso era visto como uma mensagem de que eu era melhor do que quem estava lá.

Na prisão ela se conectou com o mundo lá fora ao trabalhar na cozinha. As notícias vindas de fora e as palavras estavam mais presentes. Saber o que é laranja, feijão, panela, em português, só conseguiu lá.

E também descobriu o canto. Entre suas irmãs na África, Nduduzu diz que se sentia inferiorizada nessa área. “Nunca me vi capaz. Elas cantavam e brincavam, dizendo que era melhor eu assistir”. Mas, em uma oração na penitenciária, o grupo sugeriu que ela cantasse “Be still, and know that I am a God” (“Acalme-se e saiba que sou seu Deus”).

— Fechei meus olhos e cantei. Quando abri, vi muita gente chorando, foi um momento mágico. Vi que as pessoas queriam acreditar em algo.

A partir de então, até mesmo as policiais do local a respeitaram mais. Uma delas abriu a portinhola e a elogiou. Chegou a agradecê-la pelo momento. E ela se tornou célebre, a ponto de cantar em uma cerimônia com a presença de autoridades. Começou a frequentar aulas de canto, com a professora Carmina Juarez, e adentrou para a ala artística da penitenciária.

Depois de mais de dois anos, conseguiu um advogado com a ajuda da professora e acabou indo para o regime semiaberto, na Penitenciária Feminina do Butantã. Lá, foram nove meses de uma espécie de estagnação.

— É mais fechado do que o regime fechado. É uma ilusão, não é fácil encontrar emprego. É uma outra cadeia, só que a tranca é às 22h em vez de às 18h. É um local que destrói o lado psicológico, com apenas um banheiro para 24 pessoas, sem privacidade.

E mesmo depois de uma apelação do promotor ter aumentado sua pena, de 6 anos e 22 dias para 9 anos e 9 meses, por ela ter muitas viagens no passaporte (foi aeromoça), ela conseguiu reduzir a permanência, em função de suas atividades, obtendo a liberdade condicional em 17 de março de 2017.

Projeto cultural

Desde então, ajudada também pela professora Carmina, faz parte de um projeto artístico na USP, hospedada em um hotel, com ajuda de ONGs, ela atua na peça “Em último canto, em último pranto, pelos anjos caídos”. Nessa atividade Nduduzo finalmente se encontrou. Por isso, ela luta contra sua expulsão do país, cuja ordem foi expedida recentemente.

O argumento de sua defesa é o de que ela está em um processo de recuperação e reintegração, contribuindo com a sociedade. E se sentindo com a responsabilidade de falar por todas as mulheres que são oprimidas nas penitenciárias, também sem advogados, com penas prolongadas e poucas chances de recuperação.

Nduduzu foi condenada por tráfico privilegiado, quando o acusado é réu primário, não se dedica a atividades criminosas e nem integra organizações clandestinas. Sua afirmação de que é inocente rendeu hostilidades na prisão. Isso poderá servir como um atenuante para sua permanência. Segundo advogado inteirado do caso, Nduduzo recebeu uma intimação e um decreto de expulsão.

Ele explica que a política imigratória utiliza a extradição, a expulsão e a deportação em casos de tráfico. Em relação à Nududuzo, optou-se pela expulsão porque, mesmo dentro da nova lei de imigração, foi mantido artigo que permite expulsar o imigrante que tenha cometido algum tipo de crime. Por outro lado, na nova legislação existe também uma novidade, que é o direito de ressocialização.

À espera de uma decisão do Ministério da Justiça, há 1 ano e três meses, ela acredita que finalmente encontrou seu caminho. Sua meta não é se afastar para sempre da África do Sul, onde tem família e amigos. Há até campanha no Facebook pela sua permanência:#nduduzotemvoz – uma chance para a cantora sul-africana Nduduzo continuar no Brasil.

Ela apenas quer permanecer no Brasil para seguir no que ela considera uma missão. Afinal, seu estilo de cantar, elogiado por especialistas, e sua mensagem se diluirão na África do Sul, onde essa atividade é mais comum. Além disso ela dá aulas de dança zulu.

— Tenho a possibilidade de transmitir essa cultura para o Brasil. Aqui no Brasil, com isso, tenho a possibilidade de ajudar mulheres que saem da prisão sem ter para onde ir, ou até aquelas que buscam um sentido na vida. Também posso ajudar as mulheres negras, que ainda passam por discriminação. Quero tocar as pessoas com meu trabalho para ser um estímulo, um motivo para acreditarem. Na África do Sul não terei a oportunidade.

As mulheres que Nduduzo quer tocar são muitas. No Brasil e no mundo, migrantes e, principalmente mulheres, têm sido vítimas de tráfico de pessoas, de drogas, muitas vezes como uma forma de sobrevivência e acabam sendo presos em aeroportos e fronteiras, sem nenhuma estrutura de defesa. É um sofrimento a mais em relação às mulheres, além daquelas já conhecidas.

Essas mulheres estão em todo o lugar, espalhadas pelo país, na rotina silenciosa que muitas vezes esconde a angústia. Elas podem ser prisioneiras, mas também empresárias, dançarinas, cantoras, empregadas domésticas, donas de casa, vendedoras, professoras e assim por diante. Para seguir em frente, muitas têm de sonhar, por meio de máscaras, chapéus, perucas, roupas elegantes, roupas festivas, coloridas, de seda e aventais. Os trajes pendurados no galpão que acolhe Nduduzo, portanto, também falam por elas. Ou melhor, cantam.

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