Banda de Pau e Corda cumpre missão de cantar a vivência nordestina no primeiro álbum de músicas inéditas em 29 anos


Elifas Andreato assina a capa do disco gravado pelo grupo pernambucano com participações de Chico César e Zeca Baleiro. Capa do álbum ‘Missão do cantador’, da Banda de Pau e Corda
Arte de Elifas Andreato
Resenha de álbum
Título: Missão do cantador
Artista: Banda de Pau e Corda
Edição: Biscoito Fino
Cotação: * * * *
♪ A capa criada por Elifas Andreato para Missão do cantador – primeiro álbum de músicas inéditas da Banda de Pau e Corda desde Cristalina (1992), disco editado já há longos 29 anos – é um dos signos que reconectam o grupo pernambucano às origens.
Elifas, cabe lembrar, assinou a antológica capa de Arruar (1978), quarto dos sete álbuns gravados pela banda na década áurea que foi de 1973 – ano do primeiro disco, Vivência – a 1982, ano do LP Coisa da gente.
A reaproximação com José Milton – produtor musical desses sete primeiros álbuns e também do atual Missão do cantador – é outro símbolo da evocação de trajetória ligada à revitalização da música nordestina ao longo da década de 1970.
Formada em dezembro de 1972, no rastro da criação em 1970 do Quinteto Violado, a Banda de Pau e Corda tenta se renovar com Missão do cantador – álbum que chega ao mercado fonográfico na sexta-feira, 23 de abril, em edição da gravadora Biscoito Fino – sem se descolar das origens.
Por mais que oscile eventualmente a qualidade do repertório inédito e autoral, como sinaliza a balada Sinais (Sérgio Andrade), o álbum cumpre a missão de reapresentar a banda como cantadora contemporânea das tradições e da sintaxe da parcela da música nordestina que se conservou imune ao vírus do pop industrializado em vigor no mercado de forró.
Já sem Roberto Andrade (bateria) e Paulo Resende (baixo), músicos falecidos em 2017 que fundaram o grupo com o remanescente vocalista e percussionista Sérgio Andrade, a Banda de Pau e Corda aglutina atualmente Alexandre Baros (bateria, percussão e vocal), Júlio Rangel (viola e vocal), Sérgio Eduardo (contrabaixo), Yko Brasil (flauta transversal e pífano) e Zé Freire (violão e vocal), além do já mencionado Sérgio Andrade.
A esse sexteto, cuja sonoridade é marcada pela interação da viola com as flautas e com a percussão, traço acentuado por Zé Freire nos arranjos de 11 das 13 faixas do álbum, junta-se turma arretada.
Zeca Baleiro canta Tudo num balaio só, inspirada inédita de Murilo Antunes e Natan Marques. A sanfona de Mestre Gennaro atiça o toque agalopado de Estrela cadente, música de Sérgio Andrade com Waltinho Andrade, integrante da formação original da banda e arranjador da faixa.
A propósito, coube também a Waltinho – até então o principal arranjador do grupo – orquestrar a gravação de Força oculta, outra parceria do artista com Sérgio Andrade, compositor solitário de temas como o xote Desvario, o baião Guardador de sonhos e as canções Sem fim e Sonho interior (tema ruralista cujo arranjo vocal ecoa a prosódia harmoniosa de grupos como Boca Livre).
Banda de Pau e Corda lança o álbum ‘Missão do cantador’ na sexta-feira, 23 de abril
Diego Araújo / Divulgação
Aberto com a música-título Missão do cantador (Sérgio Andrade), tema que exalta os poetas e repentistas nordestinos com toque político (“Na voz do cantador, tem unguento para aliviar o açoite”),o álbum afia a consciência social em Fogo de braseiro (Sérgio Andrade), tema ardente cuja quentura política é acentuada pelo canto do convidado Chico César e pelo pífano abrasivo tocado por Alexandre Rodrigues, o Copinha.
Em clima mais brando, o lirismo melancólico de Sonhadora – canção assinada pelo trio Roberto Andrade, Sérgio Andrade e Waltinho Andrade – sobressai pela beleza melódica e poética da composição, destaque de álbum encerrado com o já conhecido frevo Quer mais o quê? (2020), gravado pela Banda de Pau e Corda com o autor da composição, Marcello Rangel, e apresentado em single editado em janeiro do ano passado.
Mesmo sem a densidade que pautou álbuns como Redenção (1974) e Assim… amém (1976), o disco Missão do cantador reposiciona a Banda de Pau e Corda no mercado fonográfico, ao qual o grupo retornara há três anos com o retrospectivo CD 45 anos ao vivo (2018).
Citando letra da faixa-título Missão do cantador, a Banda de Pau e Corda vai onde tem que ir – e até onde pode ir – neste álbum com ânimo há muito ausente na discografia do grupo.