Bebel Gilberto se enfraquece na rota sem cor da viagem reflexiva de ‘Agora’


Sexto álbum solo de estúdio da artista é prejudicado por safra autoral sem poder de sedução e pela linear estética eletrônica do produtor musical Thomas Bartlett. Capa do álbum ‘Agora’, de Bebel Gilberto
Luigi & Ianco
Resenha de álbum
Título: Agora
Artista: Bebel Gilberto
Gravadora: [Pias] Recordings
Cotação: * *
♪ Em 1980, Isabel Gilberto de Oliveira era adolescente de 14 anos – a Bebel, cujo currículo já incluía participação no musical infantil de teatro Os saltimbancos (1977) – quando entrou em cena para cantar o samba Chega de saudade (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1958) com o pai João Gilberto (1939 – 2019).
O número do especial de TV João Gilberto Prado Pereira de Oliveira – exibido pela Rede Globo na série Grandes nomes, sensação da programação musical da TV naquele ano de 1980 – foi perpetuado no álbum editado na sequência com o áudio do programa.
Quarenta anos depois, em 2020, o imortal João Gilberto já inexiste no plano físico e Bebel se vê às voltas com questões jurídicas relativas ao espólio do pai. E as ausências de João e da mãe Miúcha (1937 – 2018) na vida de Bebel rendem mais assunto (e interesse) nas entrevistas que a artista vem concedendo para divulgar o álbum Agora – programado para chegar ao mercado fonográfico na sexta-feira, 21 de agosto, em edição da gravadora belga [Pias] Recordings – do que o disco em si.
Sexto álbum solo de estúdio de discografia iniciada pela artista em 1986 com o EP Bebel Gilberto, centrado nas parcerias da cantora com os amigos Cazuza (1958 – 1990) e Dé Palmeira, Agora chega ao mundo 20 anos após o único álbum realmente relevante de Bebel, Tanto tempo (2000).
Muito por mérito da sofisticada produção musical de Suba (1961 – 1999), artista sérvio residente no Brasil que morreu em incêndio um ano antes do CD ser lançado nos Estados Unidos, a cantora de origem nova-iorquina deslumbrou o mundo ao gravar standards da música brasileira em clima de bossa nova, mas com atmosfera eletrônica – fórmula que seria usada à exaustão, mas que era uma bossa realmente nova em 2000, com destaque para a recriação inebriante do Samba da benção (Baden Powell e Vinicius de Moraes, 1966).
Ao longo dos 20 anos que separam os álbuns Tanto tempo e Agora, Bebel veio tentando se impor como compositora no mercado internacional com álbuns de repertórios irregulares como Bebel Gilberto (2004), Momento (2007) e All in one (2009) em discografia que foi perdendo paulatinamente o poder de sedução, ainda que o álbum que antecedeu Agora, Tudo (2014), tenha resultado mais interessante pela atmosfera romântica, pela elegância da produção de Mario Caldato Jr. e pelo tom pop que sugeriu potencial comercial jamais revertido em vendas expressivas no mercado internacional.
Produzido pelo pianista norte-americano Thomas Bartlett, parceiro de Bebel nas 11 músicas que compõem o inédito repertório autoral, o álbum Agora soa sem poder de sedução para tirar o foco das questões de Bebel com João Gilberto.
Bebel Gilberto manda recado póstumo para João Gilberto em ‘O que não ficou’, uma das 11 canções do álbum ‘Agora’
Luigi & Lango / Divulgação
A fraqueza da safra autoral do disco já vinha sendo sinalizada pelos três singles que antecederam o álbum. Deixa (samba cuja edição em single, em março, anunciou oficialmente a chegada do álbum, inicialmente previsto para maio), Bolero (relato impressionista de lembranças de amor vivido em Madrid e sintetizado na música escrita em espanhol e também assinada por Jennifer Charles) e Na cara (samba pop composto e gravado com Mart’nália, mas com o suingue moleque da parceira carioca abafado pela textura eletrônica da faixa) deram a pista de disco enquadrado na sintética moldura sonora de Thomas Bartlett.
A atmosfera fluida do disco – percebida já em Tão bom, faixa pretensamente relaxante que abre o álbum Agora, e potencializada na viagem etérea da música final Teletransportador – dilui emoções reais, como o recado terno de Bebel para João Gilberto nos versos sensíveis da canção O que não foi dito.
Com versos bilíngues, Cliché faz jus ao título ao evocar ambiência de bossa nova eletrônica sem o frescor de 20 anos atrás. Com versos falados e sintetizado baticum afro-brasileiro também abafado pelas camadas eletrônicas, a música-título Agora exemplifica a linearidade da estética sonora do álbum.
De acordo com a ficha técnica do encarte da edição em CD do álbum Agora, Thomas Bartlett faz uso em todas as 11 faixas de piano, programação, percussão, mellotron, Rhodes bass, percussão e o sintetizador-sampler OP-1, sendo eventualmente acompanhado pelo baterista e percussionista paraense Magrus Borges, especialista em tirar sons amazônicos.
De todo modo, a fluidez do cancioneiro autoral de Bebel Gilberto é o ponto determinante para a fraqueza do álbum Agora. Canções como Essence, escritas em português, escancaram o tom meditativo de disco que poderia ter ganhado mais vida com outras parcerias da artista. Faltou o colorido mencionado em verso de Raio, música gravada com os vocais de Mart’nália.
Se havia pulsão vital na criação de músicas como Yet another love song, única composição escrita somente em inglês (com a adesão de Jennifer Charles), esse ímpeto foi sendo dissolvido ao longo dos três anos do processo de gravação do disco.
Nesse período marcado por perdas na vida da artista, o disco foi sendo formatado no estúdio de Thomas Bartlett em Nova York (EUA), cidade onde Bebel Gilberto viveu por cerca de 30 anos antes de retornar à cidade do Rio de Janeiro (RJ), berço da bossa nova que deu relevância, já há tanto tempo, a essa artista que se enfraquece ao longo da reflexiva viagem sem cor feita no álbum Agora.