Bolsonaro tem recordes de destruição do meio ambiente, mas usa dados para enaltecer seu governo; entenda

Presidente destacou queda de 32% no desmate na Amazônia, mas não citou o aumento da destruição acumulada ao longo de sua gestão. Especialistas apontam ainda outros dados distorcidos sobre vegetação nativa e mais pontos. Dados citados pelo presidente Jair Bolsonaro sobre o meio ambiente durante o discurso na Organização das Nações Unidas (ONU) estão longe de traduzir a realidade ambiental e ignoram recordes e o avanço da destruição registrados sob a atual gestão.
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Abaixo, veja os principais pontos sobre meio ambiente abordados no discurso, e, na sequência, os principais marcos negativos do governo:
Agricultura sustentável
“Nossa moderna e sustentável agricultura de baixo carbono alimenta mais de 1 bilhão de pessoas no mundo e utiliza apenas 8% do território nacional”, disse Bolsonaro.
O percentual de aproximadamente 8% trata apenas das lavouras. Na visão dos ambientalistas, a defesa deste ponto é controversa porque ignora que o Brasil tem 245 milhões de hectares em uso agropecuário (o que inclui também áreas dedicadas ao gado), o que equivale a 29% do país, segundo dados do Projeto MapBiomas e do Atlas da Agropecuária Brasileira.
Especialistas ainda ressaltam que a agricultura brasileira não é referência em sustentabilidade: tem indicadores ruins de desigualdade, clima, pesticidas e manejo de fertilizantes. O Brasil é, por exemplo, o terceiro país com maior uso absoluto de agrotóxicos no mundo.
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Área de vegetação nativa
“São 8,5 milhões de quilômetros quadrados, dos quais 66% são vegetação nativa, a mesma desde o seu descobrimento, em 1500”, disse Jair Bolsonaro
Segundo os especialistas, o percentual não é correto. A análise do Mapbiomas aponta que que pelo menos 9% do total de 66% da atual cobertura vegetal é secundária – ou seja, são áreas que já foram desmatadas e voltaram a crescer. São áreas que, portanto, não foram preservadas. “Além disso, mais de 20 países possuem área com vegetação nativa maior que a do Brasil”, aponta a iniciativa Fakebook.eco, que analisa a desinformação ambiental com apoio de rede de ONGs.
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Amazônia intacta
“Somente no bioma amazônico, 84% da floresta está intacta, abrigando a maior biodiversidade do planeta”, disse Jair Bolsonaro
De acordo com o acompanhamento do Observatório do Clima, o dado não corresponde à realidade: “80% da Amazônia está preservada”. Se a análise considerar florestas secundárias, o percentual seria ainda menor.
“A diferença entre a alegação que o presidente apresenta e os dados oficiais é igual a quase o território da Inglaterra”, analisam as entidades ambientais.
Desmate na Amazônia
“Na Amazônia, tivemos uma redução de 32% do desmatamento no mês de agosto, quando comparado a agosto do ano anterior”, disse Bolsonaro
O número citado pelo presidente de fato ocorreu, 32% de queda entre agosto de 2020 para agosto deste ano. Se considerada a temporada inteira (2019/20 para 2020/21), a queda é de cerca de 5%. Os números consideram os dados gerados pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe).
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Entretanto, a queda ocorre após o desmatamento explodir no bioma e provocar até mesmo reação internacional. E números recentes apontam que a devastação persiste: neste ano, a Amazônia teve o primeiro semestre com a maior área sob alerta de desmate em 6 anos.
Por outro lado, em análise com metodologia diferente e maior resolução na leitura dos satélites, o desmate foi maior. Segundo dados do Sistema de Alerta de Desmatamento (SAD) Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônica (Imazon), foram desmatados 1.606 km² de floresta em agosto, o que equivale a cinco vezes o tamanho de Belo Horizonte e é 7% maior do que o registrado em agosto de 2020.
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No discurso, Bolsonaro também questionou, em tom retórico, “qual país do mundo tem uma política de preservação ambiental como a nossa?”.
Outros biomas também têm tido perdas com a política ambiental brasileira: no Cerrado, por exemplo, houve a maior área sob alerta de desmatamento para agosto desde 2018. O número de focos de incêndio – considerados os números de janeiro a agosto – foi o maior desde 2012.
No Pantanal, houve recorde de queimadas em 2020. Um levantamento divulgado neste mês aponta que 17 milhões de animais vertebrados morreram por causa das chamas no bioma no ano passado.
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Na Caatinga, até 1º de agosto, o número de focos de incêndio subiu 164% em relação a 2020. Foi o maior aumento nos pontos de fogo para todos os biomas brasileiros nesse período.
Energia renovável
“O Brasil já é um exemplo na geração de energia com 83% advinda de fontes renováveis”, disse Bolsonaro
Há dados do governo e ainda ao menos um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) que questionam essa afirmação. Analisando os dados de 2019, estudo do Ipea afirma: “De acordo com os dados, a matriz energética brasileira, em 2019, foi formada por 45% de fontes renováveis e 54% de fontes fósseis”.
Por sua vez, publicação de agosto do Ministério de Minas e Energia afirma que o total é próximo de 50%. “A matriz brasileira é uma das mais renováveis do mundo com uma proporção de 48%, indicador mais de três vezes superior ao mundial”, ressaltou o diretor do Departamento de Informações e Estudos Energéticos do Ministério de Minas e Energia (MME), André Osório, segundo nota do próprio governo.
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