Caetano Brasil: músico de Juiz de Fora indicado ao Grammy lança nova canção; confira entrevista


O clarinetista, saxofonista e compositor conversou com G1 sobre o novo projeto, a indicação ao Grammy Latino e sobre não pretender ir embora da cidade natal. Conheça Caetano Brasil, músico juiz-forano indicado ao Grammy Latino
Igor Tibiriçá/Divulgação
O clarinetista, saxofonista e compositor juiz-forano Caetano Brasil lançou no dia 10 de setembro a nova faixa “Carinhoso” – uma recriação do clássico de Pixinguinha. A obra antecipa o terceiro álbum de estúdio do artista: “Pixinverso – Infinito Pixinguinha”.
Indicado ao Grammy Latino em 2020, pelo disco “Cartografias”, Caetano mora e não pretende se mudar de Juiz de Fora: “eu acredito muito na potência desta terra e ela também vem acreditando na minha, ao que parece”, afirmou em entrevista ao G1. Confira abaixo a conversa completa com o músico, que explica um pouco mais sobre o novo projeto, fala sobre seu amor a Juiz de Fora e o valor de uma indicação ao Grammy Latino.
Pixinverso – Infinito Pixinguinha
O álbum tem previsão de lançamento para março de 2022, e vai ser uma homenagem à Pixinguinha, se dividindo em músicas que fazem parte do cancioneiro popular e faixas mais desconhecidas do grande público.
A ideia do projeto é unir o choro, o jazz contemporâneo e a “world music”, ou seja, músicas tradicionais de uma determinada cultura.
Capa da faixa ‘Carinhoso’, de Caetano Brasil
Build Up Media/Divulgação
Sobre a faixa “Carinhoso”, Caetano explica que o objetivo foi “fazer compreender a melodia e que todo mundo entendesse do que se tratava logo de cara (…), mas, ao mesmo tempo, colocar quem ouve pra pensar: ‘Carinhoso tá diferente…’”.
A canção do juiz-forano foi livremente inspirada na versão para piano solo de Radamés Gnattali do concerto “Pixinguinha 70”.
“Em alguns momentos desta música tocamos simultaneamente em tons diferentes – coisa que foi bem explorada na música moderna do século XX – e no final, criei especialmente para esta versão, uma sessão de improvisação em que nós quatro [da minha banda] improvisamos juntos. Gravamos, como de costume com esta minha banda, todos tocando ao mesmo tempo, ouvindo uns aos outros e criando na hora. Adoro esta energia que esse ‘ao vivo’ proporciona”, conta Caetano Brasil.
Ouça “Carinhoso” de Caetano Brasil em todas as plataformas de streaming.
‘Caótico, cibernético e apressado’
G1 – Fale um pouco sobre seu projeto atual, “Pixinverso – Infinito Pixinguinha”
Caetano Brasil – Pixinverso é um mergulho na obra do mestre maior Pixinguinha, de quem eu toco composições desde a infância, quando comecei a tocar choro. E muitos de seus temas já são tão parte de mim, da minha história que hoje, depois de visitar muitas linguagens musicais, eu sinto que posso oferecer a quem me ouve um olhar particular sobre este repertório tão generoso, que me permite tanto. Pixinverso exalta o símbolo que é Pixinguinha, para além do homem e do gênio: um preto do século XX que fez encontrar o terreiro com as grandes salas de concerto e dividiu a música brasileira num antes e depois. Neste projeto eu busco a conexão desse Brasil tão verdadeiro de Pixinguinha com o meu espaço e o meu tempo: caótico, cibernético e apressado.
G1 – Por que decidiu seguir esse caminho no seu terceiro trabalho?
Caetano Brasil – Primeiro porque fiz dois álbuns autorais em sequência: o “Caetano Brasil” (2015) e o “Cartografias” (2019), este, inclusive, que nos deu a alegria de uma indicação ao Grammy Latino no ano passado. Quero agora mostrar minha assinatura como arranjador em Pixinverso. E quando interfiro em temas tão cativos do público como “Carinhoso”, penso que abro um canal estreito de comunicação entre minha mensagem e o ouvinte. E esta mensagem seria o segundo motivo. Eu acredito que lembrar Pixinguinha, lembrar que nossas raízes sobrevivem, mesmo sufocadas nesse mar de lama em que estamos vivendo, é o caminho para gente se entender como povo e inventar um futuro diferente. Eu de fato acredito que Pixinverso é necessário.
G1 – Por que a escolha de “Carinhoso” como primeira música de divulgação do projeto?
Caetano Brasil – Bom, “Carinhoso” é um clássico imortal, aquela música que passa de geração em geração e quase todo mundo já ouviu ou até sabe cantar um trecho da letra. Talvez seja ela uma boa síntese deste Brasil de Pixinguinha que falo. Um Brasil onde nos importa a história, nos importa a representatividade, nos importa o sentimento e nos importa ouvir o outro. Ouvir e cantar ou tocar junto, como numa roda de choro. Um projeto só de músicas do Pixinguinha jamais poderia deixar de fora esta canção, que, na minha versão, vem influenciada por ritmos afro-latinos, a música de Radamés Gnattali e John Coltrane. Começar com este choro tão ecumênico é bom prenúncio do que o público pode esperar dos próximos lançamentos.
G1 – Como o processo de produção desse terceiro álbum se diferencia dos lançados anteriormente? Esse também foi lançado de forma independente?
Caetano Brasil – Só por estar sendo desenvolvido no meio de uma pandemia, o processo é outro. O tempo é outro. E é preciso entender a realidade e dialogar com ela. Se brigar, dá ruim! Estamos – eu e os músicos que tocam comigo (Adalberto Silva – baixo, Guilherme Veroneze – piano, Gladston Vieira – bateria) – naturalmente nos encontrando menos e sem os shows para colocar o repertório na estrada, como fizemos na gravação dos discos anteriores. Mas nem por isso nos dedicando menos. Pelo contrário, aliás! Escrevo as partituras para todo mundo e cada um, com sua musicalidade e competência, torna possível a realização deste trabalho. Trabalho este que, sim, nasce de maneira independente, com o suor de muitas mãos que acreditam no que tenho pra dizer. E do meu público, que me ajuda a manter a criação de conteúdo na internet através de uma campanha de financiamento continuado.
G1 – Já há previsão para o lançamento do álbum completo? Ainda serão lançadas outras faixas antes?
Caetano Brasil – Sim. O álbum “Pixinverso – Infinito Pixinguinha” está previsto para março de 2022. Até lá, seguem o “Carinhoso” mais dois singles. O próximo é a bem menos conhecida “Canção da Odalisca”, que chega aos aplicativos de música dia 12 de novembro. Nesta faixa, fui a fundo no flerte com a música oriental, já proposto por Pixinguinha na melodia original da música, me valendo das pesquisas que eu já vinha fazendo na produção do meu álbum anterior.
Natural de Juiz de Fora, Caetano não pretende se mudar da cidade
Igor Tibiriçá/Divulgação
‘Minha arte é livre, ela voa’
G1 – Você é natural de Juiz de Fora ou nasceu em outro município?
Caetano Brasil – Sim, sou nascido e criado em Juiz de Fora.
G1 – Vi no seu site que seu primeiro álbum foi produzido com recursos do Programa Municipal Murilo Mendes (Lei de Incentivo à Cultura de Juiz de Fora). Qual a importância da cidade na sua vida e na sua carreira musical?
Caetano Brasil – Isso mesmo. “Caetano Brasil”, meu primeiro álbum, se realizou com verba deste Programa Cultural tão pioneiro e importante para o cenário artístico de Juiz de Fora. Aqui tem muita gente maravilhosa em todos os fazeres culturais. E, poxa, Juiz de Fora é minha casa. Eu gosto daqui, apesar de tudo o que é este interior com cara de caos. Eu acredito muito na potência desta terra e ela também vem acreditando na minha, ao que parece. Aqui toquei na noite, todo tipo de música que você possa imaginar, aprendi e aprendo muito sobre a vida e sobre ser artista. Aqui continuo a me formar músico e gente – um processo que não termina.
G1 – Você ainda mora em Juiz de Fora? Se sim, pensa em se mudar para buscar possíveis novas oportunidades?
Caetano Brasil – Esta é certamente a pergunta que mais me fizeram ao longo dos meus 11 anos de carreira. E sempre que eu respondo – “sim, moro em Juiz de Fora e não pretendo mudar daqui” – causo certo estranhamento. Eu acho que já deu de pensar que a grama do vizinho é mais verde, sabe? Há mais de 8 anos eu trabalho com o Ponto de Partido, grupo de teatro musical de Barbacena com quase meia década de história, e uma das coisas que mais me admira é como eles correm o mundo e sempre podem voltar pra lá. Fazer sucesso – o que é sucesso, aliás? – não depende dessa tal vitrine, do eixo Rio-São Paulo, creio. A vitrine que lute e olhe para dentro! O Brasil é muito mais que o Corcovado e a Paulista. Ainda mais quando tenho a internet, que me permite encontrar gente interessada na minha música. Minha arte é livre, ela voa. E poder estar aqui é também me interessar em transformar o meu entorno. Quem está aqui importa tanto quanto quem está lá. Acho que o que venho construindo e conquistando vem endossando esta possibilidade.
G1 – Ano passado, você foi indicado ao Grammy Latino. O que isso significa para você, como artista? Qual a sensação de ter esse tipo de reconhecimento?
Caetano Brasil – Esta indicação encheu a gente de alegria e é muito simbólica. Ver um álbum de música instrumental, autoral, produzido de forma independente, longe da tal vitrine, sendo eu um artista preto e LGBTQIA+ é, para mim, sinal de que esta voz, historicamente silenciada, está sendo ouvida, está dizendo para as pessoas. Eu nunca vou acreditar que foi sorte, porque toda a equipe envolvida na confecção do “Cartografias” é inquestionavelmente competente e pôr este álbum no mundo exigiu muita dedicação. Como você disse, é reconhecimento de um trabalho feito com muita verdade, com muita entrega.
G1 – O que mudou na sua carreira após essa indicação?
Caetano Brasil – Quando a gente recebe uma indicação deste porte, com este nível de reconhecimento público, novos olhares se voltam para o trabalho. Eu não faço música para ser premiado, para receber louros, mas quando acontece, isso abre portas para minha mensagem artística chegar a mais pessoas, para minha música ocupar novos lugares. Valor, o trabalho tem por si, mas ter esta indicação no currículo reitera pra mim a que propósitos eu estou conectado. Tem uma expressão em inglês que eu gosto “keep on, keeping on”, que é algo como “continua, segue firme”. Acho que é bem isso.
Acompanhe Caetano nas redes sociais
Igor Tibiriçá/Divulgação
Acompanhe Caetano Brasil nas redes sociais, onde o músico cria conteúdos que buscam aproximar o público da música instrumental:
“lá eu compartilho minhas vivências como artista independente, conto dos bastidores, trago novidades e informações que podem abrir um canal para que não está acostumado a ouvir este tipo de música chegar mais perto”, concluiu.
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