Belchior ganha caixa indicada para quem traz na cabeça as canções do artista nos anos 1970


Dois discos menos ouvidos do cantor, de repertórios retrospectivos, são editados em CD no box ‘Paralelas’. Capa da caixa ‘Paralelas’, de Belchior
Divulgação / Warner Music
Resenha de caixa de CDs
Título: Paralelas
Artista: Belchior
Gravadora: Warner Music
Cotação: * * * *
♪ Há paralelo curioso entre os cultos a Antonio Carlos Belchior (26 de outubro de 1946 – 30 de abril de 2017) e a Raul Seixas (1945 – 1989). Ambos os cantores e compositores são idolatrados pelos respectivos séquitos por conta de obras que marcaram época ao longo da década de 1970 e, depois, perderam impulso e inspiração, ainda que os artistas tenham gravado discos eventualmente bons após o período áureo.
O desnível do cancioneiro de Belchior é sinalizado pelas escolhas dos repertórios selecionados pelo cantor e compositor cearense para os dois álbuns retrospectivos embalados pela gravadora Warner Music na recente caixa Paralelas (2020), lançada em dezembro.
Nada menos do que 14 das 19 composições autorais são dos anos 1970. Projeto do jornalista e pesquisador musical Renato Vieira, autor dos textos inseridos nos encartes dos discos, o box Paralelas reapresenta dois álbuns retrospectivos de Belchior, Um show – 10 anos de sucesso (1986) e Trilhas sonoras (1990), ambos até então nunca editados em CD.
Pelas capas, tem-se a impressão de que se trata de discos ao vivos, mas os álbuns foram gravados em estúdio, embora, sim, ambos se originem de shows em que Belchior dava voz a um cancioneiro autoral que adquiriu relevância geracional por ter traduzido em verso as angústias e decepções de quem acreditou na mudança do mundo com as armas pacíficas do exército hippie.
Editados originalmente pela gravadora Continental, os dois álbuns possuem repertórios complementares que, por não repetirem sequer uma música, acabam montando painel expressivo da obra de Belchior na década de 1970.
Remasterizado por Ricardo Garcia, o som do álbum Um show – 10 anos de sucesso resulta quente no CD, graças à remasterização do sempre certeiro Ricardo Garcia. Os “dez anos de sucesso” do título do disco aludia ao fato de que, em 1986, completava uma década do álbum que projetara Belchior, Alucinação (1976), pedra fundamental da obra do compositor.
Desse disco, o cantor revive Como nossos pais e Velha roupa colorida, músicas apresentadas ao Brasil na voz de Elis Regina (1945 – 1982) em novembro de 1975 no show Falso brilhante (1975 / 1977).
Contudo, o maior destaque do álbum é a abordagem densa de Paralelas (1975) em gravação que adquire clima meio progressivo em algumas passagens (sobretudo na introdução) pelo toque dos sintetizadores de Raposo. Também no piano, Raposo dividiu a direção artística e os arranjos do disco com o baixista João Mourão (produtor musical do disco de 1990).
Surpreendentemente, os arranjos jamais soam datados e dominados pelos timbre sintetizados do tecnopop dos anos 1980. Há aura do rock’n’roll da década de 1950 em volta de Canção de gesta de um trovador eletrônico (1984) e há flertes com a cadência do reggae em Comentário a respeito de John (1979) e Medo de avião (1979) – destaques do último álbum do artista a emplacar um hit popular, sintomaticamente no fecho da década de 1970.
Com palmas que simulam clima de gravação ao vivo, feita em estúdio com a presença de pequena plateia e com direito à apresentação dos músicos como se o cantor estivesse no palco, o álbum Trilhas sonoras é baseado no homônimo show que Belchior vinha apresentando pelo Brasil com a banda Radar – e cabe lembrar que, mesmo em épocas crepusculares, o cantor nunca deixou de ter agenda cheia pela fidelidade de público disposto a ouvir músicas como Coração selvagem (1977).
No todo, o repertório de Trilhas sonoras é menos aliciante do que o álbum de 1986. Faltou a centelha de brilho e também a (sutil) inovação dos arranjos do disco gravado quatro anos antes pelo cantor. E, quando houve inovação, como o sopro de latinidade bafejado na recém-descoberta Sujeito de sorte (1976), a mudança foi para pior pela diluição da densidade da letra que embute versos do cordelista paraibano Zé Limeira (1886 – 1954).
De toda forma, para colecionadores de discos, é importante que esses dois álbuns menos ouvidos de Belchior estejam enfim disponíveis em CD em edições de capricho evidenciado inclusive na reprodução das letras das músicas no encarte. Até porque sempre haverá novos ouvintes dispostos a conhecer a obra do artista.
Revelado para o Brasil em 1971, ano em que registrou Na hora do almoço, canção interiorizada que havia sido apresentada em festival daquele ano, o cearense de Sobral (CE) construiu obra que carregou o peso da cabeça desse artista singular.
E é pela força dessa obra, notadamente a da década de 1970, que, 50 anos depois, o nome de Antonio Carlos Belchior ainda mobiliza público e gera reedições como a da bem-vinda caixa Paralelas, indicada sobretudo para quem ainda traz na cabeça as canções do artista naquela década áurea.