Caetano Veloso e Chico Buarque se irmanam no culto ao samba como alívio no ‘tempo feio’ do Brasil


Afinidades temáticas entre ‘Sem samba não dá’ e ‘Que tal um samba?’ contrastam com diferenças entre as batidas das gravações das músicas dos artistas, pilares da MPB projetada nos anos 1960. ♪ ANÁLISE – Assim que foi revelada a letra de Que tal um samba?, música inédita lançada por Chico Buarque em single disponibilizado nesta sexta-feira, 16 de junho, internautas fizeram imediata conexão da letra com os versos de Sem samba não dá (2021), samba apresentado por Caetano Veloso no álbum Meu coco (2021).
Só que, desta vez, sem tentar forjar boba e inexistente rivalidade entre os dois fenomenais compositores, como era praxe nos inflamados anos 1960, mas ressaltando a convergência e a afinidade dos temas dos dois sambas.
Ambos apontam o samba como o antídoto para encarar com sopro de esperança o “tempo feio” mencionado na letra de Chico. “Tudo esquisito, tudo muito errado / Mas a gente chega lá”, acredita Caetano, que, na letra do samba Meu coco, sentencia que “Tudo embuarcará na arca de Zumbi e Zabé”.
Em Que tal um samba?, Chico também caetaneia com versos que aludem à formosura de Beleza pura (1979), ijexá lançado pelo compositor baiano no álbum Cinema transcendental (1979).
Se Caetano e Chico se unem nas referências carinhosas de um ao outro e na louvação do samba “pra zerar o jogo”, como vislumbra Chico, os artistas bifurcam-se na escolha da batida do samba.
Se Caetano se escorou em coro e no infalível e refinado arsenal percussivo (tantan, surdo, pandeiro, repique de anel, ganzá, caixa, repinique, tamborim, reco-reco, agogô, cuíca e apito) de Pretinho da Serinha para dar ao samba um tom caloroso, extrovertido, na gravação feita com produção musical orquestrada pelo próprio Caetano com o jovem Lucas Nunes, Chico optou por arranjo mais contido que transita entre as cadências do samba e do choro, evidenciando o toque luminoso de bandolim de Hamilton de Holanda, convidado da faixa.
A produção musical do violonista Luiz Cláudio Ramos ostenta o requinte harmônico já recorrente na discografia recente de Chico, mas na linha contrária do que se espera de um samba arrasta-povo como Apesar de você (1970), samba de Chico com o qual Que tal um samba? se afina pela espetada política embutida na gênese de ambos.
Fiel à personalidade musical construída por Chico a partir do álbum Paratodos (1993), o single Que tal um samba? corteja o séquito de Chico, já devidamente conquistado pelo samba, como se observou nas redes sociais, ao longo desta sexta-feira, através de reações entusiasmadas de cantores, músicos e de (boa parte) dos seguidores do artista.
Pode ser que o samba ainda vá cumprir o seu ideal popular se for para a rua com o baticum de um grupo folião como o Monobloco, para citar somente um exemplo de possibilidade para Que tal um samba?.
Por ora, tudo está no lugar já esperado por quem conhece os caminhos seguidos por Chico Buarque nos últimos anos. Assim como Sem samba não dá transmite os sinais atuais da sempre ligada antena de Caetano Veloso.
E o fato é que, sem esses dois gênios da MPB projetada nos anos 1960, é que não dá mesmo para encarar o tempo feio do Brasil e ir à luta…