Caetano Veloso dá voz às dores e delícias do Brasil em live com filhos e tributo a Moraes Moreira


O samba ‘Coisa acesa’ e o samba-choro ‘Diamante verdadeiro’ foram surpresas do roteiro do show transmitido pela plataforma Globoplay no dia em que o artista fez 78 anos. Caetano Veloso na live transmitida pelo Globoplay na noite de sexta-feira, 7 de agosto
Reprodução / Vídeo
Resenha de live
Título: Caetano no Globoplay
Artista: Caetano Veloso – com os filhos Moreno Veloso, Tom Veloso e Zeca Veloso
Data: 7 de agosto de 2020, das 21h30m às 23h
Cotação solidária: * * * * *
♪ Foi sintomático que Caetano Veloso tenha aberto a primeira live da carreira com Milagres do povo (1985), música que compôs para a trilha sonora da minissérie Tenda dos milagres (TV Globo, 1985), baseada no homônimo romance lançado em 1969 pelo escritor baiano Jorge Amado (1912 – 2001).
Ao celebrar o povo negro que se ergueu além da dor da escravidão, descobrindo a crueldade do Brasil e pairando além da história com a força da pé, o compositor sintetizou na letra o milagre de um país que sobrevive pela garra de um povo prodigioso cuja luz tenta ofuscar as sombras cotidianas.
De Milagres do povo ao samba de roda How beautiful could a being be (Moreno Veloso, 1997), apresentado no encerramento do show transmitido com exclusividade pela plataforma Globoplay das 21h30m às 23h da noite de 7 de agosto de 2020, dia do 78º aniversário de Caetano, o cantor seguiu roteiro em que, acompanhando-se ao violão, deu voz às dores e delícias desse Brasil de contrastes.
Sob a direção de Boninho, o artista se apresentou com os filhos músicos Moreno Veloso, Tom Veloso e Zeca Veloso na sala da casa em que está confinado desde março na cidade do Rio de Janeiro (RJ).
A formação, a disposição do quarteto em cena e o clima familiar – acentuado pelos comentários informais feitos pelos artistas entre os números – reproduziram o molde do show Ofertório (2017 / 2019), mas a primeira aguardada live de Caetano Veloso seguiu roteiro distinto, com direito a novidades na voz do cantor, como as músicas Pardo (2019) e Talvez (2020).
Inesperado, embora tenha sido gravado por Caetano há dez anos, o iluminado samba Coisa acesa (1982) foi cantado para celebrar a vida e a obra de Moraes Moreira (1947 – 2020), parceiro de Fausto Nilo nesse samba cuja letra – escrita pelo Nilo, poeta cearense – evoca nome (Chega nego) de praia de Salvador (BA), como sublinhou o intérprete na live.
A luz de Moraes Moreira foi uma das delícias do roteiro assim como a negritude louvada em Pardo (2019), música em que o poeta fala do sexo à flor da pele preta. Inédita na voz de Caetano, a música – oferecida pelo compositor a Céu para o quinto álbum de estúdio da cantora, APKÁ! (2019) – ganhou mais cor e calor no registro do autor.
Entre a exposição verborrágica de Podres poderes (1984), denúncia de dores ainda tão presentes no Brasil de 2020, e o discurso em favor da preservação de vidas e territórios indígenas, feito antes do canto de Luz do sol (1982) e de Um índio (1976), Caetano pegou Trilhos urbanos (1979) e seguiu pela via que o conduz habitualmente à cidade natal de Santo Amaro da Purificação (BA), eterno norte e porto seguro da obra do artista.
Santo Amaro foi a terra que inspirou Caetano a pôr na roda o samba Reconvexo (1989), de ritmo marcado nas palmas e no prato e faca percutidos por Moreno (tal como fizera em Pardo). Reconvexo é samba de roda moldado para a teatralidade de Maria Bethânia, intérprete original (e definitiva) dessa composição e também do lapidar samba-choro Diamante verdadeiro (Caetano Veloso e Waly Salomão, 1978), tema raro e inesperado na voz do artista.
Caetano comandou o show, mas cada um dos três filhos – de talentos musicais já comprovados – teve momentos de (co)protagonismo na live. Tom Veloso fez dueto com o pai em Talvez (2020), samba-canção de aura vintage em que assina a letra, escrita sobre melodia de Cezer Mendes. O dueto de pai e filho em Talvez está disponível em single lançado na sexta-feira, 7 de agosto, dia em que a live de Caetano deixou de ser lenda para virar realidade.
Zeca Veloso lançou mão do falsete para solar Todo homem (2017), canção de autoria do próprio Zeca que ajudou a puxar o cordão umbilical que amarrou o conceito do já mencionado show Ofertório. Já Moreno, que fez o contracanto da canção O homem velho (1984), fez a primeira voz de Sertão (1998), parceria com o pai lançada na voz da madrinha Gal Costa. Caetano fez a segunda voz.
Solo, Caetano se acompanhou ao violão em Nu com a minha música (1981), vislumbrando mais uma vez uma trilha clara para o Brasil, apesar da dor.
Nessa trilha, a louvação da dura poesia concreta das esquinas de São Paulo (SP), uma das paisagens da canção Sampa (1978), pode bem ter simbolizado vertigem visionária, suavizada pela poesia realmente concreta do poema-partitura Pulsar (Caetano Veloso sobre versos de Augusto de Campos, 1979), cantado a seguir, no link mais sagaz do roteiro.
É que, aos 78 anos, o soberano coração de Caetano Emanuel Viana Teles Veloso ainda é capaz de sentir e operar milagres entre as dores e as delícias do Brasil.