Canto de Gal Costa ‘abre fendas, cobre vales’ e dissipa nuvens de fumaça em live com tributo a Rita Lee


Gal Costa apaga a má impressão do show anterior de 2020 com a bela live feita no Teatro Bradesco
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Resenha de live show
Título: #galcostanoteatrobradesco
Artista: Gal Costa
Local: Teatro Bradesco (São Paulo, SP)
Data: 28 de maio de 2021, de 20h às 21h10m
Cotação: * * * * 1/2
♪ “Passa nuvem negra / Larga o dia / E vê se leva o mal / Que me arrasou”, pediu Gal Costa através dos nervos de Nuvem negra (1993), música que abriu o roteiro da segunda live da cantora, transmitida ao vivo do palco do Teatro Bradesco, na cidade de São Paulo (SP), na noite de sábado, 28 de maio.
Apresentada por Gal no álbum O sorriso do gato de Alice (1993), a balada deprê de Djavan faz súplica que se adequa ao momento sombrio por que passa o mundo desde 2020. Contudo, no universo particular de Gal, os versos da canção também podem ser interpretados como pedido para que passassem as nuvens de fumaça que encobriram e arrasaram a artista na live anterior de 2020, pautada por direção invasiva da cineasta Laís Bodanzky que desorientou a cantora em cena.
Nesse sentido, a segunda live de Gal cumpriu a expectativa e levou a má impressão da apresentação virtual de 26 de setembro. Com uma hora e dez minutos, o segundo show de Gal pela internet transcorreu sem erros, ainda que a apresentação tenha se encerrado de forma abrupta com um “ufa!” soltado pela cantora ao fim do rock-samba Brasil (Cazuza, George Israel e Nilo Romero, 1988) – número em que o músico Victor Cabral fez o Carnaval na bateria.
Estreante na banda de Gal, Victor Cabral integrou o trio arregimentado pelo diretor artístico Marcus Preto e formado por Cabral com o guitarrista Guilherme Monteiro – partner de Gal no show Espelho d’água (2014) – e do baixista Fábio Sá.
Com toque contemporâneo, o trio renovou músicas antigas e sustentou a pegada roqueira de Bem-me-quer (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1980), grande surpresa do roteiro ao lado de Nuvem negra. Gal já havia cantado Bem-me-quer com Rita Lee em eventos especiais, mas nunca registrou em disco a música, incluída no show como homenagem a Rita, que enfrenta recém-descoberto câncer de pulmão.
Gal Costa em live no Teatro Bradesco com os músicos Fábio Sá (à esquerda), Guilherme Monteiro e Victor Cabral (bateria)
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Dedicado por Gal às mulheres, o show se descolou do recém-lançado álbum Nenhuma dor (2021), ainda que algumas músicas do repertório deste disco revisionista tenham naturalmente aparecido no roteiro, como a canção tropicalista Baby (Caetano Veloso, 1968) – de bossa realçada pelo afiado trio do show – e o samba-canção Só louco (Dorival Caymmi, 1955).
Para os atuais padrões vocais da artista de 75 anos, o canto de Gal estava tinindo, o que ficou constatado logo no alcance das notas da segunda música do roteiro, O amor (Caetano Veloso sobre versos de Vladimir Maiakovski traduzidos para o português por Ney Costa Santos, 1981).
A canção O amor foi apresentada por Gal no mesmo álbum, Fantasia (1981), em que a cantora regravou Dom de iludir (Caetano Veloso, 1977) e deu voz a uma das mais belas baladas de Djavan, Faltando um pedaço (1981), outra boa surpresa de roteiro.
E, para citar versos dessa canção, ficou claro que a voz luminosa de Gal “abre fendas e cobre vales” quando veio o bloco político do show, com direito a discurso da cantora sobre a atualidade do repertório que cantava no show Gal a todo vapor (1971 / 1972).
“ […] É inadmissível que hoje, 50 anos depois (do período mais tenebroso da ditadura), a gente volte a precisar dessa mesma força. Mas força a gente tem e a gente arruma. E não há de haver quem nos derrube”, bradou a artista, mandando recado sem dar nome ao boi.
Foi a deixa para que Gal relembrasse músicas engajadas do naipe de Como 2 e 2 (Caetano Veloso, 1971) – apresentada pela cantora no mencionado show Gal a todo vapor em que também lançou a balada blue Pérola negra (Luiz Melodia, 1971) – e Divino maravilhoso (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1968), marco de festival em que a Gracinha bossa-novista deu lugar à cantora janisjopliana que se transformaria na musa da contracultura nacional de 1969 a 1973.
Essa musa sempre soube sintonizar todas as estações musicais, como Gal reiterou ao cantar Quando você olha para ela (2015) – samba que ganhou de Mallu Magalhães e que reviveu na live com suingue de samba-rock devoto de São Jorge Ben Jor – e ao desfiar os femininos enredos amorosos do cancioneiro de Chico Buarque, compositor de Mil perdões (1983) e do bolero Folhetim (1978).
Música apresentada no álbum Baby Gal (1983), Mil perdões foi mais uma agradável surpresa do roteiro de live em que, bem dirigida por Marcus Preto (sábio para impedir qualquer interferência que empanasse o brilho do canto da artista), Gal Costa abriu fendas no endurecido Brasil de 2021 e dissipou nuvens e cortinas de fumaça que, na live anterior, tentaram disputar espaço com a voz soberana da artista.
Em ótima forma vocal, Gal Costa canta 17 músicas em live no Teatro Bradesco
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♪ Eis o roteiro seguido em 28 de maio por Gal Costa em show transmitido ao vivo do palco do Teatro Bradesco na cidade de São Paulo (SP):
1. Nuvem negra (Djavan, 1993)
2. O amor (Caetano Veloso sobre versos de Vladimir Maiakovski traduzidos para o português por Ney Costa Santos, 1981)
3. Faltando um pedaço (Djavan, 1981)
4. Bem me quer (Rita Lee e Roberto de Carvalho, 1980)
5. Quando você olha para ela (Mallu Magalhães, 2015)
6. Tigresa (Caetano Veloso, 1977)
7. Mil perdões (Chico Buarque, 1983)
8. Folhetim (Chico Buarque, 1978)
9. Dom de iludir (Caetano Veloso, 1977)
10. Negro amor (It’s all over now, baby blue, Bob Dylan, 1965, em versão em português de Caetano Veloso e Péricles Cavalcanti, 1977)
11. Só louco (Dorival Caymmi, 1955)
12. Baby (Caetano Veloso, 1968)
13. Como 2 e 2 (Caetano Veloso, 1971)
14. Pérola negra (Luiz Melodia, 1971)
15. Vapor barato (Jards Macalé e Waly Salomão, 1971)
16. Divino maravilhoso (Caetano Veloso e Gilberto Gil, 1968)
17. Brasil (Cazuza, George Israel e Nilo Romero, 1985)